Restam menos de 140 falsas-orcas (Pseudorca crassidens) vivendo ao redor das principais ilhas do Havaí. Essa pequena população, que vem diminuindo cerca de 3,5% ao ano, agora preocupa cientistas por um novo motivo: alguns indivíduos estão perdendo grandes quantidades de peso em pouco tempo.
Um estudo publicado na revista Endangered Species Research acompanhou o grupo durante sete anos. Em um dos casos mais extremos, uma falsa-orca perdeu cerca de 28% da massa corporal em apenas dez semanas – o equivalente a aproximadamente 227 quilos.
Os pesquisadores acreditam que isso pode estar relacionado a mudanças ambientais, como o aquecimento dos oceanos. Temperaturas mais altas podem afetar a distribuição das presas e tornar a busca por alimento mais difícil, obrigando as falsas-orcas a gastar mais energia para sobreviver.
Em 2020, ano em que estes animais apresentaram a pior condição corporal registrada no estudo, a região também enfrentou uma forte onda de calor marinha e temperaturas recordes na superfície do oceano.
“Este estudo é um passo crucial para entendermos se a limitação de presas está impulsionando o risco de extinção desses animais”, afirmou Jens Currie, cientista-chefe da Pacific Whale Foundation e autor principal do estudo, em comunicado. “Nossos resultados sugerem que muitos indivíduos estão vivendo em uma margem metabólica muito estreita.”
Monitoramento
Assim como o nome indica, falsas-orcas não são orcas. Elas pertencem à família dos golfinhos e se chamam assim porque possuem algumas características semelhantes, como o formato do crânio e o comportamento de caça.
Esses animais são predadores de topo, ou seja, ficam entre os níveis mais altos da cadeia alimentar. No Havaí, eles caçam grandes peixes, como atum-albacora, mahi-mahi (também conhecido como dourado) e ono. O problema é que essas presas também são valorizadas para consumo humano e estão entre os alvos da pesca comercial.
Para acompanhar a saúde dos animais, os pesquisadores usaram drones equipados com câmeras de alta resolução entre 2019 e 2025. Ao todo, eles fizeram 142 medições de 68 falsas-orcas, o equivalente a cerca de metade da população restante.
A técnica usada é chamada de fotogrametria. Os cientistas fotografam os animais de cima e usam essas imagens para calcular medidas como comprimento, largura e volume corporal. É uma espécie de “balança aérea”, que permite estimar mudanças físicas sem capturar ou incomodá-los.
Para garantir que as medições eram confiáveis, a equipe comparou os resultados dos drones com escaneamentos em 3D feitos em falsas-orcas que vivem sob cuidados humanos na Fundação Okinawa Churashima, no Japão. A comparação mostrou que as estimativas tinham uma margem de erro de cerca de 3%.
“Esse nível de precisão nos permite identificar exatamente quando e onde esses animais estão em dificuldades, o que é fundamental para direcionar os esforços de conservação”, afirmou Lars Bejder, diretor do Programa de Pesquisa de Mamíferos Marinhos da Universidade do Havaí em Mānoa e coautor do estudo, em nota.
A análise revelou que nem todas as falsas-orcas estão enfrentando os mesmos desafios. A população estudada é dividida em grupos sociais que usam diferentes áreas do arquipélago. Os animais do chamado “Grupo 1”, conhecidos por percorrer distâncias maiores entre as ilhas, foram os que apresentaram maiores variações na condição física.
Como mencionado, a principal possibilidade é que esses deslocamentos maiores estejam cobrando um preço energético alto. Se as presas ficam mais difíceis de encontrar, esses animais precisam nadar mais em busca de comida e acabam gastando ainda mais energia.
Isso pode ser um problema porque mamíferos marinhos dependem de boas reservas corporais para manter funções essenciais. A gordura funciona como estoque de energia, ajuda no isolamento térmico e influencia processos como reprodução e resposta imunológica. Quando o alimento fica escasso, o corpo passa a consumir essas reservas.
Vale ressaltar que a ameaça às falsas-orcas havaianas não é recente. A população é considerada geneticamente e socialmente distinta de outras falsas-orcas do Pacífico, o que significa que a perda desses animais não poderia ser facilmente compensada pela chegada de indivíduos de outros grupos.
Além das mudanças climáticas e da possível redução de presas, elas enfrentam outros problemas, como poluição e interações com equipamentos de pesca.
Para os pesquisadores, acompanhar o peso e a condição física desses animais pode ajudar a prever quando a população está entrando em risco e orientar medidas de proteção, como estratégias de manejo das pescarias.
A importância desses indivíduos também ultrapassa a conservação ambiental. Elas fazem parte da cultura havaiana e da relação histórica das comunidades locais com o oceano.
“A cultura havaiana vem perdendo muitos kūpuna, anciãos que detêm o conhecimento ancestral das práticas culturais”, afirmou Kaʻapuni, conselheiro cultural da Pacific Whale Foundation, em comunicado.
“A perda da nossa população nativa de falsas-orcas elimina ainda mais conhecimento das nossas ilhas e da nossa história. Não podemos nos dar ao luxo de perder mais nenhuma parte do Havaí.”
Fonte: abril





