O agronegócio brasileiro enfrentou um aumento expressivo nos pedidos de recuperação judicial em 2024, conforme apontam dados da Serasa Experian. Foram registradas 1.272 solicitações ao longo do ano, um crescimento de 138% em relação a 2023, quando houve 534 pedidos. O levantamento considera produtores rurais, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, além de empresas do setor agropecuário, evidenciando os desafios financeiros enfrentados no campo.
O crescimento das recuperações judiciais reflete um contexto de juros elevados, alta nos custos de produção — incluindo insumos, fertilizantes e defensivos — e oscilações cambiais que impactam importações. Além disso, adversidades climáticas, como secas e excesso de chuvas em regiões produtoras, agravaram a situação.
No último trimestre de 2024, foram registrados 320 pedidos, número superior ao do terceiro trimestre (254), sugerindo um represamento das demandas ao longo do ano. Apesar do avanço significativo, os pedidos de recuperação ainda representam uma parcela pequena frente aos 1,4 milhão de produtores que acessaram crédito rural nos últimos dois anos.
Perfis mais impactados
Os dados revelam que o maior aumento proporcional ocorreu entre os produtores rurais pessoa física, com 566 pedidos em 2024, um salto de 346% em relação a 2023. Desses, os grandes proprietários lideram as solicitações (132), seguidos pelos pequenos (113) e médios (97). Além disso, 224 pedidos foram feitos por arrendatários e grupos familiares. Os estados de Mato Grosso e Goiás concentram a maior parte dos casos.
Entre os produtores pessoa jurídica, foram 409 solicitações no ano, alta de 152% na comparação anual. O cultivo de soja foi o segmento mais impactado, com 222 casos, seguido pela pecuária bovina (75) e pela produção de cereais (49).
Já no segmento empresarial, o número de pedidos cresceu 21%, chegando a 297 em 2024. As agroindústrias de transformação primária foram as mais afetadas (73 pedidos), seguidas pelos serviços de apoio à agropecuária (64). São Paulo e Paraná lideram os registros.
Prevenção e gestão de risco
Diante desse cenário, a Serasa Experian destaca a importância de ferramentas de análise de risco para mitigar os impactos financeiros. O Agro Score, por exemplo, permite avaliar a capacidade de pagamento dos produtores e evitar concessões de crédito a perfis instáveis.
Segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, análises preditivas já indicavam que muitos dos produtores que recorreram à recuperação judicial em 2024 apresentavam pontuação de crédito reduzida três anos antes do pedido. “Modelos preditivos permitem decisões mais seguras, protegendo o mercado de operações arriscadas”, afirma.
Com o encerramento de um ano desafiador, especialistas apontam que o uso de tecnologia e gestão eficiente do crédito podem contribuir para equilibrar a saúde financeira do agronegócio nos próximos meses. No entanto, fatores como a política de juros, o comportamento do câmbio e o impacto do clima seguirão sendo determinantes para a recuperação do setor.
Fonte: cenariomt