“Mind the gap”. Quem usa o metrô em Londres ouve esse aviso dezenas ou até centenas de vezes em um mesmo dia, cada vez que um trem se aproxima de qualquer estação do London Underground. Trata-se da versão local do alerta clássico ouvido em qualquer estação do mundo, pedindo que os usuários tomem cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.
Mas o ouvido mais atento talvez perceba que, em uma única parada da capital inglesa, a voz muda. Na Embankment, uma estação por onde passam as linhas Bakerloo, Circle, District e Northern, o teor do aviso é o mesmo, mas a gravação vem de décadas atrás – e sobreviveu até hoje graças a uma história de amor.
O legado de Oswald Laurence
Os avisos sonoros automáticos do metrô londrino começaram a ser ouvidos em 1969, como uma forma de tornar mais prático algo que, antes, era feito pelos próprios maquinistas ou pelos fiscais de estação. Para garantir que o alerta nunca fosse esquecido e baratear os custos, diferentes gravações foram feitas para as variadas linhas que cruzam a cidade.
E, na linha Northern, a voz utilizada foi a de Oswald Laurence, um ator de teatro nascido na Alemanha que se radicou em Londres. Não se sabe exatamente o ano em que ele registrou as três palavrinhas mágicas nas fitas utilizadas na época, mas o certo é que elas seguiriam sendo usadas por mais de 40 anos.
De fato, o uso foi mais longevo que o próprio autor. Quando Laurence morreu em 2007, sua voz ainda instava os passageiros a ter atenção com o vão para não sofrer acidentes. Aí desembarcamos na história de amor: a viúva de Oswald Laurence, a médica Margaret McCollum, passou a frequentar a estação de Embankment para ter uma nova chance de escutar a voz do marido.
Mesmo que fosse um aviso padrão, em uma gravação de má qualidade, era a oportunidade de se reconectar por alguns instantes com o companheiro da vida.
Até que, em novembro de 2012… a voz silenciou. O metrô de Londres atualizou seus sistemas de anúncios automáticos, aposentou as velhas fitas e adotou novas gravações digitalizadas. Mesmo que o aviso não tivesse mudado, o responsável por dá-lo já era outra pessoa. E Margaret iniciou uma cruzada para poder ouvir o marido outra vez.
O retorno
Nos dias após o sumiço da voz do marido, uma inconsolável Margaret foi atrás da administração do metrô e, de início, foi avisada que estava diante de uma impossibilidade técnica: a gravação era muito antiga e incompatível com os sistemas recém-inaugurados. Seria difícil recuperar o timbre de Oswald Laurence.
Mas, comovidos com a história da mulher que ia até a estação só para escutar uma voz que não existia mais, os funcionários do Underground se empenharam em recuperar os originais. Eles conseguiram digitalizar o “Mind the gap” de Laurence e colocá-lo em um CD para a viúva escutar em casa.
Quando a história ganhou notoriedade, porém, decidiram dar um passo além: “estamos trabalhando para restaurar o anúncio [original] na estação Embankment“, disse o então diretor do metrô londrino, Nigel Holness, quando a BBC fez uma reportagem sobre o caso em 2013.
Dito e feito: algum tempo mais tarde, o registro histórico voltou a fazer parte do cotidiano de quem passa por essa estação – e só por ela – quando percorre o movimentado subsolo da capital britânica.
Fonte: viagemeturismo






