Poucas coisas são mais latinas que o realismo mágico. A fantasia e o absurdo revelam as belezas do continente, mas também as mazelas mais duras que vivemos entre os trópicos. É justamente nessa dualidade que o diretor se debruça sobre em , que faz parte da Première Latina do e representará o Chile na corrida pelo em 2026.
O filme desembarca no Rio de Janeiro apĂłs vencer o prĂŞmio da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, que aconteceu em abril. Essa conquista chama a atenção, claro, para quem monta sua agenda, mas o que observei na Ăşltima semana Ă© que o infalĂvel marketing do boca-a-boca está enchendo todas as sessões. No momento de redação desta matĂ©ria, menos de seis assentos para a Ăşltima sala disponĂvel nĂŁo haviam sido vendidos ainda.
Foi justamente em uma sessão esgotada no Estação NET Botafogo — tradicional cinema de rua da Zona Sul carioca — que pude participar da primeira exibição do longa no Brasil, contando com a presença de Céspedes e do ator . Antes do apagar das luzes, o cineasta de 30 anos declarou ser fã das novelas brasileiras, em especial, de , e chamou atenção para o conceito geral da trama: a busca universal por afeto.
O Olhar Misterioso do Flamingo foca em uma comunidade isolada para discutir temas universais
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La Misteriosa Mirada del Flamenco se passa durante os anos 1980 em um remoto povoado mineiro do norte chileno, mais especificamente, na cantina comandada por uma famĂlia de travestis. É aĂ que vive LĂdia (), uma menina de 12 anos que foi abandonada pela mĂŁe biolĂłgica e cresce cercada do amor das tias e de sua mĂŁe adotiva, Flamingo (MatĂas Catalán).
Da porteira para fora, o afeto se perde na aridez do deserto e a garota sofre com a desconfiança e com o medo dos vizinhos, que acusam as moradoras do casebre de disseminar uma peste que adoece e mata os homens que trocam olhares apaixonados com alguma das “chiquillas”.
Em entrevista exclusiva ao AdoroCinema, Diego Céspedes afirmou que escolheu ambientar a história em uma comunidade isolada teve o objetivo de dar a entender que ela poderia acontecer em qualquer lugar, até mesmo no rincão mais inóspito da América do Sul:
“Isso ajudou a transmitir com uma perspectiva mais universal, porque, no fim das contas, o filme nĂŁo Ă© baseado em uma cidade real ou em algo diretamente inspirado na realidade. Ele fala de conceitos humanos, conceitos de famĂlia de uma forma positiva. Portanto, a vila isolada Ă© apenas uma analogia para o que poderia acontecer em qualquer lugar. Basicamente, isolar esse povo significa criar suas prĂłprias regras, assim como qualquer paĂs as criaria em diferentes partes do mundo”, explica.
Menciono durante a conversa que essa estratĂ©gia Ă© usada frequentemente por . TambĂ©m chilena, a escritora de situa seus romances em um paĂs jamais nomeado na AmĂ©rica Latina, viabilizando a criação de um mundo totalmente novo que pode estar em qualquer ponto do continente.
AlĂ©m da geografia semi-fictĂcia, CĂ©spedes aproveita outro recurso que Allende emprega em seus livros: o uso da fábula como metáfora para ilustrar questões cruelmente reais. Nesse caso, a maldição que suga a vitalidade de Flamingo serve como uma alegoria para o vĂrus HIV, que vitimou milhares de pessoas, sobretudo, da comunidade LGBTQIAP+.
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No entanto, nada aqui Ă© explĂcito, tanto que o cineasta descreve que, em seu roteiro, “a pandemia da AIDS funciona mais como um contexto violento do que realmente falar sobre o que foi esse horror. E, no fim das contas, [O Olhar Misterioso do Flamingo] trata mais das consequĂŞncias do medo e do Ăłdio na sociedade do que da pandemia em si”.
Em La Misteriosa Mirada del Flamenco, toques e olhares traduzem a dicotomia entre o medo e o acolhimento
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Essa abordagem se encaixa bem atĂ© porque as notĂcias da capital dificilmente chegam aos trabalhadores das minas e a justificativa que faz mais sentido para eles está, justamente, no inexplicável, no mĂtico. E, como toda boa fábula, o olhar mágico de Flamingo Ă© desenhado de maneira lĂşdica. Por isso, traduzir essa ideia demandou uma construção imagĂ©tica e sensorial muito forte, tanto pela atmosfera criada pela arte, som e fotografia quanto pela corporeidade na performance dos atores:
“Eu queria que as pessoas pudessem ver a ternura, mas tambĂ©m o sofrimento, atravĂ©s das lentes de Flamingo. Porque nĂŁo há muito diálogo nas cenas da minha personagem. EntĂŁo, tive que narrar muito com os meus olhos, como sugere o tĂtulo do filme. Acho que o que fiz foi construir essa perspectiva com a doença como ponto de partida e fazendo uma intersecção com o amor”, detalhou MatĂas Catalán.
O diretor ainda afirmou que explorar as nuances dos sentidos foi crucial para o desenvolvimento da personagem de LĂdia, vivida pela hipnotizante Tamara Cortes. Segundo ele, “todo o aspecto sensorial do filme serve como uma forma de transmitir o eu interior de LĂdia”. Afinal, a trama se desenrola totalmente a partir do ponto de vista da menina enquanto ela desvenda que o mundo em que habita Ă© muito mais complexo do que vĂŞ: igualmente repleto de Ăłdio e acolhimento nos lugares onde menos se espera.
O acontece oficialmente até domingo, dia 12 de outubro, e também contará com sessões de repescagem (ou chorinho, em bom carioquês) selecionadas na próxima semana. Os ingressos estão à venda no site do evento e nas bilheterias dos cinemas parceiros.
Fonte: adorocinema




