Mulheres transgênero são aquelas que, ao nascer, foram designadas ao gênero masculino, mas não se identificam com ele. Algumas passam por terapias hormonais e procedimentos médicos de adequação de gênero, e são reconhecidas socialmente como mulheres. Nas competições esportivas, portanto, as mulheres trans competem entre mulheres. Esse encaixe gera controvérsia e muitas vezes levanta questionamentos – há quem se preocupe que os traços físicos do sexo masculino possam conferir vantagens injustas na competição.
Agora, a maior revisão sistemática já feita sobre o tema aponta que as mulheres trans são igualmente aptas fisicamente, e não apresentam vantagens físicas inerentes em relação às mulheres cisgênero (que se identificam com o mesmo gênero ao qual foram designadas ao nascer).
O estudo, publicado British Journal of Sports Medicine no último dia 3, analisou 52 estudos que mediam fatores como composição corporal, massa muscular e força física de indivíduos trans e cis. No total, foram reunidos dados de quase 6.500 participantes, incluindo cerca de 2.900 mulheres trans e 2.300 homens trans. As idades variaram entre 14 e 41 anos, mas a maioria dos estudos se concentrava em adultos.
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A análise sugere que a fisiologia de mulheres trans era distinta dos corpos de mulheres cis, mas não o suficiente para criar qualquer vantagem física observável. Segundo os estudos, mulheres trans apresentam níveis de gordura corporal comparáveis aos de mulheres cis. Já a massa magra (que engloba tudo além da gordura, como a massa dos músculos e ossos) tende a ser maior em mulheres trans que em mulheres cis. Mesmo assim, não foram observadas diferenças significativas entre os níveis de força de ambas as categorias, tampouco na absorção máxima de oxigênio.
Uma justificativa comum usada para explicar as supostas vantagens de atletas trans tem a ver com o desempenho maior que corpos masculinos geralmente têm sobre corpos femininos – isto é, mesmo após a transição, mulheres trans manteriam os benefícios do corpo masculino. Porém, as evidências contrariam isso: o estudo também indica que, comparadas a homens cis, mulheres trans são consideravelmente menos fortes, têm mais massa gorda, menos massa magra e absorvem menos oxigênio.
Por outro lado, a massa e a força de homens trans – aqueles que, ao nascer, foram designadas ao gênero feminino, mas não se identificam com ele– geralmente ficava no meio entre os níveis de mulheres cis e de homens cis.
A análise levou em consideração apenas indivíduos trans que passaram pela terapia hormonal de adequação de gênero. Isto é, os regimes de hormônios e bloqueadores hormonais que adequam a fisionomia de uma pessoa ao gênero com o qual ela mais se identifica.
Mulheres trans, por exemplo, podem passar por um processo de feminização, que envolve a administração do estradiol, o hormônio sexual feminino, e anti-androgênicos, que bloqueiam os hormônios masculinos. É comum que os bloqueadores sejam usados ainda durante a juventude, para barrar o desenvolvimento da puberdade masculina.
Os efeitos mais óbvios desses tratamentos geralmente são o crescimento das mamas e a redistribuição de gordura para os quadris e coxas, além do afinamento da pele. Mas também é esperado que haja uma diminuição da massa muscular.
Já em homens trans, o processo de masculinização envolve a administração de testosterona, o hormônio sexual masculino, e geralmente resulta em várias outras mudanças, como engrossamento da voz, crescimento de pelos e aumento da massa muscular.
Procedimentos que alteram a fisionomia (como a hormonização e cirurgias de readequação) não são um pré-requisito para a transição de gênero, e nem todas as pessoas trans tomam hormônios – seja por escolha, seja pela falta de disponibilidade. Entre os indivíduos transgênero que se identificam com os binários “homem” ou “mulher”, cerca de 20% não fazem terapia hormonal (um número que salta para quase 70% entre pessoas não-binárias, que não se identificam com nenhum desses dois gêneros). Esses dados foram obtidos por outra revisão científica, que juntou dados de nove estudos, abrangendo sete países, mas sem informações sobre o Brasil.
Ainda assim, os regulamentos de boa parte das competições esportivas de alto nível requerem algum grau de hormonização, como uma maneira de nivelar o desempenho dos competidores a níveis considerados justos.
Tendo isso em mente, a análise também procurou avaliar os impactos de tratamentos hormonais no desempenho físico de pessoas trans. Após um período de 1 a 3 anos de terapia hormonal, os níveis de força de mulheres trans se mostravam os mesmos que em mulheres cis. O que também refuta a tese de que, após passar pela puberdade masculina, mulheres trans continuariam com um pé-na-frente fisiológico pelo resto da vida.
A maioria dos estudos analisados trabalhava com populações sedentárias, e apenas dois contavam exclusivamente com atletas amadores. O que já era esperado: pessoas trans compõem uma parcela muito pequena do número total de atletas. Nos EUA, menos de 0,002% dos atletas universitários são transgênero. Pelo mesmo motivo, hoje existem poucos estudos que olham para atletas trans em competições de alto nível, nas Olimpíadas, por exemplo,
Tendo isso em vista, “nós devemos ser cuidadosos ao extrapolar [os achados] diretamente para os esportes de elite”, alerta Bruno Gualano, professor da USP e co-autor da análise, em entrevista ao Live Science. Ainda assim, “se houvesse grandes vantagens físicas intrínsecas, nós esperaríamos observá-las até em populações não-atléticas, o que não foi o caso”.
“O desempenho esportivo envolve condição física, técnica, tática, psicologia, experiência e contexto da modalidade. Não existe um único marcador que capture tudo. Então, a gente usa marcadores gerais de desempenho. Capacidade física é um marcador de desempenho. Força de membros inferiores, força de membros superiores, o consumo máximo de oxigênio, são indicativos. Não necessariamente quem tem esses atributos vai ganhar. Ainda mais quando a gente pensa em um esporte como, por exemplo, futebol, basquete ou vôlei, que envolve um talento inato do sujeito também, habilidades específicas, desempenho coletivo e contingências de uma partida. Isso é muito difícil de mensurar em estudos científicos”, afirma Gualano ao Jornal da USP.
Como os regulamentos esportivos tratam a questão trans
Nesse último sábado (7), o Comitê Olímpico Internacional (COI), autoridade máxima que rege as Olimpíadas, anunciou que havia chegado a um consenso em relação aos novos critérios de elegibilidade para atletas transgênero. A nova política deve ser anunciada ainda na primeira metade deste ano, e deve unificar as regras em regras sobre o tema em todos os esportes.
Antes, cada federação do COI determinava critérios próprios para seus respectivos esportes. Agora a expectativa é que, com o regulamento geral, novas restrições sejam impostas a atletas trans que completaram a puberdade masculina antes da terapia hormonal.
A movimentação por um regimento universal teve início após a posse de Kirsty Coventry, a primeira mulher a presidir o COI, em junho de 2025. Já naquele mês, Coventry anunciou que o Comitê elaboraria uma nova política de elegibilidade de gênero. A motivação, segundo ela, era “proteger a categoria feminina, antes de tudo”.
Em fevereiro de 2025, a Casa Branca publicou uma ordem executiva intitulada “Afastando homens de esportes femininos”, que proibia a participação de estudantes trans em categorias esportivas femininas. O documento, assinado por Donald Trump, atribui ao presidente a responsabilidade de “proteger as oportunidades de mulheres e meninas de competir em esportes seguros e justos”.
O texto também ordena que grandes entidades esportivas promovam “políticas justas e seguras, no melhor interesse de atletas femininas”. Em resposta, o Comitê Olímpico e o Comitê Paralímpico dos Estados Unidos proibiram a participação de atletas trans em categorias femininas.
Em novembro de 2025, em apresentação ao COI, a diretora médica e científica da entidade, Jane Thornton, apresentou os resultados de uma “revisão baseada na ciência” que serviria de base para a elaboração das novas diretrizes. De acordo com Thornton, as vantagens físicas de nascer com um corpo masculino persistem nas atletas, mesmo após tratamentos hormonais para a “redução dos níveis de testosterona”. A tal revisão que embasa o argumento, entretanto nunca foi publicizada.
O novo regulamento também atingiria pessoas “criadas como meninas desde o nascimento, mas que apresentam cromossomos masculinos e níveis masculinos de testosterona”. É o caso dos atletas intersexo, que naturalmente têm anatomias que divergem dos entendimentos tradicionais sobre sexo biológico.
Em dezembro de 2025, Coventry anunciou que testes cromossômicos voltariam a ser usados para determinar o sexo de atletas olímpicos – uma prática abandonada há mais de 30 anos. Mulheres que não passarem no teste serão eliminadas em todas as categorias femininas de competições internacionais.
Por enquanto, porém, continuam valendo as regras antigas das federações, assim como as orientações feitas pelo COI em 2021, que partem do princípio da “não presunção de vantagem”. Basicamente, ninguém tem nenhuma vantagem até que se prove o contrário. O princípio se aplica aos atuais Jogos Olímpicos de Inverno que, pela primeira vez, tem um atleta abertamente trans. Se trata do esquiador sueco Elis Lundholm: ele é homem trans, mas, como não passou por nenhuma terapia de adequação de gênero, compete na categoria feminina.
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Fonte: abril






