Na última semana, veículos de notícia brasileiros reportaram que a sensação térmica em alguns locais poderia chegar a 70ºC, graças à onda de calor que assola o país. Não é segredo que o Brasil enfrenta temperaturas altíssimas, mas por que sentimos mais calor do que mostra o termômetro? Para entender, vale revisar alguns conceitos básicos de física do ensino médio.
Temperatura
A temperatura é uma grandeza física que mede o grau de agitação das partículas de um corpo. Quanto mais agitadas, maior a energia interna e, consequentemente, maior a temperatura. Para ilustrar, imagine uma festa: quanto mais pessoas pulando e dançando, mais quente fica o ambiente. Da mesma forma, quando as moléculas se agitam menos, a temperatura diminui.
A temperatura é medida com termômetros, sendo o de mercúrio o mais comum. O mercúrio é altamente sensível a variações de temperatura, e quando partículas externas a esse elemento vibram, ele se expande até igualar sua temperatura à do ambiente. Quando o tempo esfria, o mercúrio sofre contração térmica.
A diferença de temperatura entre dois corpos faz com que eles transfiram energia de forma espontânea: o corpo mais “quente” cede energia ao mais “frio”, buscando igualar suas temperaturas. Esse processo de transferência de energia é o que chamamos de calor.
Com isso em mente, fica mais fácil compreender o que é a sensação térmica.
Sensação Térmica
A sensação térmica está relacionada a como nossos corpos percebem a temperatura. A transferência de energia entre nossas mãos e os objetos que tocamos afeta essa percepção: mesmo que uma tábua de madeira e um cano de aço estejam em equilíbrio térmico, sentimos o aço como mais frio.
Isso acontece na nossa pele inteira. Quando fatores climáticos como umidade, radiação solar e velocidade do vento alteram a transferência de calor entre o ar e o corpo, a sensação térmica é criada.
Segundo Bárbara Antonucci, do Núcleo de Climatologia Aplicada ao Meio Ambiente da USP, “a sensação térmica é uma estimativa do conforto de uma pessoa com a temperatura do ambiente. Isso é medido por índices de conforto térmico, ou seja, equações que avaliam o (des)conforto com base na temperatura e na umidade do ar.”
O tempo quente e úmido eleva a sensação térmica a índices mais altos do que os registrados pelos termômetros.
É possível atingir 70ºC de sensação térmica?
Essa previsão vem de uma tabela criada pelo Núcleo de Climatologia da USP, que combina a umidade do ar (na parte superior da tabela, em porcentagem) e a temperatura real (à esquerda).

Por exemplo, se uma cidade registra 36°C e a umidade é de 65%, a sensação térmica será de 52°C.
Já em um local com 39°C e 95% de umidade, a sensação térmica pode chegar a 70°C — como foi previsto para Porto Alegre no dia 11 de fevereiro. Acontece que, para chegar a este extremo, os dois dados devem ocorrer ao mesmo tempo. No caso, Porto Alegre nunca chegou ao limite, já que o cálculo foi feito usando a umidade da madrugada e a temperatura do período da tarde. Mas nem por isso os sulistas tiveram paz, já que a sensação térmica na data alcançou 47°C.
Embora pareça extremo, a humanidade já caminha para esse novo normal. Em 2024, o aquecimento global ultrapassou pela primeira vez os 1,5°C. O Rio de Janeiro mesmo registrou 62,3°C em março do ano passado. Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o Brasil será um dos países mais afetados pelo aumento das temperaturas.
Antonucci alerta que, de modo geral, “os índices de conforto térmico no Brasil indicam que temperaturas superiores a 35°C e umidade acima de 60% geram um desconforto extremo.”
Apesar disso, a sensação térmica divulgada é uma média, e cada pessoa reage ao calor de forma única. A pesquisadora da USP explica que indivíduos mais sensíveis a essas condições de temperatura e umidade podem sofrer mais com o desconforto térmico, e isso varia de acordo com características físicas.
Além de medir o desconforto térmico, a sensação térmica também é uma ferramenta importante para a saúde pública. Situações extremas de calor podem causar diversos problemas, como dor de cabeça, mal-estar, tontura e desidratação. Em casos mais graves, podem resultar em doenças renais, cardiovasculares e até neurológicas.
Por isso, é importante seguir algumas recomendações básicas nesse período: beber bastante água e evitar a exposição ao sol durante as horas mais intensas de calor.
Em nível social, além das adaptações urbanas propostas pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, Bárbara Antonucci destaca a necessidade de revisar a rotina dos trabalhadores, ajustar códigos de vestimenta em ambientes formais, investir em moradias mais resistentes ao calor e priorizar a climatização de transportes e áreas públicas.
Fonte: abril