Saúde

DNA de Amostras de Rinoceronte-Lanoso Encontradas no Estômago de Lobos São Sequenciadas

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  • O permafrost, um tipo de solo congelado permanentemente, esconde muitos tesouros do passado. Seu derretimento pode revelar fósseis, bactérias e até múmias de milhares de anos incrivelmente preservadas pelo gelo. Por isso, na Sibéria, surgiu a profissão dos caçadores de marfim, que usam jatos d’água para derreter o solo em busca de presas de mamutes – cujo material, o marfim, é conhecido como “ouro branco da tundra”.

    Em 2011, durante uma dessas buscas, caçadores de marfim na vila de Tumat, no norte da Sibéria, fizeram uma descoberta bem mais instigante. Eles desenterraram um filhote de lobo quase perfeitamente preservado, com pele e pêlos íntegros. Ele foi chamado e Tumat-1, e quatro anos depois, em uma escavação nos arredores, pesquisadores encontraram outro filhote bem parecido, batizado de Tumat-2.

    A datação aponta que os bichos viveram há entre 14.965 e 14.046 anos. A análise de corpos permite desenhar o cenário que levou à morte prematura dos filhotes: ambos comeram uma última refeição composta de pássaros, tufos de capim e rinoceronte-lanoso. Um deslizamento de terra provocou a morte dos filhotes antes mesmo que a digestão se completasse. E, soterrados, seus corpos foram preservados pelo gelo do permafrost por milênios.

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    O tecido de rinoceronte-lanoso achado no estômago estava íntegro, com pêlos e tudo. Ele é amostra valiosa de um animal que foi extinto pouco depois do episódio, há cerca de 14 mil anos. Em um novo estudo, publicado em 14 de janeiro na revista Genome Biology and Evolution, cientistas reconstruíram o genoma – ou seja, o conjunto completo de instruções genéticas – desses animais.

    Fotografia do pedaço de tecido de rinoceronte lanoso encontrado no estômago do filhote Tumat-1.
    O pedaço de tecido de rinoceronte-lanoso encontrado no estômago do filhote Tumat-1. (Love Dalén/Universidade de Estocolmo/Divulgação)

    “Nunca antes se havia sequenciado o genoma completo de um animal da Era Glacial encontrado no estômago de outro animal”, disse o co-autor do estudo, Camilo Chacón-Duque, em comunicado.

    O genoma permite entender detalhes desses animais, entender como eles evoluíram e como as suas populações se modificaram. A equipe levou meses coletando amostras de diferentes partes do fragmento, tomando cuidado para evitar a contaminação genética do estômago do lobo.

    A ideia, então, era analisar o DNA encontrado em busca de alguma pista sobre a extinção dos rinocerontes-lanosos. Se eles estavam a beira da extinção, é possível que houvesse um declínio gradual no tamanho da população, e um nível maior de consanguinidade, devido à baixa diversidade de parceiros.

    Eles compararam esse genoma – que é o mais recente já encontrado – com dois genomas de rinocerontes-lanudos sequenciados anteriormente, um com cerca de 18 mil anos e outro com cerca de 49 mil anos. 

    Na amostra recente, pesquisadores não encontraram sinais de consanguinidade ou declínio genético em comparação com os espécimes mais antigos. Isso sugere que a espécie era saudável pouco antes de desaparecer.

    Ilustração da paisagem da megafauna nas estepes da Eurásia
    (Mauricio Anton/PLOS Biology/Reprodução)

    Essa descoberta, argumentam os pesquisadores, reforça ainda mais a ideia de que um fator externo repentino, como uma mudança no clima, causou a extinção da espécie. Pode ter sido, por exemplo, o período de aquecimento conhecido como interstadial Bølling-Allerød, que ocorreu no hemisfério Norte por volta do período da extinção desses animais. 

    Essa mudança climática pode não ter matado os rinocerontes diretamente, mas causou mudanças em seu ambiente e na oferta de alimentos que tornaram impossível sua sobrevivência. O clima mais quente também pode ter favorecido os humanos na região, e a caça ou a perda de habitat também podem ter sido fatores.

    É possível ainda que a súbita extinção se deva a algum evento catastrófico, como um desastre natural ou um vírus, que é como os últimos mamutes-lanosos podem ter morrido.

    A descoberta pode servir de alerta para cientistas e conservacionistas atuais: mesmo espécies que parecem estar estáveis e geneticamente saudáveis podem estar a algumas gerações da extinção.

    Fonte: abril

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