Seja nas páginas dos livros ou nas telas dos cinemas, histórias clássicas atravessam gerações. Mas o que antes era considerado “normal” pode ter “envelhecido mal” na análise moral da sociedade contemporânea. Mais do que isso, o que antes não configurava incentivo a coisas ilícitas, pode ter mudado com o passar dos anos e renovação de legislações. Por isso, órgãos reguladores revisam obras de décadas atrás.
A exemplo disso, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) publicou análise de duas obras amplamente conhecidas do público, ambas nascidas na literatura e consagradas no cinema. O resultado? mudanças de horários recomendados para a TV e até a perda do selo “livre” de uma famosa aventura infanto-juvenil.
O primeiro caso envolve um clássico absoluto do terror gótico: “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (Sleepy Hollow, 1999), dirigido por Tim Burton. A obra cinematográfica é uma adaptação do famoso conto literário de Washington Irving, publicado originalmente em 1820.
Após passar pelo procedimento de revisão, o Ministério da Justiça optou por manter a classificação máxima de “Não recomendado para menores de 18 anos”.
- O motivo: A análise técnica identificou conteúdos pesados que justificam o selo adulto, como cenas de mutilação, tortura, morte intencional, exposição de cadáver e relação sexual intensa.
- O que muda: Os descritores de conteúdo (os avisos que aparecem na tela) foram atualizados para especificar a presença de conteúdo sexual, drogas lícitas, medo e violência extrema. Além disso, caso uma emissora decida exibir o filme em televisão aberta, a recomendação oficial é que ele vá ao ar apenas a partir das 23h.
A maior surpresa da revisão, no entanto, ficou por conta de “Peter Pan” (versão em live-action de 2003). A história do menino que se recusa a crescer, criada por J.M. Barrie na literatura no início do século XX e eternizada em diversas adaptações, perdeu o seu antigo selo de “classificação livre”.
A pasta determinou que o filme agora é “não recomendado para menores de 12 anos”, apontando a presença de conteúdos de violência.
- Por que mudou? Em uma análise detalhada, os técnicos apontaram que a obra traz elementos como morte intencional, sofrimento da vítima, lesão corporal, presença de sangue, uso de armas com violência e até indução ao uso de droga lícita (uma referência direta ao uso do cachimbo pelos piratas e nativos na clássica dinâmica da Terra do Nunca).
- O peso da fantasia: O filme só não recebeu uma nota ainda mais restritiva porque o Ministério da Justiça considerou o contexto fantasioso da obra. Por se passar em um universo com fadas, sereias, crianças voadoras e piratas caricatos, o impacto da violência é considerado “mitigado” (suavizado).
Com a nova regra, a recomendação para a exibição da clássica jornada do herói contra o Capitão Gancho em TV aberta passa a ser a partir das 20h.
Por que o governo revisa filmes antigos?
Muitos telespectadores se perguntam o motivo de produções de 1999 ou 2003 passarem por reavaliações tanto tempo depois. A resposta está na própria legislação.
A portaria prevê que a classificação indicativa pode ser revisada a qualquer tempo, seja por iniciativa do próprio órgão (de ofício) ou por solicitações fundamentadas da sociedade. O objetivo é ajustar conteúdos exibidos no streaming ou na televisão aberta aos manuais e guias práticos atuais, garantindo que as famílias tenham informações precisas e atualizadas sobre o que seus filhos estão consumindo de forma domiciliar.
As empresas e emissoras têm o prazo de cinco dias, a partir da publicação oficial, para estampar os novos selos e descritores nas telas de todo o país.
O resultado foi publicado no Diário da União desta terça-feira (7).
Fonte: primeirapagina





