Saúde

Lontra de resgate Splash: a heroína que auxilia em operações de busca subaquática

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2026

Quando Michael Hadsell mergulhou em um lago para investigar um caso de homicídio sem solução havia mais de três décadas, ele já estava acostumado a operações difíceis. 

Veterano em buscas e resgates, o norte-americano trabalha há mais de 45 anos treinando cães farejadores, cavalos e equipes especializadas em localizar pessoas desaparecidas e restos mortais. 

Mas, naquele dia, quem faria a descoberta decisiva não seria um policial, nem um mergulhador experiente. Seria uma lontra (muito fofa) chamada Splash.

No fundo lodoso do lago, o bichinho indicou um ponto específico. Ali, os investigadores encontraram um tijolo de barro enterrado na lama. 

Mais tarde, ele seria comparado aos ferimentos da vítima do assassinato e enviado a um laboratório, onde especialistas conseguiram extrair DNA humano de vestígios de sangue ainda presentes. O caso, arquivado havia 33 anos, finalmente ganhou respostas.

Splash é considerado o primeiro animal treinado especificamente para buscas subaquáticas de restos humanos nos Estados Unidos.

A lontra faz parte da equipe da organização sem fins lucrativos Peace River Search and Rescue K9, conhecida como PRSARK9, na Flórida. 

O grupo trabalha com policiais, especialistas forenses e investigadores em casos envolvendo pessoas desaparecidas, buscas em rios e lagos, resgates e recuperação de corpos. 

Hadsell passou décadas treinando cães farejadores para operações de busca. Os animais conseguiam identificar odores humanos nas margens de lagos, canais e rios, mas quando o cheiro “afundava”, as buscas emperravam.

“Eu mergulhava para procurar o que os cães estavam indicando e simplesmente não conseguia encontrar. Era muito frustrante”, contou em comunicado.

Com o avanço das técnicas de DNA e o aumento da reabertura de casos antigos, buscas subaquáticas passaram a ser cada vez mais frequentes. Muitos restos humanos permanecem escondidos em ambientes de baixa visibilidade, enterrados sob lama, sedimentos ou vegetação. 

Hadsell começou então a pensar em um animal que fosse naturalmente adaptado à água.

Nos anos 1980, enquanto vivia na Tailândia, viu pescadores locais utilizando lontras treinadas para ajudar na captura de peixes e na recuperação de objetos submersos. Décadas depois, em 2020, uma reportagem sobre a capacidade das lontras de rastrear presas debaixo d’água reacendeu a lembrança.

“Li um artigo sobre como as lontras usam o paladar e o olfato para caçar debaixo d’água. Uma lâmpada se acendeu na minha cabeça”, disse à Discover. “Treino cães farejadores há 46 anos. Quão difícil poderia ser?”

Pouco depois, ele visitou o Mote Marine and Aquarium, na Flórida, e observou treinadores trabalhando com lontras. 

Os exercícios lembravam muito o treinamento de cães: comandos simples, recompensas e reforço positivo. Foi ali que ele percebeu que a ideia talvez não fosse tão maluca.

Imagem da lontra Splash sentada com uma das patas dentro de um tijolo, tentando pegar algo.
Splash treinando em qual buraco do tijolo o odor-alvo está. (American Animal Hospital Association/Divulgação)

À procura de uma lontra

O problema era conseguir uma lontra. Hadsell chegou a procurar comerciantes de animais exóticos, mas recebeu orçamentos de até US$ 15 mil. Em vez disso, resolveu entrar em contato com zoológicos que mantinham programas de conservação da espécie.

O Wildlife World Zoo, no Arizona, topou ajudar. O proprietário do zoológico, Morgan Brown, decidiu doar um filhote para o projeto: Splash.

Levar a lontra para casa, porém, não foi simples. Nos Estados Unidos, elas são consideradas animais exóticos. 

Hadsell precisou obter licenças especiais, construir áreas de contenção na propriedade e solicitar autorizações para cada estado por onde passaria transportando o animal. Até hoje, quando viaja para operações de busca, ele precisa avisar previamente as autoridades estaduais.

Outra dificuldade envolve o transporte aéreo. Segundo Hadsell, lontras não lidam bem com cabines pressurizadas por causa da sensibilidade nas orelhas. Por isso, quase todas as viagens de Splash são feitas de carro – inclusive missões longas, que já levaram a equipe até ao Círculo Polar Ártico.

Splash também exige cuidados veterinários específicos. Ele recebe vacinas adaptadas para animais exóticos e precisa ser atendido por profissionais acostumados a lidar com espécies selvagens.

Outro desafio é a vulnerabilidade das lontras a doenças humanas. Covid-19, gripe e outras infecções respiratórias podem ser fatais para elas. Por isso, não pode ser manipulado livremente por qualquer pessoa.

Apesar do trabalho incomum, o bichinho leva uma vida bastante doméstica. Ele mora dentro da casa de Hadsell, convive com os cães da equipe, brinca na piscina infantil do quintal e dorme em um pequeno “iglu”.

Segundo o treinador, a lontra adora carinho, mas apenas quando quer. No veterinário, por exemplo, a história muda completamente. “Ele fica muito agitado e morde”, contou.

Imagem da lontra Splash deitada dormindo, enrolada em um tecido.
(Facebook (@FDLE)/Reprodução)

Como treinar uma lontra?

Treinar Splash exigiu adaptar métodos tradicionais de cães farejadores a um ambiente completamente diferente.

Na terra, odores se espalham pelo ar. Debaixo d’água, correntes dispersam partículas, sedimentos acumulam substâncias e a origem do cheiro pode ficar mascarada.

As lontras possuem bigodes extremamente sensíveis, chamados vibrissas, capazes de detectar pequenas alterações no movimento da água. Hadsell acredita que Splash usa esses sensores para perceber perturbações associadas aos restos humanos submersos.

Segundo ele, a lontra também libera bolhas pelo nariz e depois as reabsorve para captar odores dissolvidos na água.

A hipótese ainda não foi formalmente validada pela comunidade científica, mas Hadsell descreve o comportamento de Splash como algo próximo de um “sonar biológico”.

O treinamento começou assim: cinco bolas de borracha eram colocadas na água, mas apenas uma continha o odor-alvo. Quando escolhia a correta, Splash ganhava peixe como recompensa (geralmente salmão).

Com o tempo, o treino ficou mais sofisticado. Hoje, Splash trabalha normalmente ao lado dos cães farejadores da equipe. Primeiro, os cachorros identificam possíveis áreas de interesse na superfície. Depois, a lontra entra em ação para localizar o ponto exato debaixo d’água.

Quando detecta algo, Splash fica agitado, vocaliza mais e tenta conduzir Hadsell até o local. Em mergulhos, ele chega a puxar a máscara do treinador para avisar que encontrou algo.

A lontra também usa um peitoral desenvolvido sob medida. Como não existem equipamentos comerciais para lontras de resgate, Hadsell precisou trabalhar com fabricantes de coletes usados por cães policiais para criar um modelo adaptado.

O acessório permite que o treinador o siga mesmo em águas completamente turvas. Quando chega ao ponto exato, a lontra se posiciona sobre o alvo para que a equipe marque o local.

O treinamento do peitoral, aliás, foi uma das etapas mais difíceis. “Desde o primeiro dia brigávamos por causa das coleiras”, contou Hadsell. “Ele destruía todas.” 

Hoje, Splash já participa regularmente de operações de busca. Mas Hadsell impõe limites rígidos para proteger o animal.

A lontra não mergulha em profundidades superiores a cerca de nove metros. Operações com correntezas fortes são canceladas. E áreas com muitos jacarés simplesmente são evitadas. A equipe também monitora aves de rapina, como gaviões e águias, que podem enxergar Splash como presa.

Em águas contaminadas, os cuidados aumentam ainda mais. Após mergulhos em locais poluídos, Splash precisa ser lavado com detergente especial, o que remove os óleos naturais da pelagem responsáveis por sua flutuabilidade e isolamento térmico.

“Ele vira uma pedra”, brincou Hadsell. “Não nada direito.” Depois disso, a lontra precisa passar dias longe da água até recuperar a camada natural de óleo.

Apesar da rotina intensa, Splash parece gostar do trabalho. Segundo Hadsell, basta ele vestir a camisa da equipe e pegar os equipamentos para a lontra correr até a porta junto com os cães, pronta para entrar na van.

“Ele está lá com os outros, querendo fazer o que sabe fazer”, disse. “Agora ele faz parte da equipe.”

 

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo