Saúde

Estudo revela extensão impressionante de redes subterrâneas de fungos: mais de 100 quatrilhões de km

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2026

Escondido sob nossos pés existe um gigantesco sistema vivo que ajuda plantas a crescer, distribui nutrientes pelo solo e até influencia o clima do planeta. Agora, pela primeira vez, cientistas conseguiram estimar o tamanho dessa rede invisível: cerca de 110 quatrilhões de quilômetros de extensão.

Cada quatrilhão equivale a 10¹⁵, ou seja, o número 1 seguido de 15 zeros, assim: 1.000.000.000.000.000. Agora junte 110 deles.

O número é tão colossal que é difícil até de imaginar. Se todos esses filamentos fossem colocados em linha reta, eles cobririam a distância entre a Terra e o Sol quase 750 milhões de vezes.

A estimativa vem de um estudo publicado na revista científica Science, no qual uma equipe internacional de pesquisadores produziu o primeiro mapa global da distribuição e da massa dos chamados fungos micorrízicos arbusculares.

Esses fungos vivem associados às raízes das plantas e formam uma parceria que existe há cerca de 475 milhões de anos. As plantas capturam gás carbônico da atmosfera durante a fotossíntese e transformam esse carbono em energia. Parte desse material é entregue aos fungos. Em troca, eles ajudam as plantas a obter água e nutrientes do solo.

Essa troca acontece por meio das hifas, estruturas microscópicas parecidas com fios que se espalham pela terra formando grandes redes. Elas funcionam como uma espécie de extensão das raízes das plantas. Em solos saudáveis, podem aumentar em até 100 vezes a área que um organismo vegetal usa para absorver nutrientes e fornecer mais de 80% do fósforo necessário para seu crescimento.

“É difícil exagerar a importância e a magnitude desses fungos”, afirmou o autor principal do estudo, Justin Stewart, da Sociedade para a Proteção de Redes Subterrâneas (SPUN), em comunicado. “Pode haver até 10 metros de rede micorrízica em apenas uma colher de chá de solo.”

Estima-se que cerca de 70% das espécies de plantas mantenham essa parceria com fungos micorrízicos arbusculares. Por causa do transporte constante de carbono, água e nutrientes, essas redes são frequentemente descritas por pesquisadores como uma espécie de “sistema circulatório” do planeta.

Apesar dessa importância, os cientistas ainda não compreendiam totalmente a verdadeira dimensão dessas redes, nem onde elas se concentravam.

Mapeamento

Para tentar responder a essas perguntas, os pesquisadores reuniram informações de mais de 16 mil amostras de solo coletadas ao redor do mundo. Depois, usaram modelos de machine learning (sistemas de inteligência artificial capazes de identificar padrões em grandes volumes de dados) para estimar como essas redes se distribuem também em regiões que ainda não tinham sido analisadas.

O modelo incluiu informações de diferentes ambientes, como florestas, desertos e tundras. A equipe também usou imagens robóticas de mais de 300 mil hifas vivas cultivadas em laboratório para ajudar a calibrar as estimativas.

O resultado foi o primeiro mapa global dessa infraestrutura subterrânea. Segundo os pesquisadores, além dos 110 quatrilhões de quilômetros de comprimento, essas redes representam uma massa equivalente a cerca de 300 megatons de carbono – algo entre quatro e seis vezes a massa de todos os seres humanos vivos juntos.

“Com o surgimento de novas tecnologias em imagens de alta resolução, machine learning e robótica, estamos começando a revelar o que há muito tempo estava escondido sob nossos pés”, disse em nota Corentin Bisot, biofísico do instituto de pesquisa AMOLF e coautor do estudo. “Estamos aprendendo como os corpos complexos dos fungos formadores de redes transportam nutrientes e ajudam a regular o clima.”

O estudo também mostrou que algumas das regiões mais importantes para esses fungos são as pradarias, campos naturais dominados por gramíneas. Esses ecossistemas concentram cerca de 40% da biomassa mundial de fungos micorrízicos arbusculares.

O problema é que muitos desses ambientes estão ameaçados. Segundo os pesquisadores, as pradarias “estão entre os ecossistemas menos protegidos do mundo” e “estão sendo convertidas em áreas agrícolas em ritmo acelerado”.

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A agricultura intensiva também pode afetar diretamente esses organismos. O estudo estimou que grandes áreas de cultivo têm, em média, uma densidade de redes micorrízicas cerca de 47% menor do que ecossistemas selvagens.

“Muitas práticas agrícolas em larga escala prejudicam as redes de fungos”, disse Stewart ao The Guardian. “A forma mais evidente é com técnicas como a aração, que penetra no solo e literalmente o revira.”

Segundo ele, o uso de fertilizantes e fungicidas também pode interferir na parceria entre plantas e fungos. Isso acontece porque a planta pode passar a depender menos da troca natural de nutrientes, enfraquecendo essa relação construída ao longo de milhões de anos.

A perda dessas redes pode trazer consequências além do solo. Fungos micorrízicos ajudam a armazenar carbono abaixo da superfície, reciclam nutrientes e reduzem o transporte de substâncias como nitrogênio e fósforo para rios e outros corpos d’água.

“Se eles desaparecerem, haverá muito mais produtos químicos nos cursos d’água”, disse Toby Kiers, diretora executiva da SPUN e uma das autoras do estudo, ao The Guardian.

Os pesquisadores destacam que isso não significa simplesmente abandonar a agricultura moderna, claro. Ainda são necessários mais estudos para entender exatamente como diferentes técnicas agrícolas influenciam essas redes. A ideia é encontrar formas de produzir alimentos trabalhando junto com os fungos, e não contra eles.

Uma possibilidade é favorecer práticas que mantenham comunidades subterrâneas saudáveis. Assim, as plantas poderiam receber mais nutrientes naturalmente, reduzindo parte da dependência de fertilizantes, enquanto os fungos continuariam ajudando a armazenar carbono no solo.

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

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