O presidente Lula (PT) terá pela frente uma “missão impossível” no estado considerado como o mais decisivo das eleições no Brasil, no próximo domingo (25). A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) em Minas Gerais no primeiro turno foi maior do que a obtida em todo o país [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/flavio-vence-lula-em-15-estados-df/] e, para conseguir uma inédita virada, Lula precisa vencer o adversário no “estado-pêndulo”.

No último dia 4, Flávio teve 48,2% dos votos válidos em Minas Gerais; Lula 43,3%. Desde a redemocratização do país, todos os presidentes eleitos venceram nas urnas mineiras, o que coloca o segundo maior colégio eleitoral do país como peça-chave para os concorrentes rumo ao Palácio do Planalto.

Tanto é que, na última semana, Flávio e Lula fizeram campanha no estado ao lado de aliados de peso. O candidato do PL foi até o Vale do Jequitinhonha, reduto eleitoral petista, para um comício na cidade de Capelinha, onde ele venceu no primeiro turno. “O Brasil quer mudança e eles vão ter que aturar o Bolsonaro subindo a rampa da Presidência da República. […] Eles tentaram enterrar o Bolsonaro vivo achando que iam calar o nosso sentimento”, declarou Flávio no palanque na quinta-feira (15).

Durante o evento, o presidenciável foi apresentado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), principal cabo eleitoral do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro no estado. O parlamentar foi o candidato a deputado federal mais votado do país, com 3,1 milhões de votos.

Minas Gerais retrata polarização regional

O cientista político mineiro Adriano Cerqueira, professor do IBMec em Belo Horizonte, explica que Minas Gerais tem a peculiaridade de retratar o posicionamento político de diferentes nichos de eleitores. Apesar da vitória de Flávio no estado, Lula venceu no Vale do Jequitinhonha, região com forte influência do Nordeste, e na Zona da Mata, onde está localizada a cidade de Juiz de Fora. O maior município da região é administrado pela prefeita petista Margarida Salomão e recebeu Lula na última sexta-feira (16).

No mesmo dia, o presidente fez uma caminhada em Ipatinga, no Vale do Aço, ao lado da senadora eleita Marília Campos (PT), um dos principais nomes do partido no estado. Ex-prefeita de Contagem — segunda maior cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, atrás apenas da capital —, Marília Campos foi reeleita com mais de 60% dos votos válidos no primeiro turno das eleições 2024. Ela deixou o cargo no último mês de março para disputar o Senado.

“O presidente Lula terá que procurar alianças regionais. No norte de Minas, ele vai procurar lideranças locais, movimentos de base ligados à Igreja Católica, para conseguir palanque”, avalia Adriano Cerqueira. Nas redes sociais, um dos principais aliados do petista é o deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pelo grupo de mensagens “Exército do Lula” [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/janones-milicia-digital-lula/], que conta com mais de 4,5 milhões de seguidores.

Por outro lado, Flávio venceu na capital e na região metropolitana de Belo Horizonte, onde está concentrado cerca de 30% do eleitorado. Cerqueira aponta que o sul de Minas é a segunda região mais relevante do estado nas urnas, com aproximadamente 15% dos eleitores.

No primeiro turno, Flávio venceu nas principais cidades da região, entre elas Poços de Caldas e Pouso Alegre, localizadas próximas à divisa com São Paulo. “Para obter uma boa votação em Minas Gerais, é preciso rodar o estado e saber diferenciar as regiões. O sul tem uma realidade socioeconômica diferente do Triângulo Mineiro e do norte de Minas, por exemplo. Para conseguir esses votos, é preciso atravessar todo o estado — a regionalidade acaba fazendo com que Minas represente um pouco o Brasil”, analisa.

Vitória de Cleitinho no 1º turno favorece Flávio em Minas Gerais

Quem conseguiu a adesão do eleitorado em diferentes regiões foi o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), eleito governador mineiro no primeiro turno, com 55,4% dos votos válidos. Após a vitória, Azevedo reforçou o apoio a Flávio Bolsonaro, que ele já havia anunciado no primeiro turno, apesar da candidatura estadual do empresário Flávio Roscoe pelo PL.

O resultado das urnas impactou nos planos de Lula, que apostava na manutenção do palanque petista em Minas Gerais. O PT lançou o nome de Patrus Ananias, que fez 26,2% dos votos válidos, ficando em segundo lugar. “Muitos eleitores bolsonaristas votaram no Cleitinho, pois não queriam dar palanque para o Lula no segundo turno, repetindo o voto útil anti-PT, como aconteceu na eleição nacional”, compara o cientista político.

Cerqueira lembra que a aliança formal entre Cleitinho e Flávio foi adiada no primeiro turno, principalmente pela indefinição da candidatura pelo Republicanos [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/cleitinho-sera-candidato-ao-governo-de-minas-gerais/], que foi confirmada no final do prazo de registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Quando ele conseguiu sacramentar a candidatura pelos Republicanos, a primeira declaração dele foi apoio ao Flávio para não correr o risco de perder boa parte do eleitorado para o governador Mateus Simões (PSD) ou para o Roscoe”, recorda.

Segundo o cientista político, a aliança é uma aposta de Cleitinho Azevedo para renegociar a dívida do estado com o governo federal, caso Flávio seja eleito presidente, e para contar com apoio do PL na base governista da Assembleia Legislativa mineira.

“O Cleitinho tem sido estratégico nas declarações políticas e alianças. Por outro lado, ele ainda não se acostumou com a roupa de governador recém-eleito”, disse. Como exemplo, Cerqueira citou o vídeo publicado pelo governador eleito [https://www.gazetadopovo.com.br/republica/cleitinho-se-explica-apos-criticas-por-video-ao-lado-de-alcolumbre/]. Na publicação, Cleitinho está ao lado de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e se declara a favor da votação da Proposta de Emenda à Constituição que acabou com a escala 6×1.

No mesmo dia, Azevedo publicou um vídeo do encontro com Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e com o senador eleito Domingos Sávio (PL-MG). “Fiz esse compromisso na campanha e pode ter certeza que vou honrar o povo mineiro. O dinheiro da dívida de Minas será gasto em Minas”, afirma o governador eleito.