No Pantanal Norte, no Estado do Mato Grosso, campos alagados dividem espaço com faixas de mata e pastagens abertas. Ali, uma cena pouco usual começou a ser registrada por cĂąmeras instaladas perto de currais das fazendas de criação de gado, atividade primordial na regiĂŁo. Em vez da figura solitĂĄria de uma onça-pintada, que tradicionalmente percorre seu territĂłrio sozinha, as imagens mostraram quatro onças passando em frente Ă s cĂąmeras em sequĂȘncia. Elas paravam, cheiravam o ambiente e observavam umas Ă s outras. Tudo isso acontecendo em um intervalo de pouco mais de dois minutos.
Para quem estuda a espĂ©cie, tambĂ©m chamada de jaguar, em vida livre, essa aproximação Ă© muito rara e chama atenção. O registro em vĂdeo faz parte de um estudo que analisou em detalhes essas interaçÔes e foi recentemente publicado na revista cientĂfica Biota Neotropica.
Estratégias para proteger o gado e as onças
As filmagens foram realizadas em currais cercados por fios eletrificados, parte de um sistema de manejo criado por nosso grupo de pesquisa e jĂĄ adotado na Pousada Piuval e em outras ĂĄreas do Pantanal para evitar ataques ao gado. Em estudos anteriores, havĂamos demonstrado que a eletrificação diminuiu de modo importante os ataques ao gado, mas nĂŁo tĂnhamos ainda dados para entender como as onças percebiam a barreira. O novo registro ajuda a responder essa pergunta
Siga
A paisagem ao redor ajuda a entender o contexto. A Pousada Piuval estĂĄ numa regiĂŁo do Pantanal onde a pecuĂĄria ocupa grande parte do territĂłrio, e onde tambĂ©m hĂĄ pressĂŁo de garimpo e expansĂŁo urbana. Mesmo assim, ali jĂĄ foram identificadas por cĂąmeras ao menos 31 onças nos Ășltimos trĂȘs anos. O monitoramento contĂnuo permite registrar comportamentos que, de outro modo, passariam despercebidos. O arranjo familiar observado â fĂȘmea adulta, seus subadultos e um jovem macho (sem ser filho dela) â mostra um tipo de tolerĂąncia social raro na espĂ©cie, que normalmente circula de forma independente.
As revelaçÔes das cùmeras
As cĂąmeras mostram uma onça jovem se aproximando da cerca, recebendo o choque e recuando. Logo depois, duas onças subadultas (entre equivalente Ă adolescĂȘncia) chegam, observam a reação do primeiro animal e se mantĂȘm Ă distĂąncia. A fĂȘmea adulta, mĂŁe das duas onças, acompanha o grupo e aparece por Ășltimo, cheira o local e tambĂ©m evita o contato. A cena sugere que a experiĂȘncia de um indivĂduo passou a orientar o comportamento dos demais.
A composição do grupo chama a atenção por si sĂł. As cĂąmeras registraram uma fĂȘmea adulta, dois filhotes subadultos e um terceiro jovem macho, aparentado, mas nĂŁo filho. CoalizĂ”es de onças sĂŁo descritas quase sempre entre machos adultos. Aqui, trata-se de um arranjo familiar mais complexo, possĂvel porque hĂĄ parentesco para reduzir tensĂ”es. Pudemos observar que o macho subadulto, mesmo nĂŁo sendo prole direta desta fĂȘmea especĂfica, foi aceito por ela no grupo. Essa aceitação demonstra uma tolerĂąncia passiva incomum por parte da fĂȘmea adulta, que transcende o cuidado com seus prĂłprios filhotes, sugerindo que o parentesco genĂ©tico ou mesmo um instinto maternal ampliado facilitou a integração do indivĂduo no nĂșcleo social.
A sequĂȘncia registrada entre 23h03min56s e 23h05min58s mostra detalhes importantes. Primeiro, o animal jovem (ID3) curioso se aproxima da cerca e recebe o choque. O segundo animal (ID4) aparece logo depois e vocaliza um sibilo em direção ao primeiro, â um gesto que pode indicar alerta. Em seguida vem a terceira onça (ID5), que observa a ĂĄrea, cheira a estrutura e recua. Por fim, a mĂŁe conhecida como Baia (ID2), se aproxima e repete o comportamento cauteloso. O ritmo contĂnuo da cena indica que os quatro estavam circulando juntos naquela noite.
Os registros seguintes ampliam essa percepção. No dia anterior ao episĂłdio do choque, guias viram quatro onças juntas perto de uma ĂĄrea onde uma capivara seria predada no dia seguinte. As cĂąmeras mostram o mesmo grupo voltando Ă carcaça em momentos diferentes: o jovem macho aparentado, a fĂȘmea e um de seus filhotes. O padrĂŁo se repetiu dias depois em outra carcaça, de guaxinim, visitada pelos dois filhotes e jovem macho, pelo menos em quatro datas diferentes. Esses retornos sugerem que os indivĂduos estavam usando o espaço de maneira coordenada e compartilhando recursos naturais.
Esse tipo de registro se soma a um conjunto de informaçÔes que nosso grupo de pesquisa jå vinha acumulando no Pantanal antes deste estudo: ao lado de fazendeiros e pousadas da região, conseguimos atuar em uma årea de cerca de 30 mil hectares, onde instalamos dezenas de armadilhas fotogråficas para identificar individualmente as onças e testamos medidas anti-predatórias, como o uso de cercas elétricas noturnas para proteger o gado.
Em paralelo, passamos a coletar e analisar fezes dos animais para entender sua saĂșde, os parasitas que carregam e o papel que exercem no controle de zoonoses. Esses trabalhos anteriores mostraram que Ă© possĂvel reduzir ataques ao rebanho, valorizar o turismo de observação e, ao mesmo tempo, manter onças e pantaneiros no mesmo territĂłrio, com benefĂcios para a economia local e para o ecossistema.
Chances de conviver em harmonia
Neste estudo, vimos que Ă© possĂvel que a barreira elĂ©trica tenha desempenhado um papel importante no processo de mudança de comportamento das onças. Em geral, animais jovens ainda estĂŁo desenvolvendo suas habilidades de caça. Ă muito provĂĄvel que a aversĂŁo ao curral de outros animais, motivada pelo choque, possa ter direcionado a atenção desses indivĂduos para presas naturais. A prĂłpria repetição das visitas Ă s carcaças indica que o grupo encontrou ali um recurso seguro, sem interferĂȘncia humana. Em 23 de agosto, semanas depois do choque, o macho jovem (que nĂŁo era filhote nem irmĂŁo das outras onças), retornou ao curral. Cheirou o local, examinou a cerca e foi embora sem tentar atravessĂĄ-la, um indĂcio de que a lembrança do choque se manteve.
As cĂąmeras revelaram, ainda, uma dinĂąmica mais delicada: jovens onças aprendendo a tomar decisĂ”es num ambiente que mistura risco, oportunidade e sinais deixados por outros indivĂduos. O episĂłdio da cerca elĂ©trica nĂŁo apenas afastou o grupo do gado naquele momento, mas parece ter influenciado a forma como os jovens passaram a usar a ĂĄrea e buscar alimento nos dias seguintes.
O estudo abre espaço para novas observaçÔes. Como essas associaçÔes se formam? Por quanto tempo duram? HĂĄ transmissĂŁo de comportamentos entre parentes? Jovens que aprendem cedo a evitar estruturas humanas tendem a se envolver menos em conflitos? E de que maneira essa convivĂȘncia, num ambiente tĂŁo marcado pela presença humana, molda a vida social de um animal que, no senso comum, Ă© sempre descrito como solitĂĄrio?
As onças-pintadas continuam sendo felinos que preferem circular sozinhos. Mas, como mostram esses registros, tambĂ©m sĂŁo capazes de observar, ajustar e escolher caminhos a partir do que veem nos outros. Ăs vezes, fazem isso em grupo, mesmo que por pouco tempo. E esse intervalo breve Ă© suficiente para revelar um lado menos conhecido da espĂ©cie. Um lado que aprende, experimenta, erra, observa e tenta de novo.
Fonte: abril




