Durante décadas, o Marineland Antibes foi uma das atrações turísticas mais famosas da França. O parque marinho, localizado perto da cidade de Cannes, recebia multidões para assistir aos shows de golfinhos, leões-marinhos e, principalmente, orcas.
Hoje, porém, o local está praticamente vazio. Os espetáculos acabaram, o parque fechou as portas e duas orcas seguem nadando em tanques envelhecidos enquanto autoridades, cientistas e ativistas discutem o que fazer com elas.
São elas Wikie, de cerca de 25 anos, e seu filho Keijo, de 13. Ambos nasceram em cativeiro e jamais viveram no oceano.
O Marineland, por sua vez, encerrou oficialmente as atividades em janeiro de 2025, depois de 55 anos de funcionamento. O fechamento foi resultado de vários fatores acumulados ao longo da última década.
O parque já chegou a receber cerca de 1,2 milhão de visitantes por ano, mas o público caiu drasticamente. Funcionários citam as enchentes que atingiram a região em 2015, a pandemia de Covid-19 e a mudança na forma como o público passou a enxergar o cativeiro de cetáceos como alguns dos motivos.
Essa mudança ganhou força principalmente depois do documentário Blackfish, lançado em 2013. O filme contou a história de Tilikum, uma orca mantida no parque temático SeaWorld Orlando que matou a treinadora Dawn Brancheau durante um show em 2010. A produção denunciava os impactos psicológicos do confinamento em orcas e teve enorme repercussão mundial.
A pressão sobre os parques marinhos aumentou nos anos seguintes. Em 2017, por exemplo, a atriz Pamela Anderson participou de um protesto em frente ao Marineland e afirmou que “o cativeiro mata”.
Em 2021, a França aprovou uma lei proibindo espetáculos com golfinhos e baleias. A legislação entrou plenamente em vigor neste ano, tornando o modelo de negócio inviável.
Segundo o próprio Marineland, 90% dos visitantes iam ao parque para assistir justamente às apresentações com cetáceos. Sem conseguir se sustentar financeiramente, o local anunciou o fim das atividades.
Mesmo fechado, o Marineland ainda mantém cerca de 40 funcionários trabalhando diariamente para cuidar das duas orcas e de outros 12 golfinhos. Segundo o parque, os custos chegam a milhões de euros por ano.
Só que existe outro problema preocupando as autoridades francesas. Os tanques estão envelhecendo.
Um relatório citado pelo New York Times apontou que a estrutura sofre uma “deterioração progressiva”, apesar das manutenções feitas no local. Segundo o jornal, existe o risco de problemas graves nos tanques, como rachaduras ou falhas estruturais capazes de comprometer a segurança dos animais.
Em um cenário extremo, isso poderia até levar ao sacrifício das orcas. Foi nesse contexto que aumentou a pressão para decidir o destino dos animais.
Destino incerto
Quase ninguém defende soltá-los diretamente no oceano. Wikie e Keijo nasceram em cativeiro, dependem totalmente dos humanos para alimentação e cuidados veterinários e nunca aprenderam a sobreviver sozinhos.
“É um pouco como tirar seu cachorro de casa e mandá-lo para a floresta para viver livremente como um lobo”, disse à BBC a bióloga marinha Hanne Strager.
Ela argumentou que orcas criadas em cativeiro desenvolvem relações sociais muito fortes com treinadores humanos. “As orcas são animais tão altamente sociais quanto nós [humanos]. Elas estabeleceram laços sociais com seus treinadores. Elas dependem dos humanos e essa é a única coisa que conhecem”, afirmou.
Por isso, a discussão atual gira em torno de duas alternativas. Uma delas é enviar Wikie e Keijo para outro parque marinho. O destino mais provável seria o Loro Parque, nas Ilhas Canárias, que já abriga outras orcas.
Os defensores dessa opção dizem que os animais continuariam em um ambiente parecido com aquele em que viveram a vida inteira, convivendo com outras orcas e recebendo cuidados constantes.
Ativistas, porém, criticam fortemente essa possibilidade. Eles argumentam que a transferência apenas manteria os animais presos ao modelo de entretenimento que está sendo abandonado em vários países.
Orcas estão oferecendo comida para humanos. Por quê?
A outra proposta é levar Wikie e Keijo para um futuro santuário marítimo no Canadá. O projeto prevê transformar uma baía na província de Nova Escócia em uma área cercada por redes, onde cetáceos que viveram em cativeiro poderiam passar o resto da vida em água do mar, sem apresentações públicas.
Os animais continuariam recebendo alimento e acompanhamento veterinário, mas viveriam em um espaço muito maior do que um tanque tradicional.
A ideia ganhou apoio de grupos de proteção animal e também de parte da opinião pública, mas está longe de ser consenso. O santuário ainda não está pronto e especialistas questionam se orcas criadas a vida inteira em tanques conseguiriam se adaptar a um ambiente mais natural.
E o governo?
Ativistas e organizações de proteção animal acusam o governo francês de demora excessiva. “Tenho a impressão de que eles estão apenas esperando as orcas morrerem para resolver o problema”, afirmou Paul Watson, fundador da Sea Shepherd Conservation Society, ao NYT.
O governo nega estar parado, mas admite que não existe solução perfeita. “Não existe um santuário mágico”, declarou Mathieu Lefèvre, secretário de Estado francês, durante uma audiência no Senado.
Antes disso, o país já havia barrado uma proposta para enviar as orcas ao Japão. O governo alegou que as regras japonesas de bem-estar animal são menos rigorosas do que as europeias e que a longa viagem causaria estresse excessivo aos animais.
Uma possível transferência para a Espanha também enfrenta obstáculos. Segundo autoridades francesas, o governo espanhol bloqueou temporariamente o plano no fim de 2024.
Enquanto as discussões continuam, Wikie e Keijo seguem no Marineland vazio.
O caso é parte de um problema que vários países começam a enfrentar. Depois de décadas lucrando com shows de cetáceos, parques marinhos agora precisam decidir o que fazer com animais que nasceram e cresceram totalmente dependentes de humanos.
Para muitos ativistas, governos aprovaram leis contra o cativeiro sem planejar o futuro desses animais.
“Como podemos estar gritando ‘Esvaziem os tanques’ sem ter para onde esses animais irem?”, questionou ao NYT Marketa Schusterova, fundadora da organização TideBreakers. Por enquanto, ninguém parece ter uma resposta clara.
Fonte: abril




