Um estudo divulgado nesta terça-feira (26) identificou 13 perfis de jovens brasileiros mais expostos a desigualdades sociais e dificuldades de acesso a direitos básicos. A pesquisa Juventudes Brasileiras Minorizadas reúne análises sobre obstáculos enfrentados por diferentes grupos, como evasão escolar, trabalho informal, violência urbana e cyberbullying.
O levantamento foi elaborado por especialistas de diferentes áreas e inclui relatos de jovens que convivem com situações de vulnerabilidade. A publicação contou com participação da Fundação Roberto Marinho, Fundação Itaú, Iede e Unicef.
O estudo destaca que desigualdades estruturais ligadas à raça, renda, gênero e território continuam limitando oportunidades para milhões de jovens brasileiros.
Entre os grupos analisados estão jovens negros, indígenas, quilombolas, moradores de áreas rurais, LGBTQIAPN+, mães jovens, pessoas com deficiência, adolescentes submetidos ao trabalho infantil e refugiados.
Educação e pobreza
Dados da PNAD Contínua 2025 utilizados na pesquisa mostram que o Brasil possui mais de 46,5 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Desse total, 7,9 milhões estão fora da escola sem concluir a educação básica, o equivalente a 17% da população jovem. Segundo o levantamento, sete em cada dez desses jovens são negros.
A pesquisa também aponta que 11,9 milhões de jovens vivem em situação de pobreza. Entre os que estão em extrema pobreza, 74,9% são negros. Mulheres negras representam 40% da juventude pobre do país.
Os pesquisadores afirmam que fatores como dificuldade de acesso à internet, necessidade de trabalhar cedo, longos deslocamentos e inserção precoce em empregos precários ampliam desigualdades históricas.
A superintendente de conhecimento da Fundação Roberto Marinho, Rosalina Soares, afirmou que o estudo busca contribuir para a construção de políticas públicas mais alinhadas à realidade dos jovens brasileiros.
“Por trás dos indicadores existem trajetórias reais, sonhos interrompidos e desafios cotidianos muitas vezes atravessados por desigualdades persistentes”, destacou.
Desafios no meio rural
O levantamento mostra que jovens de territórios vulnerabilizados enfrentam dificuldades ainda maiores. Nas áreas rurais, 33% dos jovens estão fora da escola sem concluir a educação básica, índice duas vezes maior do que o registrado nas cidades.
A informalidade atinge 69% dos jovens rurais, enquanto nas áreas urbanas o percentual é de 41%.
Entre indígenas, a taxa de analfabetismo é três vezes superior à registrada entre não indígenas. Apenas 42% dos indígenas de 18 a 29 anos concluíram o ensino médio.
Entre estudantes quilombolas, o estudo aponta crescimento das matrículas em escolas específicas, mas cerca de 30% ainda apresentam atraso escolar.
Violência e discriminação
A publicação também chama atenção para os impactos da violência e da discriminação nas trajetórias educacionais e profissionais.
Segundo o levantamento, jovens negros são vítimas de violência urbana em proporção quatro vezes maior do que jovens brancos. Entre jovens LGBTQIAPN+, agressões verbais, violência física e casos de cyberbullying comprometem a permanência escolar.
A chefe de Educação do Unicef no Brasil, Mônica Dias Pinto, afirmou que as desigualdades exigem políticas públicas articuladas para garantir inclusão e permanência escolar.
“Quando olhamos para as juventudes no Brasil, fatores interseccionais como cor, raça e renda ajudam a explicar por que as oportunidades não chegam do mesmo jeito para todas e todos”, afirmou.
O estudo também destaca os desafios enfrentados por jovens mães. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostram que 60,8% das jovens entre 15 e 19 anos com filhos estão fora da escola sem concluir os estudos.
A cantora e estudante de produção cultural Natália Araújo participou da construção do levantamento e relatou dificuldades enfrentadas desde a adolescência.
“Eu engravidei com 17 anos e tive meu filho aos 18. Trabalhei em três lugares durante a gravidez. Muitas vezes a gente naturaliza o trabalho infantil e a necessidade de trabalhar cedo, mas isso não deveria ser normal”, relatou.
Natália também defendeu a participação de jovens vulneráveis na elaboração de políticas públicas e pesquisas voltadas ao tema.
Trabalho infantil
A pesquisa aponta ainda que adolescentes submetidos ao trabalho infantil enfrentam maior exclusão escolar e dificuldades de aprendizagem.
Segundo dados da PNAD Contínua, cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam em situação de trabalho infantil no Brasil em 2024.
Para o diretor-fundador do Iede, Ernesto Martins Faria, o estudo amplia a visibilidade de grupos que frequentemente ficam fora das estatísticas tradicionais.
“O Brasil tem desigualdades profundas, que criam obstáculos para diferentes grupos ao longo de suas trajetórias educacionais e de inserção no mercado de trabalho”, afirmou.
Os organizadores defendem que o levantamento pode auxiliar na criação de políticas públicas voltadas à permanência escolar, proteção social, combate às desigualdades e ampliação do acesso ao trabalho digno.
Fonte: cenariomt




