Simples gestos com dois ou três dedos em fotos não sou os únicos símbolos que podem ser fatais ao serem interpretados como saudação ou provocação a facções criminosas. Em território estadual, por exemplo, a quantidade de dedos nas fotos tem relação com dois grandes grupos de facções, tudo com 2 e tudo com 3, expressões usadas pelo crime organizado para descrever as duas principais facções: o Comando Vermelho (CVMT) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Além dos gestos com as mãos, organizações criminosas passaram usar símbolos, marcas ou cores de roupas para demarcar território e criar identidade. As organizações se apropriaram até mesmo de emojis de aplicativos de mensagens, a exemplo de uma tradicional bandeira vermelha, que faz alusão ao CV. O PCC, por sua vez, aderiu ao símbolo Yin-Yang. Quando se fala em tatuagem, o PCC é identificado, por exemplo, pela carpa, o número 1533, estrelas e palhaço. Os membros do CV tatuam o TAZ (demônio da Tasmânia), Coringa, teia de aranha. Nas cores, a facção CV é caracterizada pelo vermelho e o PCC pelo preto.
Durante curso Lei de Drogas Aspectos Jurídicos, Político-Criminal e Prático, do Poder Judiciário, Um estudo o juiz Anderson Clayton Dias Batista apresentou diversos símbolos usados pelas duas maiores facções atuantes em Mato Grosso, o CV e o PCC.
Foi justamente uma foto postada nas redes sociais que determinou com o sequestro e morte das irmãs Rayane Alves Porto e Rithiele Alves Porto, julgadas pelo tribunal do crime na cidade de Porto Esperidião, em setembro de 2024. Ao todo, o Ministério Público do Estado denunciou sete pessoas por associação criminosa qualificada, tortura, extorsão mediante sequestro com resultado morte e roubo. No entanto, ainda não foram julgados pelos crimes. Líder do Comando Vermelho nos municípios de fronteira, Norivaldo Cebalho Teixeira, conhecido como Véio, Tuta ou Mercúrio, foi quem ordenou as mortes de dentro da Penitenciária Central do Estado (PCE).
Segundo o Ministério Público, os denunciados são pessoas ligadas ao Comando Vermelho e tomaram conhecimento de uma postagem em rede social na qual três irmãos faziam gestos com as mãos usando três dedos. Na visão dos denunciados, tal gesto seria uma alusão ao PCC. Mesmo não tendo encontrado qualquer indício de envolvimento das vítimas com facções criminosas,elas foram torturadas por pelo menos três horas e mortas. Os casos envolvendo mortes por gestos com símbolos com os dedos em fotos são mais comuns, mas não os únicos.
Em agosto do ano passado, por exemplo, foram as tatuagens uma das motivadoras da morte de José Wallafe dos Santos, de 28 anos, em um complexo habitacional de Várzea Grande. Criminosos ligados ao CV interpretaram os desenhos que o alagoano tinha no corpo como símbolos do PCC. A tatuagem do Tio Patinhas, que o jovem carregava no corpo, está associada a ladrões de bancos, geralmente do PCC.
Segundo a Polícia Civil, o grupo responsável pelo homicídio dava um salve em outra pessoa quando José passou pelo local e parou para observar a cena, o que chamou a atenção dos criminosos. Eles passaram então a questioná-lo sobre possível vínculo com facção. Uma das pessoas que estava ali identificou uma tatuagem do Tio Patinhas e começou a questionar. Depois, despiram José Wallafe e viram uma tatuagem que fazia alusão ao número três, que também é da facção paulista. Mesmo negando a todo momento qualquer ligação com o PCC, José foi acusado de ser membro da facção rival e foi morto. Não há comprovação de que José tivesse qualquer envolvimento com o crime organizado.
Foi também uma tatuagem a responsável pelo sequestro, tortura e assassinato de Reinaldo Aguiar Gomes Júnior, 19, em setembro de 2024. Reinaldo era de Aquidauana (MS) e tinha uma tatuagem no dorso da mão direita com o símbolo de Yin-yang. Reinaldo foi torturado e teve seu celular vasculhado para tentar encontrar eventual relação com a facção rival.
Também em 2024, foi o símbolo yin-yang estampado nas roupas usadas por Iago Otávio Peixoto, de 16 anos, e gestos com três dedos que resultaram em sua execução, em Cáceres (225 km a oeste de Cuiabá).
Professora de Criminologia e Direito Penal da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Vladia Soares comenta que, dentro da criminologia e dos estudos sobre crime organizado, símbolos, gestos, números, cores e marcas funcionam como identidade interna, pertencimento e união, codificação de mensagens, marcação territorial, ritualização da violência e comunicação de hierarquias. Vladia destaca que os simbolismos não são exclusivos do crime. Em relação às cores e roupas, a advogada destaca que as facções costumam escolher cores para representar lealdade, distinguir grupos rivais, marcar território ou uniformizar identidade.
Quanto aos gestos, Vladia frisa que também são comuns em qualquer subcultura como surfistas, rappers, torcidas. No contexto criminoso, eles servem para identificação silenciosa, demarcar posição, homenagear alguém e indicar número ou iniciais. São sinais codificados, muitas vezes criados a partir de letras, números ou símbolos estilizados, explicou.
Em relação aos números e siglas, a professora confirma que são usados para representar a inicial do nome do grupo, indicar bairro ou origem, designar datas consideradas importantes e marcar códigos internos de conduta. Números não são padronizados – o mesmo número pode ter significados totalmente diferentes em regiões distintas, enfatiza Vladia Soares.
Neste contexto de simbologia estão ainda as tatuagens, que podem representar status/hierarquia, representar ainda funções internas genéricas dentro de uma facção, como papéis de disciplina, financeiro, comunicação. As tatuagens podem indicar ainda o tempo no grupo, origem territorial e ideologia do grupo. Criminologicamente, tatuagens funcionam como uma espécie de biografia corporal – mas muitas investigações modernas mostram que nem todo tatuado é membro, e muitos símbolos migram para a cultura popular e deixam de ter significado criminal, disse Vladia.
Fonte: gazetadigital







