Entrando na floresta Amazônica hoje, você se depararia com onças pintadas, um uacari-branco (um macaquinho de cara vermelha e pelos dourados) e provavelmente uma anta cheia de pontinhos brancos. Os mamíferos ao redor do mundo não são menos variados: eles vestem cores e estampas que vão do vermelho ao roxo. Mas nem sempre foi assim.
Um novo estudo sugere que há mais de 120 milhões de anos, enquanto os demais animais se gabavam nas passarelas com exteriores iridescentes, caudas listradas e cristas avermelhadas, os mamíferos optaram por um visual mais discreto. Os mamíferos da época dos dinossauros eram pequenos, noturnos e de uma cor só: marrom-escuro.
A pesquisa, publicada na revista Science, usou métodos avançados de imagem de fósseis de mamíferos jurássicos e análises de células produtoras de pigmentos em mamíferos vivos para casar ambos os resultados e concluir a cor monótona dos animais.
Em seis espécimes diferentes representando cinco grupos distintos de quase mamíferos (mammaliaform) examinados, os pesquisadores perceberam que os animais extintos tinham pelagens marrons lisas, ou seja, sem nenhum padrão.
Matthew Shawkey, um dos autores do estudo e biólogo evolucionista na Universidade de Ghent, na Bélgica, disse à Popular Science que existia, sim, uma variação entre o tom de cada espécie, mas não o suficiente para chamá-los de cores diferentes.
Segundo os autores, a cor desempenhava um papel crucial na camuflagem noturna dos primeiros mamíferos. Esses animais surgiram ao lado dos dinossauros durante a Era Mesozoica, e os paleontologistas acreditam que eram pequenos, geralmente do tamanho de roedores, e principalmente noturnos para evitar predadores.
Por décadas, as cavidades oculares foram uma das poucas evidências concretas desse comportamento. Agora, a descoberta da cor real da pelagem desses animais fornece novas provas dessa adaptação.
Os autores destacam que esses mamíferos eram pequenos e viviam à sombra dos dinossauros, sendo limitados em tamanho, diversidade e até na coloração devido à presença destes predadores.
A cor da pelagem não é apenas estética; ela serve para funções como termorregulação, camuflagem, atração de parceiros, comunicação e defesa. Entender como os primeiros mamíferos se pareciam nos ajuda a compreender como viviam e como a diversidade atual evoluiu, disse o biólogo evolucionista.
Ajuda também na construção de uma linha do tempo evolutiva que explique em que momento os mamíferos ganharam suas cores, listras e manchas – trabalho que já se desenvolve no laboratório de Shawkey.
Também para a Popular Science, Steve Brusatte, outro autor da pesquisa, conta que “quando eu estava crescendo, todos os livros sobre fósseis diziam que nunca saberíamos a cor de espécies extintas. Então, sempre fico pasmo com estudos como esses que parecem fazer o impossível. Este é um trabalho fantástico”.
Mesmo assim, ainda existem algumas lacunas, como a pequena amostra de fósseis, que não permite conclusões gerais sobre os mamíferos do Cretáceo. Os autores sugerem que os primeiros mamíferos estavam limitados até a extinção dos dinossauros, mas estudos recentes indicam que já havia diversificação e até mamíferos predadores de dinossauros antes disso.
Fonte: abril