Em 2025, os oceanos do planeta absorveram mais calor do que em qualquer outro ano desde que medições modernas começaram, por volta da década de 1960. O dado vem de um estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Science.
Os oceanos funcionam como o maior reservatório de calor da Terra. Eles absorvem mais de 90% do excesso de energia que fica retido na atmosfera por causa das emissões de gases de efeito estufa.
Quando queimamos carvão, petróleo e gás, aumentamos a concentração desses gases, que dificultam a saída do calor para o espaço. O resultado é um planeta que continua acumulando energia – e a maior parte dela vai parar no oceano.
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O estudo calculou que, em 2025, foram absorvidos 23 zettajoules extras de energia térmica. Um zettajoule é um número enorme: equivale a um sextilhão de joules.
Para ter uma ideia do tamanho dessa energia, o professor John Abraham, da Universidade de St. Thomas e um dos autores do artigo, disse à Wired que isso equivale, em energia, à explosão de 12 bombas de Hiroshima por segundo no oceano.
Esse aumento mantém uma sequência que preocupa os pesquisadores. Foi o nono ano consecutivo em que o conteúdo de calor oceânico bateu recorde. Na prática, isso significa que, ano após ano, o mar continua acumulando mais energia do que antes, sem sinal de estabilização.
Para medir esse aquecimento, os cientistas usam mais de uma métrica. A mais conhecida é a temperatura média global da superfície do mar, que considera os primeiros metros do oceano. Em 2025, essa temperatura foi a terceira mais alta já registrada, cerca de 0,5°C acima da média de 1981 a 2010. Mas essa medida não mostra tudo, porque parte do calor não fica na superfície.
Por isso, o estudo se baseia principalmente no conteúdo de calor oceânico, que estima a energia total armazenada no oceano, especialmente em profundidade. Os autores analisaram dados dos 2.000 metros superiores, onde a maior parte do calor extra é absorvida.
Eles usaram informações reunidas por grandes bases de monitoramento, incluindo os Centros Nacionais de Informação Ambiental da NOAA (EUA), o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (União Europeia) e a Academia Chinesa de Ciências.
O salto de 2024 para 2025 foi grande. Em 2024, o oceano havia absorvido 16 zettajoules extras. Em 2025, foram 23. E isso aconteceu mesmo com um detalhe importante: em geral, a temperatura da superfície do mar em 2025 foi um pouco menor do que em 2024, considerado o ano mais quente desde o início dos registros modernos.
Essa diferença ajuda a entender por que olhar apenas para a superfície pode enganar. O oceano não aquece como uma piscina rasa. Uma parte do calor entra e fica perto da superfície, mas outra parte desce lentamente para camadas mais profundas, levada por correntes e pela circulação oceânica. Por isso, a superfície pode variar de um ano para outro, enquanto o total de calor armazenado continua subindo.
Além disso, fenômenos naturais como El Niño e La Niña influenciam esse comportamento. O El Niño tende a aquecer a superfície em algumas regiões e pode aumentar as temperaturas globais. Já a La Niña pode ter o efeito contrário. O ano de 2024 veio depois de um El Niño forte, enquanto 2025 teve um La Niña fraco. Isso ajuda a explicar por que a superfície pode ter esfriado um pouco, mesmo com o oceano acumulando mais energia no total.
O estudo também aponta as áreas com maior aquecimento. São elas o Atlântico Tropical e Sul, o Mar Mediterrâneo, o norte do Oceano Índico e o Oceano Antártico. Essas regiões têm impacto direto no clima global, porque influenciam padrões de chuva, circulação atmosférica e o comportamento de tempestades.
Esse aquecimento tem efeitos claros no dia a dia, mesmo para quem vive longe do mar. Oceanos mais quentes podem aumentar a frequência e a intensidade de ondas de calor marinhas, mudar padrões de circulação do ar e influenciar os regimes de chuva no mundo.
Além disso, água mais quente tende a favorecer tempestades tropicais mais fortes, porque furacões e ciclones se alimentam da energia disponível no oceano.
Os autores afirmam que os resultados são “evidências diretas de que o sistema climático está fora do equilíbrio térmico e acumulando calor”. Eles também destacam que “o aquecimento dos oceanos continua a exercer impactos profundos no sistema terrestre”.
O estudo serve como alerta, já que o calor acumulado no oceano não desaparece rápido. Ele se mistura e circula lentamente, o que significa que parte das consequências do aquecimento já está “contratada” para o futuro.
Fonte: abril






