Saúde

Júlia Leão: Personalização de remédios com impressão 3D

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026 word1

Júlia Leão tinha cerca de 10 anos quando ouviu a palavra “ciência” pela primeira vez. Foi na escola, em Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul (RS), onde nasceu e cresceu. 

O colégio que estudava incentivava a participação em feiras científicas, e uma professora lhe entregou um pequeno livro sobre automedicação e uso irracional de medicamentos. O tema despertou sua curiosidade.

Ao longo dos anos seguintes, apresentou trabalhos em feiras de ciências, distribuiu panfletos feitos à mão e organizou campanhas de coleta de medicamentos vencidos, orientando sobre o descarte correto. “Eu já era uma pesquisadora sem saber exatamente o que era isso”, conta à Super.

Siga

A experiência ajudou a definir o caminho profissional. Júlia ingressou no curso de Farmácia na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) como bolsista integral. Desde o início, procurou se envolver com pesquisa. 

No segundo semestre, entrou como voluntária em um grupo que investigava a genética da bactéria causadora da tuberculose em presídios do RS, mapeando sua transmissão. “Foi meu primeiro contato com pesquisa de laboratório. Eu adorava”, afirma.

Depois, transitou por diferentes áreas. Participou de um projeto que utilizava microalgas para tratar resíduos de esgoto contaminados por agrotóxicos, por exemplo. A proposta era usar esses microrganismos para remover contaminantes e reduzir o impacto ambiental do descarte industrial. 

Mas foi em um estágio em uma farmácia de manipulação veterinária que encontrou o problema que definiria sua carreira. 

No dia a dia, acompanhava a rotina de preparação de fórmulas personalizadas e via de perto as limitações das opções disponíveis. A principal dificuldade era a falta de medicamentos desenvolvidos especificamente para animais.

Muitos dos fármacos usados eram adaptações de versões desenvolvidas para humanos, nem sempre adequadas. Alguns comprimidos, por exemplo, precisam ser partidos ou triturados para tentar atingir a dose correta. E, mesmo assim, o gosto amargo faz com que muitos cães e gatos rejeitem o tratamento. 

Para Júlia, isso revelou uma lacuna estrutural. A indústria farmacêutica, baseada na produção em larga escala, não contemplava a diversidade de espécies, pesos e necessidades clínicas da medicina veterinária. 

Ela viu que adaptar medicamentos era muitas vezes a única alternativa – e que ainda havia amplo espaço para desenvolver soluções melhores. “Foi onde eu me encontrei”, diz. 

Ao concluir a graduação, encontrou poucas iniciativas voltadas ao tema. “Fiquei muito apreensiva, porque pensei: ‘quero muito fazer isso, mas ninguém está fazendo agora’”. Decidiu seguir buscando, até que ingressou no mestrado em Ciências Farmacêuticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. 

Se mudou de Santa Cruz do Sul para a capital gaúcha e passou a integrar o grupo Nano3D, liderado pelo farmacêutico Ruy Beck, que havia introduzido recentemente no Brasil uma tecnologia ainda pouco conhecida: o uso da impressão 3D para produzir medicamentos. 

Como se imprime um medicamento?

O princípio é semelhante ao de impressoras 3D convencionais, mas, em vez de plástico, utiliza uma formulação em gel que contém o princípio ativo. Esse material fica armazenado em uma seringa acoplada à impressora, como um cartucho. É dela que sai o medicamento, liberado aos poucos durante a impressão.

No computador, o pesquisador define as características – como dose e tamanho – e a máquina vai depositando o material camada por camada até formar a unidade final.

A principal vantagem é a flexibilidade. Sem precisar trocar moldes ou equipamentos, é possível produzir versões diferentes a partir da mesma formulação, alterando apenas o desenho no software. “Consigo fazer medicamentos de diferentes formatos, tamanhos e texturas que podem ser administradas com muito mais facilidade para o paciente”, destaca Júlia.

Isso resolve uma limitação na indústria farmacêutica (veterinária e humana) que, como mencionado, opera em larga escala e tem pouca margem para personalização. 

Hoje, para fabricar um comprimido com dose diferente, muitas vezes é necessário criar uma nova linha de produção. Com a impressão 3D, essa mudança pode ser feita digitalmente, em tempo real. 

Além de animais, isso pode ajudar crianças, idosos e pacientes com dificuldade de deglutição que frequentemente não conseguem ingerir comprimidos convencionais ou precisam de doses muito específicas.

Um passo além

Durante o mestrado, ela e colegas decidiram levar a pesquisa além do laboratório e fundaram a Formula3D, uma deeptech dedicada a aplicar a impressão 3D na produção de medicamentos personalizados.

A empresa passou a trabalhar com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, onde a tecnologia está sendo implementada dentro da própria estrutura hospitalar. A proposta é permitir que os medicamentos sejam produzidos no local, conforme a necessidade de cada paciente.

O projeto ainda está em fase piloto. Isso significa que a tecnologia está sendo introduzida e avaliada na prática, fora do ambiente acadêmico. Ainda não é um produto disponível comercialmente nem pode ser adquirido por outras instituições. O objetivo é validar o funcionamento nesse contexto e reunir dados que permitam expandir o uso no futuro. Segundo Júlia, é a primeira iniciativa do tipo na América Latina.

Ela afirma que esse tipo de transição ainda é incomum no Brasil. “Infelizmente, a maior parte das nossas pesquisas acaba na publicação”, diz. 

Afinal, não é algo simples. Transformar um resultado científico em aplicação prática exige superar etapas como validação técnica, financiamento e adaptação ao sistema de saúde. Também é preciso encarar problemas como o machismo. 

“Já vivi muitas situações de não acreditarem ou descredibilizarem por ser mulher e pesquisadora. Quem está avaliando e comprando a tecnologia geralmente são homens mais velhos que às vezes não estão tão abertos para ouvir mulheres jovens”, relata. 

O trabalho lhe rendeu reconhecimento internacional. Júlia foi uma das vencedoras da 6ª edição do programa 25 Mulheres na Ciência, promovido pela 3M. 

Neste ano, a iniciativa teve como tema “Mulheres na Manufatura” e destacou projetos liderados por pesquisadoras que aplicam conhecimentos em ciência, tecnologia, engenharia e matemática para transformar processos produtivos e impulsionar a inovação industrial na América Latina. Ao todo, dez brasileiras foram selecionadas.

Para Júlia, o principal efeito do prêmio é “ ajudar nessa missão de popularizar o conhecimento sobre essa tecnologia.” 

Ela acredita que a ciência precisa ir além dos artigos acadêmicos, e que o conhecimento só cumpre seu papel completo quando se transforma em solução concreta. “A pesquisa é um ponto de partida para o mundo real. É preciso pensar sempre além”, conclui.

(function() {
‘use strict’;

var playersData = [{“container_id”:”dailymotion-player-489304-0″,”type”:”playlist”,”id”:”xbdhda”,”player_id”:”x1iumm”}];
var libraryPlayerId = “x1iumm”;

function createDailymotionPlayers() {
if (typeof dailymotion === ‘undefined’) {
return false;
}

playersData.forEach(function(playerData) {
var config = {
params: {
mute: true
}
};

if (playerData.type === ‘video’) {
config.video = playerData.id;
} else if (playerData.type === ‘playlist’) {
config.playlist = playerData.id;
}

if (playerData.player_id && playerData.player_id !== libraryPlayerId && playerData.player_id !== ‘default’ && playerData.player_id !== null) {
config.player = playerData.player_id;
}

dailymotion.createPlayer(playerData.container_id, config)
.then(function(player) {
var container = document.getElementById(playerData.container_id);
if (container) {
var iframe = container.querySelector(‘iframe’);
if (iframe) {
iframe.setAttribute(‘loading’, ‘lazy’);
}
}
})
.catch(function(error) {});
});

return true;
}

var retryCount = 0;
var maxRetries = 20;

function tryCreatePlayers() {
if (createDailymotionPlayers()) {
return;
}

retryCount++;
if (retryCount < maxRetries) {
setTimeout(tryCreatePlayers, 200);
}
}

if (document.readyState === 'loading') {
document.addEventListener('DOMContentLoaded', tryCreatePlayers);
} else {
tryCreatePlayers();
}
})();

Fonte: abril

Sobre o autor

Avatar de Redação

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.