Enxergar vai muito além da saúde ocular. A visão está diretamente ligada à autonomia, à capacidade de trabalhar, estudar, dirigir e realizar atividades simples do dia a dia. Quando doenças ou traumas comprometem a córnea, a parte transparente da frente do olho, o transplante pode ser a única alternativa para recuperar a visão. Nesse processo, o banco de olhos tem um papel central.
Em Mato Grosso, o Banco de Olhos do Hospital de Olhos de Cuiabá (HOC) atua como uma estrutura essencial para viabilizar transplantes de córnea. O serviço integra a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) e participa de todas as etapas do processo: desde a captação do tecido até a preparação da córnea para o transplante.
Mais do que um serviço técnico, o banco de olhos é uma peça fundamental na política pública de saúde ocular, responsável por transformar a solidariedade da doação em qualidade de vida para pacientes que aguardam na fila.
O transplante é indicado quando a córnea perde a transparência ou sua forma normal, comprometendo a visão de forma significativa. Entre os principais sinais de alerta estão visão muito embaçada, distorcida ou a presença de cicatrizes que não melhoram com óculos ou lentes de contato.
Entre as doenças que mais levam ao procedimento está o Ceratocone, uma deformação progressiva da córnea que altera sua curvatura e prejudica a qualidade da visão. Outras causas frequentes incluem cicatrizes provocadas por infecções oculares, traumas e doenças que afetam as camadas internas da córnea, como a Distrofia de Fuchs.
Quando tratamentos clínicos ou ópticos já não conseguem recuperar a visão, o transplante passa a ser a melhor alternativa para devolver qualidade visual ao paciente.
Todo transplante depende da autorização da família para a doação, quando isso acontece, equipes especializadas realizam a captação da córnea de forma rápida e segura.
O tecido é então encaminhado ao banco de olhos, onde passa por uma série de exames para verificar qualidade, segurança e viabilidade para transplante. Somente depois dessa avaliação a córnea é liberada para uso.
No banco de olhos, a córnea fica armazenada em meios especiais de preservação até ser destinado a um paciente da fila de transplante. Um único doador pode beneficiar duas pessoas, já que cada córnea pode ser transplantada separadamente.
No Brasil, a organização da fila é feita por meio das Centrais Estaduais de Transplantes, que fazem parte do sistema público de saúde.
Os pacientes são incluídos após avaliação e indicação médica. A distribuição das córneas segue critérios técnicos, como tempo de espera, urgência e necessidade clínica, garantindo um processo transparente e regulado.
Em Mato Grosso, entre 1998 a 2026 já foram realizados 3.930 transplantes de córnea. Somente em 2025, o estado realizou 362 procedimentos.
Segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a córnea está entre os tecidos mais transplantados no mundo, mas a demanda ainda é maior que a oferta em muitas regiões.
Apesar de ser um procedimento com altas taxas de sucesso, o principal desafio ainda é ampliar o número de doações. Somente em Mato Grosso, 59 pessoas aguardam pelo transplante.
Muitas pessoas poderiam ser doadoras, mas a autorização da família ainda é um fator decisivo. A falta de informação sobre a importância da doação também contribui para que muitas oportunidades de transplante sejam perdidas.
Outro desafio é ampliar a estrutura de serviços especializados e equipes capacitadas, já que o transplante exige infraestrutura hospitalar e profissionais treinados.
O transplante de córnea costuma durar entre 25 minutos e uma hora, dependendo da técnica utilizada. Na maioria dos casos, o paciente recebe alta no mesmo dia.
Após a cirurgia, o acompanhamento médico é fundamental. O tratamento inclui o uso de colírios antibióticos e corticoides e consultas regulares com o oftalmologista. Também é recomendado um período de repouso de cerca de três meses para garantir uma boa recuperação e evitar rejeição do tecido transplantado.
A visão de volta e uma nova rotina
Quando o transplante é bem-sucedido, os impactos na vida do paciente podem ser profundos. Pessoas que antes tinham dificuldade para trabalhar, dirigir ou até realizar tarefas simples passam a recuperar independência e segurança.
Em muitos casos, a visão melhora significativamente, embora alguns pacientes ainda possam precisar de óculos ou lentes de contato para alcançar o melhor resultado visual.
Mais do que uma cirurgia, o transplante de córnea representa uma nova oportunidade de autonomia.
Nesse cenário, o banco de olhos cumpre um papel essencial: transformar um gesto de solidariedade em uma nova chance de enxergar e viver com mais qualidade.
Fonte: primeirapagina






