Uma operação iniciada durante a Segunda Guerra Mundial ajuda a explicar a trajetória da reserva de ouro da Hungria. No inverno de 1945, funcionários do banco central retiraram do país quase 30 toneladas de barras e moedas para evitar que o patrimônio fosse perdido com o avanço do conflito.
A carga percorreu a região em meio à guerra e chegou a Spital am Pyhrn, na Áustria. Cerca de 600 caixas foram retiradas do trem e transportadas em trenós até uma cripta que, segundo registros do banco central húngaro, não era utilizada desde 1790.
Mais de 680 funcionários e familiares participaram da retirada do banco e de seus valores. A operação ficou conhecida como o trem do ouro e marcou um dos episódios mais importantes da história das reservas do país.
Ouro foi escondido durante a guerra
Além do ouro, os comboios levavam moeda estrangeira, documentos e outros bens considerados estratégicos para o Estado húngaro. A intenção era preservar o patrimônio diante do colapso causado pela Segunda Guerra Mundial.
Com a aproximação das forças aliadas, dirigentes do banco central buscaram contato com os Estados Unidos. Em maio de 1945, os valores foram transferidos para Frankfurt, onde permaneceram até que fossem definidos os termos de devolução.
Em junho de 1946, uma delegação húngara negociou em Washington o retorno dos bens. A nova moeda entrou em circulação em 1º de agosto daquele ano. Cinco dias depois, os metais preciosos foram devolvidos à Hungria.
Reserva ajudou na estabilização monetária
A devolução das cerca de 30 toneladas de ouro não resolveu sozinha a hiperinflação que atingia a Hungria. O processo também exigiu reformas de preços e salários, medidas fiscais e recuperação da oferta.
Mesmo assim, o banco central húngaro considera que o retorno do metal teve importância para dar respaldo e confiança à estabilização monetária. O patrimônio que havia sido escondido durante a guerra passou a integrar o esforço de reconstrução econômica.
Estoque caiu para apenas 3,1 toneladas
Nas décadas seguintes, a trajetória da reserva mudou. O estoque estava entre 40 e 50 toneladas no fim dos anos 1980, mas caiu de forma gradual durante a transição política, chegando a 3,1 toneladas entre 1989 e 1992.
Esse nível permaneceu praticamente estável até setembro de 2018. A partir daquele momento, o país iniciou uma nova estratégia para ampliar sua reserva.
- Outubro de 2018: a reserva subiu para 31,5 toneladas;
- 2021: o estoque alcançou 94,5 toneladas;
- Três anos depois: uma compra de 15,5 toneladas levou o total a 110 toneladas.
Em apenas seis anos, o volume aumentou mais de 35 vezes em relação ao nível de 3,1 toneladas mantido durante décadas. Segundo o banco central, as aquisições atenderam a objetivos estratégicos diante do aumento das incertezas econômicas e geopolíticas.
Hungria mantém recorde histórico em 2026
O estoque de ouro continua em 110 toneladas em 2026. Em comunicado divulgado neste ano, o banco central informou ainda que o país possui aproximadamente € 60 bilhões em reservas internacionais.
A justificativa atual para manter uma reserva elevada está ligada ao papel do metal como ativo de reserva e proteção em períodos de tensão financeira e geopolítica. Na avaliação da autoridade monetária, o ouro também pode contribuir para reforçar a estabilidade.
A história mudou de escala, mas a lógica permanece. Em 1945, centenas de pessoas transportaram caixas para proteger o patrimônio diante de uma guerra. Décadas depois, a Hungria voltou a ampliar sua reserva para reduzir a exposição a cenários de incerteza.
Fonte: cenariomt





