Conforme o profissional, a inclusão escolar de crianças autistas vai muito além de simplesmente matriculá-las em uma sala de aula. Trata-se de garantir que elas tenham oportunidades reais de aprendizado, desenvolvimento e convívio social, com estratégias pedagógicas adaptadas e um ambiente acolhedor.
“A verdadeira inclusão exige planejamento de estratégias que favoreçam o desenvolvimento e a participação ativa da criança no ambiente escolar. Não é inclusão quando toda a turma está envolvida em conteúdos complexos enquanto a criança autista permanece isolada em uma atividade sem propósito pedagógico. Inclusão é oferecer pertencimento, dignidade e oportunidades reais de aprendizado”, afirma Raphael.
A adaptação do currículo para crianças autistas deve ser feita por profissionais qualificados e de forma individualizada, considerando as necessidades específicas de cada aluno. A escola jamais deve aplicar o mesmo PEI (Plano de Ensino Individualizado) para todas as crianças autistas, pois o que funciona para uma pode não funcionar para outra. Cada criança precisa de estratégias que façam sentido para o seu modo de aprender.
Outro ponto destacado por Raphael é em relação ao bullying, presente nas escolas. Crianças atípicas podem ser mais vulneráveis ao bullying, mas isso não é inevitável. “Não é a existência do autismo em si que promove o bullying, e sim a ausência de discussões sobre capacitismo, empatia e respeito à diversidade. Ações educativas envolvendo alunos, professores e famílias são fundamentais para criar um ambiente seguro”, explica.
“Nenhum estudante nasce fazendo bullying, essa prática vai sendo normalizada no contexto escolar pouco a pouco por não haver medidas sérias para lidar com o assunto”, complementa.
Um caso que representa a importância da conscientização dos responsáveis e pais de alunos no auxílio da inclusão escolar de crianças autistas é do pequeno José Caetano, de três anos, autista nível três de suporte e não verbal, que entrou na creche neste ano.
A mãe de José, Nany Bologna, 31 anos, preparou bilhetes, que foram entregues, explicando a condição do filho aos pais dos colegas de classe. Uma de suas preocupações era o fato de o menino usar garrafas de água como estereotipia (comportamentos repetitivos comuns no autismo), podendo pegar os objetos dos outros sem pedir, já que ele não se comunica verbalmente.

“Fiquei ansiosa com o início da jornada escolar dele porque ele pega as garrafinhas de todo mundo nas terapias. Pensei na reação das crianças quando ele pegasse sem pedir, uma vez que ele não fala e não entende algo básico como um ‘não’”, relata Nany.
A iniciativa da mãe reflete a importância da conscientização para que a inclusão aconteça de forma natural e respeitosa.
“Pensei que os pais dessas crianças poderiam ajudar nesse processo, desde que saibam do que se trata, então tive a ideia de fazer o panfleto apresentando-o e a condição dele. Sei que não posso lutar muitas batalhas no lugar dele, mas não significa que não podemos lutar juntos”.
No bilhete, ela explica que o filho faz 20 horas mensais de terapias para aprender a brincar e conviver com colegas não autistas “de maneira digna e feliz”. Nany ainda reforça que o filho não é violento e que gosta muito das garrafas de água para a estereotipia, algo que ele também vai aprender a controlar com tempo e terapia.
“Sei que não será fácil. crianças são crianças, mas que seja da maneira mais cheia de amor que pudermos fazer”, afirma Nany.
Em casos de crises ou comportamentos desafiadores, Raphael explica que a escola deve ter um protocolo de conduta claro, principalmente quando a criança já apresenta histórico dessas situações. A prioridade sempre deve ser a prevenção, identificando sinais de que a criança pode estar entrando em crise e agindo antes que ela ocorra.
“Nenhuma criança quer ter uma crise, pois é um momento de grande sofrimento para ela e para quem está ao redor. Caso ela ocorra mesmo tentando prevenir, as estratégias variam conforme cada caso, pode-se utilizar técnicas de respiração, oferecer um ambiente seguro para autorregulação ou até propor um passeio pelo pátio. O importante é que cada ação seja discutida com a equipe e avaliada constantemente para garantir que realmente ajude a criança, sem que aquela ação esteja tendo um efeito contrário de potencializar a crise em situações futuras”, explica o profissional.
José Caetano estuda na mesma escola em que a irmã mais velha já frequentava e Nany reforça que o espaço trabalha com “seriedade, amor e inclusão”, além de abordar o tema com as outras crianças sempre com naturalidade e respeito.
O psicólogo Raphael Alves afirma que uma dúvida comum entre a população é se a inclusão dos alunos autistas pode atrapalhar o aprendizado de alunos típicos. Ele reforça que com planejamento e seriedade dos profissionais, o ambiente escolar acaba ficando mais enriquecido.
“Já estive em escolas em que as outras crianças ajudavam o coleguinha autista quando ele precisava de algum suporte, demonstravam um cuidado e uma preocupação. Uma escola inclusiva de verdade estimula que todos os estudantes a serem mais cooperativos e respeitosos. Isso é fundamental levando em conta que escola não é só para aprender matemática e português, é um local de desenvolver valores para a convivência em comunidade”, afirma o profissional.
Nisso, o psicólogo reforça a discussão complexa sobre a matrícula de alunos autistas em escolas especiais. Para ele, a prioridade é sempre fazer com que todos os estudantes convivam com a diversidade, mas nem sempre a escola está pronta para implementar uma inclusão total dos alunos com autismo.
“Ao mesmo tempo, também é muito fácil uma escola de educação especial se tornar simplesmente um ambiente de exclusão, de negação da diferença na sociedade. Em outros países é comum existir ambientes de educação especial como uma forma de transição para as escolas regulares. Aqui esse debate ainda tem muito chão e envolve questões políticas e de estrutura da educação brasileira”, explica.
As escolas brasileiras são obrigadas a aceitar matrícula de crianças autistas, conforme a legislação, que garante os direitos à essa parcela da população. No país, o transtorno do espectro autista (TEA) é considerado uma deficiência, portanto eles têm todos os direitos legais dados à estudantes com deficiência. Se a família perceber que a escola fechou as portas ou está criando barreiras para a matrícula, cabe uma denúncia no Ministério Público e até abertura de um Boletim de Ocorrência.
Fonte: Olhar Direto