Dicas para “entrar no shape”, tutoriais para treinar melhor, receitas sem ingredientes tidos como vilões das dietas e com muita proteína, ou simplesmente vlogs de motivação que mostram pessoas praticando três tipos de exercícios antes das 8 horas da manhã. Se você já usou uma rede social nos últimos anos, deve saber do que estamos falando.
Os feeds estão lotados de vídeos e posts assim. As hashtags “#fitspiration” e sua abreviação, #fitspo, reúnem 100 milhões de posts no Instagram, por exemplo. Muitos se propõem a ser educativos ou motivacionais, para incentivar um estilo de vida mais saudável.
Entretanto, experimentos indicam que, para muitas pessoas, assistir a esse tipo de conteúdo faz mais mal do que bem. O resultado, publicado na revista Health Communication, vem de uma revisão de 26 estudos experimentais que envolveram mais de 6 mil pessoas em sete países.
Entre as pessoas expostas a esse tipo de conteúdo, o nível de comparação social subiu e a percepção da própria imagem corporal desceu. As emoções negativas também aumentaram. Mas nem tudo é ruim: a motivação para dietas e práticas esportivas também subiu, mas, muitas vezes, de forma irrealista.
O estudo foi coordenado por Valerie Gruest, uma nadadora guatemalteca que competiu nos Jogos Olímpicos de Verão de 2016. Atualmente, ela é doutoranda no programa de Mídia, Tecnologia e Sociedade da Universidade Northwestern, nos EUA, e pesquisa como as novas mídias moldam atitudes e comportamentos. O artigo foi elaborado em parceria com Nathan Walter, que é professor associado da Escola de Comunicação da universidade.
Muitos estudos já apontam efeitos nocivos das redes sociais para a saúde mental de certos grupos, como crianças e mulheres jovens. Entretanto, nesse caso, esses padrões foram consistentes em todos os gêneros, idades e índices de massa corporal, sugerindo que os efeitos podem se estender além dos grupos mais comumente estudados.
“Embora eu esperasse alguns efeitos negativos, fiquei impressionada com o quão fortes e consistentes eles foram”, afirma Gruest, em comunicado. “Os resultados mostram um padrão bastante preocupante, já que esse tipo de exposição pode prejudicar tanto o bem-estar psicológico quanto os comportamentos de saúde, o que torna ainda mais importante que continuemos examinando seu impacto.”
Creatina não é indicada para todos; entenda
A carreira de Gruest como atleta profissional impactou diretamente a escolha do tema para a pesquisa. “Fico fascinada pelo conteúdo de fitspiration desde minha época como atleta, quando ele era frequentemente apresentado em ambientes de treinamento de elite como o ideal. Mas, mesmo naquela época, eu sabia que esses padrões corporais não refletiam a realidade do treinamento para o desempenho, especialmente quando se segue uma dieta equilibrada e sustentável, mesmo treinando várias horas por dia”, explica Gruest. “Essa curiosidade permaneceu comigo como pesquisadora. Quero entender melhor como esse tipo de conteúdo está realmente impactando as pessoas.”
“Ao contrário da mídia tradicional, a ‘fitspiration’ oferece um fluxo constante de imagens altamente selecionadas e idealizadas, o que significa que os jovens adultos provavelmente são expostos repetidamente a esse conteúdo em seu dia a dia”, aponta, no mesmo comunicado, Walter, coautor do estudo, que pesquisa narrativas estratégicas e desinformação.“À medida que sua popularidade cresce, compreender os efeitos dessa exposição contínua será fundamental para promover um envolvimento mais saudável no futuro.”
Os autores ressaltam, entretanto, que mesmo reunindo tantos estudos, é preciso considerar que há limitações nos dados. Os participantes eram em grande parte de países desenvolvidos e predominantemente mulheres, e os relatos sobre fatores como etnia e composição corporal eram inconsistentes, dificultando a compreensão de como esses efeitos podem variar em outros grupos populacionais.
Fonte: abril





