Em muitas entrevistas que vemos na televisão, na mídia, na internet e nos jornais, há sempre uma afirmativa recorrente: a de que o Brasil ainda é um país de não leitores. Embora haja dados otimistas, ainda falta muito para alcançarmos um nível de leitura ampla e uma prática de estudo constante, nem que seja centrada em uma, duas ou três horas por dia, além da exigência já imposta às profissões liberais de passarem grande parte do tempo em seus escritórios lendo para a formulação de pareceres e a realização de processos fiscais, logísticos, pedagógicos, administrativos etc.
Em 2008, havia 650 municípios sem nenhuma biblioteca pública, e o governo da época implementou políticas como o Plano Nacional do Livro e Leitura, com ações dos ministérios da Cultura, do Turismo e da Educação, para tentar reverter esse quadro. A intenção era incentivar a leitura com base nas bibliotecas públicas existentes.
Todavia, a leitura é um hábito próprio, que se adquire por incentivo da escola e das famílias. Não é o número de bibliotecas públicas que fará aumentar o número de leitores; é o contrário: o número de leitores é que fará aumentar a compra de livros, a quantidade de bibliotecas disponíveis, as visitas às bibliotecas e o acesso aos léxicos e volumes, mesmo que virtuais.
A educação vem de exducere, que significa “conduzir para fora”, “guiar para fora”, ou seja, fazer o indivíduo caminhar com as próprias pernas, depois de ter adquirido autonomia e qualidade em sua personalidade, com controle e disciplina.
Ele lê quando quer, com frequência, tem controle de suas ações e horários regulados para realizar todas as atividades. Quando um indivíduo adquire esse padrão, próprio dos escolásticos, ele será um bom leitor, um bom estudante e um homem apto a ser um bom cidadão.
O que o Estado precisa entender é que a cultura não pode ser controlada por ele. O que pode fazer é incentivar que cada família e cada escola promovam seus círculos de leitura e permitam que as práticas de leitura ocorram com mais frequência no dia a dia, para formar cidadãos disciplinados e leitores.
Todavia, mesmo com a baixa influência do incentivo à leitura, cerca de quase metade da população brasileira lê ou gosta de ler, seja no celular, nos jornais ou nos livros. São, em média, 100 milhões de leitores. O apreço pela leitura bíblica ou espiritual corresponde a mais de 40% desse universo, o que é relevante para o cenário nacional.
Do universo de 100 milhões de leitores no Brasil, boa parte pertence às classes mais simples, por incrível que pareça, ou não é composta por estudantes. Observa-se um crescimento do autodidata, que lê por gosto e consegue aprender tanto quanto alguém formado.
Boa parte dos leitores possui renda de um a cinco salários mínimos, o que indica que o gosto pela leitura não é necessariamente proporcional à condição econômica. Hoje, com a internet, o acesso à leitura é de todos.
A maior parte dos leitores frequenta o ensino superior — cerca de 70% — e possui renda de até dez salários mínimos, embora uma parcela significativa, em média 40%, pertença às classes C e D, contra 60% das classes A e B, em números aproximados.
Houve uma queda no número de leitores entre 2015 e 2019: cerca de 5 milhões de pessoas deixaram de ler com frequência. Embora as classes mais altas sempre tenham apresentado maior índice de leitores, também houve nelas uma redução no ativismo da prática de leitura. Além disso, os leitores de 11 a 17 anos apresentaram perda de desempenho, o que é preocupante, embora, em números absolutos, os dados ainda sejam positivos.
Mais de 80% dos leitores gostariam de ler mais, e metade atribui essa dificuldade à falta de tempo; apenas um terço dos não leitores afirma não ler porque realmente não gosta.
O gosto pela leitura entre as crianças vem diminuindo, mas ainda é significativo: cerca de 70% delas liam, em 2019, com frequência semanal, seja um livro infantil ou periódico, por vontade própria.
A leitura hoje não se concentra mais apenas nos livros impressos, mas também no celular, no computador e na internet. O volume de e-books vem crescendo, enquanto o número de livros impressos vem caindo, embora a forma tradicional seja, para o desenvolvimento da inteligência, a mais interessante — o que não exclui, como complemento, as formas virtuais de compreensão.
Uma prática que incentiva a edição de livros são as coletâneas, que reúnem dezenas de poetas, escritores e cronistas em obras conjuntas, promovendo maior acesso à leitura.
Os livros não são tributados como mercadorias comuns, o que favorece o investimento das editoras em maquinário para livros impressos, jornais, cartazes e outros instrumentos importantes de leitura.
Mesmo com números relativamente otimistas, já houve estatísticas indicando que a maior parte dos brasileiros não lia sequer dois livros por ano, o que é preocupante
Portanto, acreditamos que duas soluções são fundamentais para a melhoria da leitura, e ambas não vêm do Estado, mas da família. A primeira é dedicar de meia hora a duas horas ao incentivo da leitura de revistas e pequenos livros para a criança (cartilhas, livretos, livros coloridos e ilustrados). A segunda é que os pais adquiram, aos poucos, uma pequena biblioteca para a criança ou visitem espaços públicos e privados para a compra de livros e o investimento em periódicos.
Somente com cultura e conscientização a leitura pode melhorar. Isso nasce na família e no indivíduo. O Estado ajuda, mas a solução não vem apenas de políticas públicas ou do coletivo. Vem da célula social familiar, do incentivo e do exemplo dos pais em pequenas práticas de leitura.
Bastam meia hora diária com os filhos para formar um exército de leitores adultos capazes de chegar à marca de 50 livros por ano. Isso não é impossível e é o Brasil que queremos, pois pequenas práticas de leitura geram grandes resultados acadêmicos. Basta fazer a experiência, como meus pais fizeram comigo e com meus irmãos.
Rodrigo Antonio Chaves da Silva é professor.
Fonte: gazetadopovo






