Moradores do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, enfrentam dificuldades para votar após mudanças nos endereços das seções eleitorais. Para ampliar o acesso à informação e incentivar a participação democrática, a organização não governamental Redes da Maré promove ações de orientação nas comunidades antes do segundo turno das eleições gerais, marcado para domingo (25).
Um dos eleitores afetados é o fotógrafo Marlon Soares, que relata ter enfrentado dificuldades para chegar ao novo endereço e uma longa espera para votar. Segundo ele, o local anterior era mais acessível e costumava ter filas menores.
“Me jogaram para outro bairro. Tive que pegar condução para chegar e fiquei mais de duas horas na fila para conseguir votar”, relatou Marlon à Agência Brasil.
A mudança atingiu 16.907 eleitores do Complexo da Maré, distribuídos em 41 seções da 161ª Zona Eleitoral. A medida foi adotada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) sob a justificativa de reduzir riscos à população em áreas consideradas vulneráveis à atuação do crime organizado.
Mudanças nos locais de votação
O TRE-RJ alterou 72 locais de votação em 20 municípios fluminenses em relação às eleições de 2024. A decisão afetou aproximadamente 202 mil eleitores no estado e buscou transferir seções eleitorais de áreas consideradas de alto risco para endereços situados fora de territórios controlados por facções criminosas ou milícias.
Segundo o tribunal, os novos locais foram definidos para permanecer, sempre que possível, próximos dos endereços substituídos, mas fora das áreas consideradas inseguras.
No Complexo da Maré, três mudanças concentraram os eleitores afetados:
Escola Municipal Professor Josué de Castro: 7.268 eleitores passaram a votar no Centro Educacional Gama E Souza.
Escola Municipal Teotônio Vilela: 4.907 eleitores foram transferidos para o Bonsucesso Futebol Clube.
Escola Municipal Professor Paulo Freire: 4.732 eleitores passaram a votar na Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma.
Para o segundo turno, o TRE-RJ informou que, em relação aos endereços utilizados no primeiro turno deste ano, haverá alteração em apenas um local no estado: no bairro de Brás de Pina, na zona norte do Rio de Janeiro. A mudança envolve as seções 123, 124, 125, 126 e 127 da 188ª Zona Eleitoral.
Abstenção supera a média nacional
Levantamento da Agência Brasil, elaborado com base nos Boletins de Urna, apontou que a abstenção nas 41 seções eleitorais da Maré que tiveram seus endereços alterados em relação a 2024 chegou a 31,07%. O percentual ficou acima da média nacional, de 21,08%.
O estudo Como vota a Maré, desenvolvido pela Redes da Maré, identificou uma taxa de abstenção superior à registrada nas eleições municipais de 2024, quando o índice foi de 28% no território.
A organização ressalta, porém, que os números não permitem atribuir diretamente o aumento da abstenção à transferência dos locais de votação. O crescimento do eleitorado e outros fatores precisam ser considerados. Ainda assim, o levantamento aponta preocupações com as barreiras de acesso provocadas pelos deslocamentos para fora das comunidades.
No dia da votação do primeiro turno, o TRE-RJ não associou o aumento da abstenção às mudanças de endereço. O tribunal também informou à Agência Brasil que o transporte público é gratuito nos dias de eleição, conforme a Resolução 23.759/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O TRE-RJ acrescentou que disponibilizou transporte especial adaptado para pessoas com mobilidade reduzida no Complexo da Maré, por meio do projeto Seu Voto Importa. De acordo com o órgão, não houve procura pelo serviço.
Mobilização para incentivar o voto
Entre terça-feira (20) e sexta-feira (23), a Redes da Maré realiza ações de orientação nas comunidades para esclarecer dúvidas dos moradores sobre o processo eleitoral e reforçar a importância do voto. A iniciativa busca facilitar o acesso às informações necessárias para a participação no segundo turno.
A organização também divulga orientações pelas redes sociais e por outros meios de comunicação utilizados pelos moradores. Entre os esclarecimentos está a informação de que quem não votou no primeiro turno pode participar normalmente do segundo, desde que esteja em situação regular perante a Justiça Eleitoral. A ausência de cadastro biométrico, por si só, também não impede o voto quando os demais requisitos são atendidos.
A recomendação aos eleitores é verificar o endereço da seção eleitoral e a situação do título antes de sair de casa. No Rio de Janeiro, a votação do segundo turno será destinada à escolha do presidente da República, sem disputa para governador, o que pode reduzir a quantidade de etapas de votação em comparação com locais onde há mais cargos em disputa.
Além das ações presenciais, os moradores compartilham informações sobre o direito ao voto por aplicativos de mensagens, ampliando a circulação de orientações dentro das comunidades.
Impactos na mobilidade e no acesso
De acordo com a Redes da Maré, as mudanças de endereço têm consequências que vão além da distância entre o eleitor e a urna. O deslocamento pode exigir mais tempo de caminhada, travessias de grandes vias, como a Avenida Brasil e a Linha Amarela, ou trajetos considerados inseguros pelos moradores.
A organização avalia que essas dificuldades podem afetar especialmente pessoas idosas, pessoas com deficiência, mulheres responsáveis pelo sustento da família e jovens. O estudo também estima que 62% dos moradores do Complexo da Maré são pretos ou pardos.
Para a entidade, a oferta de transporte gratuito não resolve necessariamente as dificuldades quando as linhas disponíveis não atendem adequadamente ao território ou não facilitam o acesso aos novos locais de votação.
Lia Manso, analista de Incidência Política da Redes da Maré, destaca que a participação eleitoral representa um direito conquistado historicamente e uma forma de influenciar decisões que afetam a vida coletiva.
“A luta por ele não está terminada”, afirmou à Agência Brasil, ao abordar a importância da continuidade da mobilização pelo direito ao voto.
Segundo Lia, parte dos moradores enfrenta dificuldades relacionadas ao acesso a direitos fundamentais, como segurança pública, saneamento, educação e cultura. Nesse contexto, a organização busca manter o debate sobre a participação democrática nas ruas e mostrar como as escolhas eleitorais podem repercutir nas condições de vida da população.
O levantamento da Redes da Maré indica que, ao longo de quatro anos, metade dos eleitores do território teve seus locais de votação alterados. Para a entidade, compreender os efeitos dessas mudanças sobre a mobilidade e o acesso é essencial para avaliar as condições reais de participação nas eleições.
Com informações da Agência Brasil.
Fonte: cenariomt





