Saúde

Estudo de 20 anos revela o impacto de repetidas clonagens em clones

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2026

Após duas décadas de experimentos contínuos, uma equipe japonesa identificou um limite prático para a clonagem em mamíferos. 

Ao tentar reproduzir, geração após geração, um único camundongo por clonagem, os pesquisadores observaram que o processo acumula erros genéticos até se tornar inviável. O trabalho foi publicado na revista Nature Communications.

Entre 2005 e 2025, os cientistas produziram 1.206 camundongos clonados a partir de uma única fêmea doadora. A técnica usada foi a transferência nuclear: o núcleo de uma célula comum do animal – que contém o DNA – é inserido em um óvulo cujo núcleo foi removido. Esse método é o mesmo que permitiu, nos anos 1990, a criação da ovelha Dolly.

A cada três ou quatro meses, um novo clone era gerado a partir do anterior, formando uma linhagem contínua. Nas primeiras gerações, não havia sinais de problema. 

Até a 25ª geração, os animais eram saudáveis, tinham aparência normal e fertilidade comparável à de camundongos comuns, com ninhadas de cerca de dez filhotes. A hipótese inicial dos pesquisadores era de que esse processo poderia continuar indefinidamente. 

Os problemas começaram a surgir a partir da 27ª geração. A eficiência da clonagem caiu, e alterações no DNA passaram a se acumular. Na 57ª geração, apenas 2,2% dos embriões transferidos resultaram em filhotes vivos. Na 58ª, os poucos que nasceram morreram alguns dias depois. 

Para entender o que estava acontecendo, os pesquisadores sequenciaram o genoma – isto é, fizeram uma leitura completa do DNA – de clones de diferentes gerações. Eles descobriram que o problema não estava em como os genes eram ativados ou desativados, mas na própria estrutura do material genético.

A cada nova geração, o genoma acumulava em média 70 pequenas mutações pontuais, e aproximadamente 1,5 alterações estruturais maiores. Com o tempo, essas mudanças se tornaram mais graves: perda de cromossomos inteiros, reorganização incorreta de grandes trechos de DNA e genes essenciais completamente inativados. 

Na 57ª geração, os animais carregavam cerca de 30 genes com perda total de função e outros 50 com mutações que alteravam as proteínas produzidas. Mesmo assim, os clones que conseguiam nascer continuavam, em muitos casos, com aparência normal e expectativa de vida semelhante à de camundongos comuns. Confira um dos bichinhos da 56ª geração:

Isso ocorre, segundo os pesquisadores, por uma espécie de “seleção natural” ainda no útero. Embriões com combinações mais graves de mutações não sobrevivem à gestação. Apenas aqueles com danos menos críticos chegam ao nascimento.

O que deu errado?

A lógica por trás do problema está na própria natureza da clonagem. Diferentemente da reprodução sexual (em que o DNA de dois indivíduos se misturam), a clonagem copia o genoma de um único organismo. Isso significa que qualquer mutação – mesmo pequena – é transmitida integralmente para a geração seguinte, junto com novas alterações que surgem ao longo do processo.

Esse efeito já havia sido previsto teoricamente nos anos 1960, em um conceito conhecido como “catraca de Muller”. A ideia é que, em populações que se reproduzem sem sexo, mutações prejudiciais se acumulam de forma irreversível ao longo do tempo, até comprometer a sobrevivência da linhagem. O novo estudo é a primeira demonstração direta desse fenômeno em mamíferos.

Os pesquisadores também testaram o que acontece quando esses clones voltam a se reproduzir de forma sexual. Ao cruzar fêmeas clonadas de gerações avançadas com machos normais, observa-se uma queda na fertilidade: ninhadas que antes tinham cerca de dez filhotes passaram para médias de 2 a 3 nas gerações mais tardias.

Mas o efeito não foi permanente. Quando os descendentes desses cruzamentos voltaram a se reproduzir normalmente, o tamanho das ninhadas aumentou novamente, e características alteradas – como o tamanho anormal da placenta, comum em clones – retornaram ao padrão típico. Isso indica que a reprodução sexual ajuda a “diluir” mutações prejudiciais ao embaralhar o DNA de dois indivíduos.

O trabalho também corrige uma ideia comum sobre clonagem. Embora os clones sejam, em princípio, cópias genéticas do animal original, eles não permanecem idênticos ao longo do tempo. “Este estudo deixou claro que as mutações ocorrem a uma taxa três vezes maior do que na prole nascida por meio de acasalamento natural”, afirmou o biólogo Teruhiko Wakayama, da Universidade de Yamanashi, à Reuters.

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Fim da clonagem?

As conclusões têm implicações diretas para a ciência e áreas como a agropecuária. A clonagem continua sendo uma ferramenta útil para preservar características desejáveis em animais, como maior produtividade ou resistência a doenças. Mas o estudo mostra que repetir esse processo por muitas gerações degrada progressivamente o material genético.

Uma alternativa, segundo os autores, é armazenar células do animal original (geralmente congeladas em bancos genéticos) e usá-las diretamente para novas clonagens, em vez de clonar sucessivamente os clones anteriores. Isso evitaria o acúmulo contínuo de mutações.

Esse tipo de estratégia já é usado em alguns programas de pesquisa e conservação, e o estudo reforça que pode ser essencial para manter a qualidade genética dos animais clonados ao longo do tempo.

Por ora, “não temos ideias para superar essa limitação”, disse Wakayama. “Acreditávamos que poderíamos criar um número infinito de clones. É por isso que esses resultados são tão decepcionantes. Precisamos desenvolver um novo método que melhore fundamentalmente a tecnologia de transferência nuclear.”

 

Fonte: abril

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