O domingo começou como tantos outros para José Fernando Honorato. Policial federal aposentado, saiu cedo de casa rumo a uma feira de automóveis, perto do bairro de classe média onde vivia, em busca de um carro usado. Não fechou negócio. No caminho de volta, parou em um restaurante simples, comprou algumas marmitas e voltou para almoçar sozinho.
Depois da refeição, decidiu ir ao cinema do shopping Pier 21, a menos de dois quilômetros da Praça dos Três Poderes. Mas a curiosidade mudaria tudo. No trajeto, um comboio da Polícia Militar do Distrito Federal, acompanhado pelo Bope, cruzou seu caminho. Honorato reduziu a velocidade, observou, e a ideia do filme perdeu força. Em vez de seguir para a sala escura, seguiu as viaturas.
Estacionou o carro e, atrás do batalhão da PMDF, entrou no prédio do Supremo Tribunal Federal (STF). Lá dentro, o cenário era de guerra: vidros estilhaçados, móveis revirados, paredes marcadas por vandalismo. Era 8 de janeiro de 2023.
Essa é a versão que Honorato apresentou na ação penal que corria no STF até 25 de novembro, encerrada sem julgamento após sua morte. Ele não viveu para ver o desfecho. Morreu em 19 de novembro de 2025, de câncer de pâncreas, no Hospital Anchieta, em Brasília, depois de enfrentar uma rotina cruel: sessões de quimioterapia com tornozeleira eletrônica presa ao corpo, contas acumuladas devido ao bloqueio de bens e dependência da ajuda financeira de amigos. Sua presença nos atos do 8 de janeiro — mais especificamente dois vídeos gravados e publicados nas redes sociais — pesou sobre os últimos dias de vida.
Honorato foi presidente de sindicato da PF por quase 10 anos
“Aqui é o Supremo Tribunal Federal. Olha como está. Tudo quebrado! O povo quebrou tudo! O povo está acusando os membros desse Supremo de corrupção, de canalhice e de safadeza. Olhem o que o povo fez!”, narra Honorato em um dos vídeos publicado em seu perfil no Facebook, que tinha cerca de 5 mil amigos. Além dessas gravações, as visitas frequentes ao acampamento em frente ao Quartel-General também foram citadas na acusação de supostos crimes contra o Estado Democrático de Direito.
Honorato, papiloscopista da PF antes da aposentadoria, chegou a presidir o Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal por três mandatos, um período de quase 10 anos. Sem antecedentes criminais, sempre foi bem visto pela corporação e tinha uma conduta íntegra na profissão.
Esse histórico positivo, porém, não impediu sua prisão no fim de janeiro de 2023, em Goiânia. Ele permaneceu por quase dez meses atrás das grades, sem prova de crime, a maior parte do tempo no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, mesmo com os riscos de retaliação de outros presos por sua condição de policial. Na época, era responsável por três filhas menores de idade.
Nos 80 primeiros dias preso, Honorato já estava 15 quilos mais magro e apresentava um quadro de depressão profunda. A decisão de liberdade provisória, concedida pelo ministro Alexandre de Moraes em 15 de dezembro de 2023, se deu após a descoberta de uma lesão no pâncreas e o início de uma investigação sobre possível câncer.
Assim como outros presos do 8 de janeiro, Honorato passou a cumprir medidas cautelares, incluindo uso de tornozeleira eletrônica, apresentação periódica à Justiça e proibição de acesso às redes sociais. O adereço dificultou parte do tratamento, quando os advogados precisaram entrar com um pedido de urgência, por exemplo, para retirada do equipamento antes de uma ressonância magnética. Moraes chegou a autorizar a retirada temporária da tornozeleira. A permissão definitiva, no entanto, veio apenas 30 dias antes da morte de Honorato, quando ele já estava internado sem previsão de alta.
Salário de Honorato estava retido para garantir indenizações ao STF
Ainda no início da investigação, Honorato teve seus bens bloqueados por decisão do STF. O objetivo da Corte era apurar um possível financiamento dos atos, o que não se confirmou. Desde então, o ex-policial deixou de ter acesso integral à aposentadoria, de quase R$ 19 mil brutos, passando a receber apenas um salário mínimo desde fevereiro de 2024. A restrição à maior parte do dinheiro se devia ao futuro pagamento de danos, no valor de R$ 30 milhões, imposto coletivamente aos condenados pelo 8 de janeiro pelo ministro Alexandre de Moraes.
Em agosto do mesmo ano, seus advogados apresentaram um novo pedido para o desbloqueio total das contas, alegando que o valor recebido era insuficiente para custear o tratamento contra o câncer de pâncreas, diagnosticado há cerca de um ano e já com suspeita de metástase — quando a doença se espalha para outros órgãos. Apesar de possuir plano de saúde, Honorato enfrentava valores de coparticipações elevados, o que dificultava o acesso ao tratamento de saúde adequado.
Mesmo após a autorização para desbloqueio das contas, entraves burocráticos só permitiram que ele tivesse acesso ao dinheiro apenas dois dias antes de sua morte. Honorato sequer chegou a ser interrogado em audiência no processo e faleceu antes de qualquer condenação. Mesmo sem a sentença judicial, Honorato viveu seus últimos dias marcado pelo sofrimento.
Fonte: gazetadopovo






