O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está apostando em propaganda e invocando a defesa retórica do direito internacional em uma nova tentativa de reconstruir sua imagem no exterior. A manobra política tem poucas chances de dar certo em um cenário recente marcado pela derrota na luta por protagonismo no Mercosul e pela pressão militar americana na América Latina.
A mais recente aposta diplomática de Lula – assinar o acordo comercial com a União Europeia enquanto ocupava a presidência rotativa do Mercosul – foi um grande fracasso político. A premiê italiana de direita, Giorgia Meloni, atrasou em semanas o parecer de seu país sobre o acordo, e a caneta e o prestígio da assinatura passaram para o presidente de direita do Paraguai, Santiago Peña. Ele comemorou o acordo ao lado de outros líderes de direita, como o argentino Javier Milei e o boliviano Rodrigo Paz no último fim de semana. Contrariado, Lula nem foi à cerimônia.
Na segunda-feira (19), o presidente esboçou reação com um ataque indireto a Trump, por meio de um artigo de opinião publicado no jornal americano New York Times. Nele, condena ações unilaterais dos Estados Unidos na Venezuela (que resultaram na captura do ditador Nicolás Maduro), critica o enfraquecimento do sistema multilateral e defende que chefes de Estado não podem ser punidos por outros países por meio da força.
Nesta terça-feira (20) Lula também atacou Trump. No dia em que o americano completou um ano de seu segundo mandato, Lula disse que ele quer governar o mundo pelo Twitter (X), durante um evento no Rio Grande do Sul. O petista ganhou pontos nas pesquisas eleitorais do ano passado ao se definir como defensor do Brasil contra as tarifas comerciais de Trump.
O discurso no artigo do New York Times entitulado “Este hemisfério pertence a todos nós” remete à tradição diplomática brasileira de soberania e não intervenção e defende que as relações entre países devem ser pautadas por normas e não pela força. Mas as palavras não condizem com as posições práticas do governo Lula e têm apenas função retórica e propagandística, segundo Cezar Roedel, doutor em Filosofia pela PUCRS e estrategista internacional.
“Invoca-se o direito internacional para criticar os Estados Unidos, mas não para condenar a guerra ilegal da Rússia contra a Ucrânia, as invasões chinesas no Mar do Sul ou os testes balísticos da Coreia do Norte. É uma hipocrisia tremenda”, afirmou.
Para o deputado Filipe Barros (PL-PR), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o discurso escancara incoerência. “O nanismo diplomático no qual Lula enfiou as relações exteriores do país tem nos envergonhado mundialmente desde os primeiros dias do mandato”, afirmou à Gazeta do Povo. Segundo ele, o governo brasileiro “está cada vez mais isolado, só andando ao lado das piores autocracias do planeta”, disse.
Barros destaca que Lula escolhe atacar Washington, mas evita qualquer crítica à Rússia e à China, potências que também violam princípios internacionais quando lhes convém. “É evidente que o Brasil perde aliados estratégicos e espaço de liderança ao insistir em uma política externa guiada por afinidade ideológica, não por pragmatismo”, disse.
Com a América do Sul cada vez mais ocupada por governos de direita, a estratégia externa do Planalto passa a enfrentar resistências adicionais. A aproximação de Lula com líderes ideologicamente alinhados, como o presidente colombiano Gustavo Petro, reforça a percepção de isolamento.
“A diplomacia brasileira sempre foi respeitada. Isso começou a se perder quando Lula voltou a estreitar laços com ‘companheiros’ ideológicos. O estrago é sem precedentes”, avaliou Filipe Barros.
Pragmatismo e cooperação ajudariam mais o Brasil, dizem analistas
A doutora em sociologia do desenvolvimento e especialista em cooperação internacional Leila Bijos avalia que o discurso presidencial falha ao tensionar a relação com os Estados Unidos, parceiro histórico do Brasil. “A cooperação técnica, científica e acadêmica com os Estados Unidos é intensa e estratégica. Essa relação precisa ser solidificada”, afirmou.
Segundo ela, a política externa deveria priorizar resultados econômicos e pragmatismo.
“Precisamos fortalecer o acordo com a União Europeia, gerar emprego, renda e superar ideologias. Não se trata de direita ou esquerda, mas de trabalhar com as diferenças”, disse.
Leila defende uma política externa universalista. “O Brasil deve trabalhar com Estados Unidos, União Europeia, Rússia, China e também com a África. Prosperidade e cooperação devem estar acima de disputas ideológicas”, disse.
Outro ponto destacado pelo professor Roedel é a fragilidade estrutural do Brasil para sustentar qualquer pretensão de protagonismo. “O [diplomata brasileiro] Barão do Rio Branco [1845-1912] já dizia que diplomacia exige poder de barganha, e isso passa por defesa. Hoje, o próprio governo admite que não há recursos sequer para combustível das aeronaves militares”, disse.
De acordo com o analista, o Brasil perdeu capacidade de influência regional justamente por abandonar investimentos estratégicos em defesa e segurança. “Se houvesse protagonismo real, o Brasil deveria liderar ações regionais. Mas ficou no ostracismo enquanto outros países ocupam esse espaço”, afirmou.
Já para governistas, a defesa do multilateralismo e a política externa de Lula são definidos não como ideologia, mas como “autonomia estratégica”. Na visão do Itamaraty, o Brasil busca se consolidar como um mediador necessário em um mundo multipolar – conceito segundo o qual países mais fortes exercem poder sobre países vizinhos mais fracos, dividindo o mundo em áreas de influência.
Nesse cenário, o diálogo com o Sul Global (países em desenvolvimento) e com potências como China e Rússia seriam um trunfo diplomático, e não um isolamento em relação ao Ocidente.
“Essa concepção do ‘Sul Global’ é um sonho antigo de Lula e de Celso Amorim [assessor especial de Lula] de que o Brasil teria protagonismo em uma nova ordem liderada por ditaduras. Isso é uma história da carochinha”, afirmou Roedel.
Ele avalia que o governo evita definir claramente a qual zona de influência deseja pertencer. “O Brasil precisa decidir se quer colaborar de forma ativa com o eixo ocidental ou permanecer numa zona cinzenta. Essa ambiguidade é péssima, inclusive do ponto de vista eleitoral”, disse.
Derrota no Mercosul e ausência de Davos apontam isolamento de Lula
O protagonismo dos presidentes do Paraguai, Santiago Peña, da Argentina, Javier Milei, e da Bolívia, Rodrigo Paz, na assinatura do acordo comercial do Mercosul com a União Europeia apontam para um avanço do poder da direita no continente americano. Também estavam presentes governantes de esquerda, como o presidente do Uruguai Yamandu Orsi.
A ausência do presidente Lula na cerimônia de assinatura no último fim de semana — com a presença apenas do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira — reforçou a percepção de esvaziamento da liderança brasileira no bloco e ampliou a leitura de isolamento do Planalto.
Lula também decidiu não participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça nesta semana. A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, será a única representante do governo brasileiro no evento. Para especialistas, a ausência do presidente em fóruns estratégicos reforça a perda de espaço do Brasil em negociações internacionais.
Interlocutores do Planalto, por outro lado, afirmam que as ausências refletem uma estratégia de priorizar a agenda doméstica e alianças regionais específicas, negando qualquer isolamento diplomático.
Fonte: gazetadopovo






