Cinema

Paramount pode se tornar a principal concorrente anti-woke da Netflix: entenda o cansaço ideológico

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Depois de uma oferta agressiva, a Paramount Skydance Corporation confirmou, no fim de fevereiro, a assinatura final do contrato de aquisição da Warner Bros. Discovery. A proposta bilionária atravessou a negociação de compra dos ativos da Warner que vinha sendo feita pela Netflix e, na prática, pode consolidar o novo grupo de mídia como uma forte opção “anti-woke” no mercado dos streamings.

No fim de 2025, a Netflix chegou a dar como certa a negociação, estimada em mais de US$ 82 bilhões — US$ 27,75 por ação. A Paramount, por sua vez, ofereceu US$ 31 por ação, o que fez com que a avaliação da Warner ficasse em cerca de US$ 110 bilhões.

Diferentemente de outros concorrentes que apostam fortemente em novas narrativas experimentais, o grupo Paramount mantém forte presença de franquias tradicionais e entretenimento para um público mais amplo.

Entre os títulos mais emblemáticos do estúdio estão produções de diretores como Alfred Hitchcock, a trilogia O Poderoso Chefão e a série de filmes de ação Missão: Impossível, além de um portfólio consistente de séries para a televisão. São formatos clássicos da indústria audiovisual, voltados a uma audiência mais abrangente e historicamente menos associados a debates ideológicos.

Em uma posição diametralmente oposta está a Netflix, que oferece um vasto catálogo de produções que destacam pautas progressistas e identitárias. O chamado “wokismo” da programação aparece até em algumas atrações infantis da plataforma, que tratam de agendas sociais até pouco tempo incomuns no entretenimento voltado às crianças — uma abordagem que, para críticos, tem gerado controvérsia entre parte do público.

Público vê conteúdo da Paramount como mais “tradicional”

Frente a essa oferta de conteúdo, parte da audiência passou a enxergar o catálogo da Paramount como mais focado em ação, aventura e entretenimento tradicional, em contraste com a percepção de que outras plataformas priorizam narrativas mais explicitamente políticas ou identitárias.

Esse interesse por produções que evitam debates explícitos pode ser visto como um sinal de que pelo menos parte dos consumidores acredita que o entretenimento dominante se tornou excessivamente ideologizado. Naturalmente, ganham espaço as empresas que oferecem uma alternativa percebida como mais neutra.

Trump cobrou demissão de membro do conselho da Netflix

Outro fator que pode pesar na percepção “anti-woke” da aquisição da Warner pela Paramount é a interferência do presidente Donald Trump nas negociações. Quando o martelo ainda não tinha sido batido, o republicano cobrou publicamente a demissão da ex-conselheira de segurança nacional e ex-embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, do conselho da Netflix.

Rice disse que os democratas tomariam medidas contra as empresas que “se ajoelham” diante de Trump. Em resposta, o presidente pediu a cabeça da executiva e disse que a Netflix “enfrentaria as consequências” caso ela não fosse demitida.

O CEO da gigante do streaming, Ted Sarandos, chegou a ser convidado para participar de reuniões na Casa Branca envolvendo as propostas de aquisição da Warner. O resultado das negociações, porém, não sofreu nenhuma alteração. Trump, por sua vez, disse que iria se afastar do caso, deixando qualquer análise sobre as propostas para a divisão antitruste do Departamento de Justiça.

Ao desistir oficialmente da compra, a Netflix emitiu um comunicado no qual aponta que a empresa teria sido “uma excelente administradora das marcas icônicas da Warner Bros.”, e que o negócio, caso fosse fechado, preservaria e até mesmo fortaleceria a indústria global do entretenimento.

Sobre a oferta hostil feita pela Paramount, a nota explica que a compra da Warner “pelo preço certo” sempre foi vista pela Netflix como uma “boa oportunidade”. “O negócio, porém, nunca foi uma ‘necessidade’ a ser atendida a qualquer custo”, completa o texto.

O diretor financeiro da Netflix, Spencer Neumann, celebrou a multa de US$ 2,8 bilhões, cerca de R$ 14,6 bilhões, que será paga pelo rompimento do acordo prévio com a Warner. “Vamos seguir em frente, e com esses bilhões nos nossos bolsos, que não tínhamos há algumas semanas”, disse o CEO. Pelo acordo, a multa será paga pela Paramount.

Aquisição pode afetar linha editorial da CNN, de propriedade da Warner

A guinada provocada pela aquisição pode atingir a linha editorial da CNN, emissora integrante do portfólio da Warner. Alvo constante de críticas de Trump por sua postura de oposição, o canal de TV é costumeiramente atacado pelo presidente dos EUA sob a alegação de produzir fake news.

Em um caso recente, no início de fevereiro, a jornalista Kaitlan Collins questionou Trump sobre os arquivos do caso de Jeffrey Epstein. Além de não responder às perguntas, o presidente fez críticas pessoais contra Collins, dizendo que ela era “a pior repórter, que nunca sorri”.

A CBS, emissora de TV sob controle da Paramount, recentemente colocou em xeque sua reputação de imparcialidade ao ceder a pressões para agradar a Casa Branca. Além da indenização de US$ 16 milhões pagos no processo que aponta favorecimento à então candidata Kamala Harris em uma entrevista ao programa 60 Minutes, o canal confirmou a demissão do âncora Anderson Cooper e o fim do talk show político noturno de Stephen Colbert, outro crítico ao governo Trump.

Fonte: gazetadopovo

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