À época, Lula e a cúpula do PT acusavam o adversário de usar a máquina pública para influenciar o eleitorado e criticavam o impacto fiscal das iniciativas anunciadas às vésperas da eleição.
Na campanha presidencial daquele ano, Lula e seus aliados atacaram principalmente a chamada PEC dos BenefĂcios, apelidada de “PEC Kamikaze”, que autorizou gastos extraordinários fora do teto e permitiu medidas como o aumento do AuxĂlio Brasil, a criação do benefĂcio para caminhoneiros e do auxĂlio para taxistas.
“Eles estão tentando comprar o povo”, afirmou Lula à época ao criticar as medidas. O então candidato do PT também associava as medidas a uma tentativa de driblar as restrições eleitorais.
Dirigentes petistas também argumentavam que o pacote representava uma manobra de última hora com elevado impacto fiscal e potencial para desequilibrar a disputa presidencial.
Quatro anos depois, o governo Lula reúne uma agenda de medidas de forte apelo popular e impacto fiscal em pleno ano eleitoral. A principal delas é a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem tem renda mensal de até R$ 5 mil, aprovada pelo Congresso em 2025 e em vigor a partir de 2026.
A medida, que se tornou uma das vitrines do governo neste ano eleitoral, é uma entre várias outras compõem o chamado “pacote de bondades” criticado por Lula em 2022.
Gás do Povo expande benefĂcio para 15 milhões de famĂlias
Na área social, o governo substituiu o antigo AuxĂlio Gás pelo Gás do Povo, programa que prevĂŞ atendimento a cerca de 15 milhões de famĂlias em todos os municĂpios do paĂs. A primeira etapa de execução do programa envolveu quase R$ 1 bilhĂŁo em recursos federais previstos pelo MinistĂ©rio de Minas e Energia.
Ao lançar o programa, em setembro de 2025, Lula afirmou que a iniciativa busca combater a “pobreza energética”. “Todo mundo tem direito a comer e, para isso, precisa ter gás para cozinhar”, disse o petista.
Luz do Povo reduz tarifa, mas transfere custos ao sistema
Outra aposta foi a criação do Luz do Povo, programa voltado Ă redução da conta de energia para famĂlias de baixa renda. O benefĂcio Ă© financiado pela Conta de Desenvolvimento EnergĂ©tico (CDE), fundo abastecido por encargos cobrados nas contas de luz.
A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia ElĂ©trica (Abradee) tem alertado que o crescimento dos benefĂcios financiados pela CDE pressiona os encargos embutidos nas tarifas de energia. Já a Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace) ressaltou que a polĂtica tem mĂ©rito social, mas advertiu que o financiamento por meio da CDE tende a transferir parte dos custos para os demais consumidores e para a indĂşstria.
Crédito subsidiado para motoristas, caminhoneiros e empreendedores
O governo tambĂ©m lançou uma ofensiva de crĂ©dito subsidiado. Entre as iniciativas estĂŁo financiamentos para motoristas de aplicativo adquirirem veĂculos [https://www.gazetadopovo.com.br/automoveis/move-brasil-programa-bilionario-lula-motoristas-fortalecer-montadoras-chinesas/], linhas especiais para caminhoneiros e o chamado Fies Empreendedor, que prevĂŞ emprĂ©stimos de atĂ© R$ 180 mil para recĂ©m-formados abrirem negĂłcios prĂłprios.
Segundo o Ministério da Fazenda, a iniciativa busca ampliar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis e estimular o empreendedorismo entre ex-estudantes financiados pelo programa.
No entanto, estudos publicados pelo Instituto de Pesquisa EconĂ´mica Aplicada (Ipea) mostram que o prĂłprio Fies acumulou elevados Ăndices de inadimplĂŞncia ao longo de sua histĂłria. O ĂłrgĂŁo aponta a ausĂŞncia de garantias, a baixa renda dos beneficiários e dificuldades de inserção no mercado de trabalho como fatores que comprometem a sustentabilidade financeira do programa.
Minha Casa, Minha Vida mirando faixas de renda mais altas
Em abril, Lula decidiu incluir a Faixa 4 no Minha Casa, Minha Vida, estendendo o alcance do programa de habitação a famĂlias com renda mensal de atĂ© R$ 13 mil.
Segundo o MinistĂ©rio das Cidades, a medida busca ampliar o acesso ao crĂ©dito habitacional para famĂlias que enfrentam dificuldades para financiar imĂłveis diante dos juros elevados.
Apesar disso, dados da Fundação JoĂŁo Pinheiro indicam que a maior parte do dĂ©ficit habitacional brasileiro está concentrada entre famĂlias de menor renda, pĂşblico que historicamente constituiu o foco do programa.
Desenrola turbinado até para adimplentes
Outra frente foi a expansĂŁo do Desenrola. ApĂłs a primeira fase, voltada Ă renegociação de dĂvidas de inadimplentes, a gestĂŁo Lula lançou novas modalidades do programa, incluindo linhas para pequenos empreendedores e uma versĂŁo destinada a consumidores adimplentes [https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/desenrola-adimplentes-fies-empreendedor-endividamento/], permitindo a substituição de emprĂ©stimos mais caros por operações com juros menores.
O Ministério da Fazenda sustenta que a medida reduz o custo do endividamento e amplia o acesso ao crédito para trabalhadores informais e consumidores que mantêm as contas em dia.
No entanto, a segunda edição do Desenrola [https://www.gazetadopovo.com.br/economia/desenrola-2-0-lula-renegociacao-dividas/] recebeu ressalvas do BTG Pactual, cujos analistas classificaram o desenho do programa como mais intervencionista que a versĂŁo anterior, por impor novas obrigações Ă s instituições financeiras e ampliar significativamente o alcance da polĂtica de crĂ©dito.
A nova modalidade tambĂ©m recebeu crĂticas do setor bancário. Em entrevista ao portal UOL, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, que apontou que a repactuação ampla de contratos de adimplentes poderia “estimular a inadimplĂŞncia” e gerar impactos sobre a lĂłgica econĂ´mica das operações de crĂ©dito.
Ampliação do MEI e verba dobrada para propaganda da gestão Lula
O governo também encaminhou ao Congresso uma proposta para reformular o limite de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI). O texto prevê elevar o teto anual dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, com reajustes automáticos pela inflação nos anos seguintes. A medida ainda precisa passar pelo Congresso.
Somam-se a essas iniciativas a aceleração das entregas de obras do Novo PAC e a ampliação das despesas com propaganda institucional do governo — que alcançaram R$ 520 milhões empenhados no primeiro semestre, mais que o dobro do registrado no mesmo perĂodo do Ăşltimo ano eleitoral de Bolsonaro.
Fonte: gazetadopovo






