Para a cientista política Priscila Lapa, as candidaturas estaduais são vinculadas ao presidente Lula (PT) e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mesmo quando apresentam novos nomes ligados aos grupos tradicionais de outros partidos nos estados. “Temos novos atores que ao longo dos anos ganharam protagonismo, principalmente pela mudança da ordem partidária no país. Além disso, temos uma reorganização do centro com partidos que se posicionam mais à centro-direita a partir do fenômeno do bolsonarismo”, avalia.
Apesar dos novos nomes, ela afirma que não existe uma renovação política e, sim, uma “reprodução contemporânea” das disputas tradicionais nos estados. De acordo com Lapa, o eleitor busca “orientação no lulismo e no bolsonarismo” para a definição do voto nas eleições locais, independentemente da sigla partidária. “Na eleição estadual também entra em cena de forma expressiva a avaliação do atual governo, que é um clássico nas disputas eleitorais”, acrescenta.
São Paulo reproduz polarização por palanques na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
O caso mais emblemático de polarização nos estados é o de São Paulo, onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o petista Fernando Haddad disputam a eleição ao Palácio dos Bandeirantes, acompanhados de candidaturas “nanicas” no primeiro turno. De acordo com a última pesquisa Datafolha [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/datafolha-governador-sao-paulo-agosto-2026/], Tarcísio aparece como favorito para vencer a eleição e se manter no Palácio dos Bandeirantes por mais quatro anos. O candidato à reeleição tem 45% das intenções de voto, contra 27% de Haddad, no cenário estimulado do primeiro turno.
Os dois candidatos têm o apoio dos principais concorrentes na eleição presidencial. Flávio Bolsonaro (PL) e Lula apostam no palanque dos aliados para vencer a disputa pelo voto dos paulistas no maior colégio eleitoral do país. A estratégia petista vai além: impedir a vitória de Tarcísio no primeiro turno para manter o palanque armado para Lula no segundo turno [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/sao-paulo-2026/estrategia-eleitoral-pt-interior-sao-paulo/], mesmo considerando difícil a reversão do cenário contra a reeleição do governador.
O cientista político e professor do Insper de São Paulo Leandro Consentino ressalta que, assim como na corrida presidencial deste ano, o centro tem dificuldade em emplacar candidaturas alternativas nos estados para “furar a bolha” da polarização. “A grande característica é que não existe uma terceira força competitiva, concentrando a disputa em duas candidaturas, o que aumenta a possibilidade de decisão no primeiro turno”, comenta.
A eleição para o governo do Rio de Janeiro também pode afunilar dependendo de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No início de agosto, a Justiça fluminense determinou o cumprimento da sentença [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/rio-de-janeiro/justica-do-rj-determina-cumprimento-de-sentenca-contra-garotinho-e-ameaca-candidatura/] que condenou o ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) à perda dos direitos políticos por oito anos.
Segundo o Datafolha, Garotinho aparece como a “terceira via” com 9% das intenções de voto [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/datafolha-governador-senador-rio-de-janeiro-agosto-2026/] na disputa polarizada entre o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), que tem 41%, e Douglas Ruas (PL), que soma 19% da preferência do eleitorado fluminense.
Pesquisas indicam decisão no primeiro turno nos maiores estados do Nordeste
Os estados da Bahia, Ceará e Pernambuco, os maiores colégios eleitorais do Nordeste, podem ter as eleições para o governo definidas ainda no primeiro turno, conforme as últimas pesquisas Datafolha e Quaest.
No Ceará, o cenário de polarização política foi potencializado pela guinada à direita de Ciro Gomes (PSDB), que tem o apoio do PL. Apesar das divergências com a família Bolsonaro, Gomes faz frente à candidatura para a reeleição do governador petista, Elmano de Freitas. Na última pesquisa Datafolha [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/datafolha-governador-ceara-agosto-2026/], Ciro lidera o primeiro turno com 52%, conforme o cenário estimulado. O atual governador aparece com 33% das intenções de voto.
Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) reencontra o principal nome da oposição, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), após a apertada vitória no segundo turno de 2022. Naquele ano, a decisão não foi antecipada para o primeiro turno devido à presença de João Roma (PL), que disputou o governo baiano após deixar o governo de Jair Bolsonaro (PL) para assegurar um palanque ao ex-presidente.
Quatro anos depois, Roma disputa uma vaga no Senado na chapa encabeçada pelo candidato ao governo ACM Neto. De acordo com a pesquisa Quaest, divulgada nesta quinta-feira (27) [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/quaest-governador-senador-bahia-agosto-2026/], ACM Neto e Jerônimo Rodrigues apareciam tecnicamente empatados com 40% e 37% das intenções de voto, respectivamente.
Na avaliação da cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), as candidaturas ao governo nos maiores estados do Nordeste são encabeçadas por nomes com experiência na política e com recall nas urnas. Além disso, segundo ela, as coalizões no Nordeste foram formadas de maneira precoce em torno de candidatos conhecidos, com estrutura e recursos partidários, ampliando a visibilidade junto aos eleitores. “Quando temos essas lideranças disputando uma eleição da forma como está configurada, não há espaço para a terceira via entrar na disputa”, ressalta.
“Não estou falando de radicalização. Estou falando em polarização entre projetos, partidos e grupos políticos. Isso contribui para a possibilidade de resolução no primeiro turno”, acrescenta a cientista política.
Pernambuco tem “polarização à esquerda” por voto de eleitor lulista
Enquanto Bahia e Ceará reproduzem a polarização nacional entre o PT e o antipetismo, no estado de Pernambuco, a disputa é pelo voto dos eleitores lulistas.
Pesquisa Datafolha divulgada neste mês [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/datafolha-governador-senador-pernambuco-agosto-2026/] mostra que a governadora Raquel Lyra (PSD) lidera com 47% contra 40% da preferência do eleitorado pelo ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), nome apoiado por Lula no reduto do petista. A estratégia da candidata à reeleição é conquistar os votos da direita, sem entrar em confronto com Lula ou com o PT.
A cientista política Priscila Lapa lembra que Raquel Lyra foi eleita em 2022 sem um conjunto amplo de forças partidárias pela governabilidade de Pernambuco. Após enfrentar problemas na composição da base governista nos primeiros dois anos, segundo Lapa, a situação mudou a partir da migração da governadora do PSDB para o PSD. Assim, Lyra passou a fazer frente à ascensão de Campos no estado.
“Ela conseguiu consertar esse aspecto político, atraindo prefeitos, deputados e lideranças políticas, o que resultou na construção de uma base para a disputa pela reeleição”, resume a cientista política pernambucana.
Alagoas tem o menor número de candidatos ao governo do país
Alagoas registrou o menor número de candidatos ao governo entre os estados brasileiros na eleição deste ano, conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A cadeira de governador alagoano será disputada por apenas quatro nomes: João Henrique Caldas (PSDB), Renan Filho (MDB), Lenilda Luna (UP) e Márcio Jambo (Democrata).
Acompanhados de concorrentes “nanicos”, o ex-governador Renan Filho, ex-ministro do governo Lula, enfrenta o ex-prefeito de Maceió JHC, que foi reeleito com mais de 80% dos votos na capital alagoana. Herdeiros de famílias tradicionais da política alagoana, a dupla está tecnicamente empatada, de acordo com a última pesquisa Quaest [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/quaest-governador-senador-alagoas-agosto-2026/]. No cenário estimulado de primeiro turno, o senador Renan Filho tem 42% e JHC aparece com 40%.
“Temos no estado duas lideranças muito claras. Um lado é liderado por Arthur Lira, onde o JHC aparece para disputar o governo. O outro grupo, que divide as forças, tem como liderança o senador Renan Calheiros, que tem o filho como principal nome. Hoje, eles reproduzem essa dinâmica [da polarização]”, comenta a cientista política Luciana Santana. Lira e Calheiros concorrem ao Senado em outubro.
Metodologia das pesquisas citadas:
Fonte: gazetadopovo





