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Enjoo na gravidez: mães compartilham experiências com condição rara e debilitante

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Enjoos e mal-estar no início da gravidez são sintomas comuns e, na maioria dos casos, fazem parte das transformações naturais da gestação. No entanto, nem sempre essas manifestações são consideradas normais. Em situações mais graves, podem indicar a hiperêmese gravídica, uma condição rara, mas potencialmente perigosa, que provoca vômitos intensos e persistentes, levando à desidratação, perda de peso e até necessidade de internação hospitalar.

A jornalista Renata Fontoura percebeu que estava grávida logo nos primeiros enjoos. Com o passar das semanas, no entanto, os sintomas se agravaram rapidamente.

“Eu percebi quando não conseguia comer nada, e se comia, vomitava tudo. Inclusive, água. Isso foi a partir da oitava semana”, relata.

A situação se agravou quando Renata perdeu cerca de quatro quilos e passou uma noite inteira passando mal.

“Uma noite, no dia 29 de janeiro, não dormi nada bem, passando mal, e acordei sem forças. Parecia que eu iria desmaiar. Corri pro hospital. Lá veio o diagnóstico”, conta.

Até então, Renata acreditava que vivia apenas os enjoos comuns do primeiro trimestre, reforçados por comentários de que os sintomas poderiam ser emocionais. Com o diagnóstico, ela passou a compreender melhor o que estava enfrentando.

“Sempre escutava que era normal os enjoos do primeiro trimestre, mas era tudo muito forte. Ouvia de algumas pessoas que poderia ser psicológico, mas não era. Não conseguir comer? Beber água? Não ter forças para nada? Isso não é vida. Não consegui curtir a gestação em nenhum momento”, desabafa.

Renata Fontoura

“Eu fiquei bem abalada porque me cobrava muito. ‘Poxa, era para eu estar feliz!’ Mas com o diagnóstico tudo fez mais sentido e a culpa de não estar alegre o tempo todo foi diminuindo”.

O reconhecimento da condição trouxe alívio emocional e diminuiu a autocobrança. O apoio familiar, especialmente do marido, foi essencial para atravessar o período mais difícil.

“Eu não podia sentir cheiro de comida e ele sempre avisava quando ia pra cozinha. Eu já me fechada no quarto ou ficava fora de casa”, conta.

Além do suporte emocional, o acompanhamento nutricional foi decisivo para a melhora do quadro. Com ajustes na suplementação e na forma de ingestão das vitaminas, os vômitos cessaram. Renata recuperou peso e afirma que voltou a ter ânimo.

“Infelizmente não me adaptei às vitaminas comuns e ela então decidiu manipular tudo. A grande dica foi tomar durante o jantar, comendo, bebendo algo e tomando as cápsulas. Fingindo que não era remédio. Ganhei dois quilos e isso me deixou animada. E o bebê tá ótimo, saudável, isso que importa. O pior já passou e espero curtir com alegria essa gravidez do José Lucas”.

“Não é frescura”: quando os sintomas se tornam extremos

A psicóloga Laís Oliveira também enfrentou a hiperêmese gravídica nas duas gestações, em 2020 e 2024. Para ela, o alerta veio quando os vômitos se tornaram constantes.

“Na primeira vez que vomitei, pensei: estou grávida mesmo. Eu percebi que estava esquisito além do normal quando eu passei uns 5 dias vomitando pelo menos 10 vezes no dia”, relata.

A busca por ajuda médica aconteceu quando os sintomas chegaram a um nível extremo, com vômitos com sangue e fraqueza profunda. Apesar disso, o diagnóstico demorou a ser feito.

“Eu procurei ajuda médica quando eu comecei a vomitar sangue e me sentia muito, muito, muito fraca. Isso lá pela 12ª, 13ª semana, mas o diagnóstico eu recebi lá pela 15ª semana, quando um médico específico me alertou sobre a condição”, afirma.

Em ambas as gestações, Laís perdeu muito peso ainda no primeiro trimestre, 10 kg na primeira e 9 kg na segunda, o que agravou o cansaço físico e emocional. Ela descreve o período marcado por medo constante e sensação de esgotamento.

“Eu sentia uma sensação de quase morte. Eu me preocupava muito com o bebê, porque não conseguia comer e o que comia, eu colocava para fora. Me sentia extremamente fraca no terceiro mês de gestação, que passei praticamente inteiro deitada, então foi péssimo”

Lais Oliveira

A hiperêmese também impactou profundamente a saúde mental. Laís relata que não tinha energia para atividades básicas e que a autoestima ficou abalada.

“Eu não tenho energia nem para banho. É muito ruim mesmo, muito ruim, nem para cuidados básicos, para viver o dia a dia tinha energia. Me afetou em tudo.”

Além do sofrimento físico, ela enfrentou o descrédito de profissionais de saúde, que minimizaram os sintomas ao considerá-los “normais da gravidez”.

“Ouvi muitas vezes que era normal, que toda gravida passa por isso. Mas não é normal vomitar 17 vezes ao dia até vomitar sangue. Em um atendimento, me deram classificação de não urgência. Em outro hospital, quando finalmente fui diagnosticada, fui tratada como emergência.”

Lais Oliveira

A primeira gestação de Laís ainda foi marcada pelo isolamento social causado pela Covid-19 que a impediu de compartilhar sua experiência. 

“Eu não podia nem conversar com outras grávidas. Vivi isso de forma muito solitária, o que contribuiu para um baby blues depois do parto.”

O que é hiperêmese gravídica e quando buscar ajuda

Segundo o ginecologista e obstetra Junior Zagonel, a náusea e o vômito fazem parte do início da gestação, mas a hiperêmese representa um agravamento importante desse quadro.

“A hiperêmese é quando a paciente perde mais de 5% do peso corporal, apresenta alterações laboratoriais e não consegue se alimentar ou se hidratar adequadamente”, explica.

O médico destaca que a condição atinge cerca de 1% das gestantes, segundo o Ministério da Saúde, e tem causas multifatoriais.

“Há uma forte relação com os hormônios da gestação, especialmente a gonadotrofina coriônica. É mais comum em primeiras gestações, em gestações múltiplas e em mulheres com fatores emocionais associados.”

Nos quadros leves, mudanças de hábitos e medicações costumam ser suficientes. Já nos casos mais graves, a internação se torna necessária.

“Quando a gestante não consegue tomar medicação, não se hidrata e continua perdendo peso, ela precisa ser internada para receber hidratação e medicamentos intravenosos. Em situações raras, pode ser necessária nutrição parenteral.”

O principal alerta, segundo o especialista, é observar sinais de gravidade.

“Fraqueza intensa, tontura, vertigem, desmaios, perda de peso e incapacidade de se alimentar não são normais. Nesses casos, é fundamental procurar atendimento médico.”

Junior Zagonel

Informação, acolhimento e rede de apoio

Embora não exista uma forma direta de prevenir a hiperêmese gravídica, o acompanhamento adequado e o suporte emocional fazem diferença na evolução do quadro.

“Engravidar em um momento planejado, com acompanhamento e informação, ajuda a reduzir os impactos. Além disso, há fatores hereditários envolvidos”, explica Zagonel.

Para Renata e Laís, tornar o tema visível é uma forma de acolher outras mulheres que enfrentam o mesmo sofrimento. Ambas reforçam que a gestação, muitas vezes idealizada, pode ser extremamente dura para quem convive com a hiperêmese.

“A gestação é um momento que idealizam muito para a mulher, como maravilhoso. As minhas duas foram péssimas, eu não gosto de gestar, também por conta da hiperêmese, mas principalmente por esperar demais, esperar demais de uma pessoa que está gerando o outro ser. É muita expectativa pra quem tem pouca energia”

“Passando por tudo isso eu digo com toda a verdade: ser mãe não é nada fácil e temos que enaltecer quem enfrenta tudo isso e muito mais”, complementa Renata.

Fonte: primeirapagina

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