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Padre de MS transforma suposto caderno secreto de Tiradentes em livro para Bienal

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2026

Enquanto divide sua rotina entre a evangelização na Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em Campo Grande (MS), e a produção acadêmica nas Ciências Sociais, o padre salesiano Pedro Pereira Borges acaba de alcançar um marco inédito, seu mais recente livro, O Caderno de Tiradentes”, será exposto na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, considerada o maior evento literário da América Latina.

A participação na Bienal veio após a obra atingir um número expressivo de vendas pela editora ICLAP, rendendo ao autor o reconhecimento de Top Seller. O resultado garantiu espaço para o romance no evento que acontece entre os dias 4 e 13 de setembro, no Distrito Anhembi, na capital paulista.

Para Pedro, que já publicou 17 obras ao longo da carreira, a conquista representa um momento especial por marcar também uma nova fase como escritor.

“Até agora eu tinha escrito livros mais técnicos, relacionados à minha área de atuação. Resolvi começar uma nova etapa na minha carreira, que é a do romancista. Esse foi o primeiro romance que escrevi e fiquei muito feliz ao receber a notícia”, afirmou.

Um padre, pesquisador e agora romancista

Com formação em Pedagogia, Filosofia, Teologia e doutorado em Ciências Sociais, Pedro construiu sua carreira entre a pesquisa, a educação e o sacerdócio.

Embora tenha nascido em Mato Grosso, foi em Campo Grande que o sacerdote salesiano desenvolveu sua formação e consolidou sua trajetória como pesquisador e escritor. Aos 12 anos, após vencer um concurso de redação, decidiu ingressar no seminário como pré-aspirante salesiano.

Ao longo dos anos, desenvolveu uma sólida trajetória acadêmica, com estudos realizados em Campo Grande, São Paulo e Roma. Sua produção bibliográfica inclui trabalhos científicos, livros religiosos, publicações sobre desenvolvimento local, políticas públicas e temas sociais.

Agora, o autor aposta no poder da ficção para provocar reflexões sobre cidadania, política e participação social.

Pedro explica o que representa ter uma obra exposta na Bienal do Livro. (Vídeo: Thauana Luares)

E se Tiradentes tivesse deixado um segredo para o futuro?

A premissa central de “O Caderno de Tiradentes” é tão simples quanto intrigante. O livro parte de uma pergunta: e se Tiradentes tivesse previsto o futuro do Brasil antes de morrer?

Na trama, momentos antes da execução em Vila Rica, Tiradentes entrega a um carcereiro um caderno secreto contendo doze teses que antecipariam ciclos de corrupção, manipulação política e disputas pelo poder que marcariam os séculos seguintes da história nacional.

Séculos depois, um estudante de História encontra pistas sobre o manuscrito durante uma pesquisa sobre o sistema prisional mineiro. A descoberta desencadeia uma corrida contra o tempo envolvendo poder político, espionagem digital e interesses ocultos.

O romance acompanha a busca pelo documento enquanto um senador influente e um juiz poderoso tentam impedir que o conteúdo venha à tona. Para isso, utilizam recursos tecnológicos e estruturas de vigilância para preservar segredos capazes de abalar as bases do sistema.

A narrativa mistura elementos de ficção histórica, política e ciberespionagem, em um estilo que o próprio autor compara à proposta de obras como “O Código Da Vinci”, onde fatos históricos servem de ponto de partida para uma construção fictícia.

Da história à ficção

Durante a entrevista, Pedro explicou que Tiradentes nunca escreveu um caderno secreto e que o livro não pretende recontar a história oficial do personagem. A ideia surgiu justamente da liberdade criativa permitida pela literatura.

“Eu procurei imaginar uma história do Brasil ao longo de praticamente três séculos. A ficção é uma maneira de unir a questão histórica com reflexões que queremos desenvolver. Quero que as pessoas olhem para a nossa realidade política e social e reflitam sobre ela”, explicou.

Segundo o sacerdote, a obra busca provocar questionamentos sobre responsabilidade cidadã, participação política e o papel da população nos destinos do país.

Pedro explica como surgiu a ideia do manuscrito. (Vídeo: Thauana Luares)

Os invisíveis como protagonistas

Um dos pontos que mais chama atenção na construção da história é a escolha dos personagens centrais. Ao invés de heróis tradicionais, Pedro coloca no centro da narrativa pessoas comuns, que normalmente passariam despercebidas pela sociedade.

Ele revela que essa decisão foi influenciada tanto por sua experiência como pesquisador quanto pelo sacerdócio.

No primeiro capítulo, Tiradentes escolhe confiar o caderno a um homem simples por um motivo simbólico: ele é invisível. A partir daí, a obra desenvolve personagens que representam grupos frequentemente ignorados ou pouco valorizados socialmente.

“O que me influenciou mais foi fazer com que as vozes dos invisíveis sejam ouvidas”, afirmou.

A mensagem dialoga diretamente com a tradição cristã, segundo o autor, lembrando a forma como Jesus escolheu pescadores e trabalhadores comuns para iniciar sua missão.

Leitura como instrumento de transformação

Para o padre salesiano, escrever nunca foi apenas um exercício literário. A produção de livros faz parte de um propósito maior: compartilhar conhecimento e estimular reflexões.

Ele acredita que a leitura continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para compreender a realidade e desenvolver senso crítico. Nas celebrações religiosas, ela conta que costuma utilizar histórias para aproximar as pessoas das mensagens do Evangelho.

Segundo Pedro, a literatura possui essa mesma capacidade de transformar conceitos complexos em experiências capazes de tocar o leitor.

“Não gosto da ideia de guardar conhecimento somente para mim. Procuro sempre compartilhar aquilo que pode ajudar as pessoas a refletirem e crescerem”, destacou.

Pedro fala sobre a leitura, a formação humana e como compartilha seus conhecimentos. (Vídeo: Thauana Luares)

Bienal é uma conquista além da literatura

Para Pedro Pereira Borges, chegar à Bienal do Livro representa mais do que reconhecimento editorial. É a oportunidade de levar debates sobre ética, cidadania, democracia e participação social para um público maior, utilizando a ficção como porta de entrada.

Ao unir pesquisa acadêmica, experiência pastoral e imaginação literária, o sacerdote mostra que a escrita pode ultrapassar os limites da sala de aula, da universidade e até mesmo dos templos religiosos.

Para ele, o verdadeiro objetivo continua o mesmo que inspira sua atuação há décadas: provocar reflexão e ajudar as pessoas a enxergarem seu papel na construção da sociedade.

Fonte: primeirapagina

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