Ao longo da histĂłria, regimes autoritários se consolidaram em paĂses como RĂşssia, IrĂŁ, Coreia do Norte e China por meio de rupturas institucionais abruptas – revoluções, golpes militares ou guerras civis. Esses processos, embora traumáticos, marcaram transições claras entre modelos polĂticos. O caso brasileiro, no entanto, parece destoar: o Brasil caminha para um modelo de controle autoritário nĂŁo por imposição, guerra civil ou por uma ruptura violenta, mas por decisĂŁo institucional, silenciosa e progressiva. Trata-se de uma ditadura por escolha – e isso Ă© o que torna o cenário ainda mais preocupante.
A centralização de poder no Judiciário, o uso polĂtico de decisões judiciais, o enfraquecimento do contraditĂłrio e o alinhamento diplomático com regimes autoritários revelam um projeto polĂtico que desafia os fundamentos democráticos. NĂŁo há tanques nas ruas, mas há silenciamento. NĂŁo há censura oficial, mas há perseguição seletiva. O Brasil nĂŁo está sendo empurrado para o autoritarismo – está indo por vontade prĂłpria.
A liberdade de pensamento e expressĂŁo Ă© amplamente reconhecida como motor do desenvolvimento. O economista indiano Amartya Sen, em sua obra Desenvolvimento como Liberdade, afirma que “nenhuma sociedade pode alcançar progresso sustentável sem liberdade de pensamento e expressĂŁo”. Segundo ele, Ă© nesse ambiente de pluralidade que surgem soluções inovadoras, avanços cientĂficos e transformações sociais.
Essa ideia Ă© reforçada por pensadores clássicos. John Stuart Mill, em On Liberty (1859), defende que a liberdade de pensamento Ă© essencial para que ideias verdadeiras ou melhores nĂŁo sejam sufocadas. Friedrich Hayek, em O Caminho da ServidĂŁo (1944), argumenta que sociedades que preservam a liberdade individual – inclusive a de empreender – sĂŁo mais propensas Ă prosperidade. Douglass North, em Institutions, Institutional Change and Economic Performance (1990), mostra que instituições que protegem a liberdade intelectual e cientĂfica criam condições para o desenvolvimento sustentável. A liberdade, portanto, nĂŁo Ă© apenas um valor moral – Ă© uma condição prática para o progresso. Sem ela, o pensamento se retrai, a ciĂŞncia se estagna e a sociedade perde sua capacidade de se reinventar.
O paĂs caminha para um modelo de controle autoritário nĂŁo por imposição, guerra civil ou por uma ruptura violenta, mas por decisĂŁo institucional, silenciosa e progressiva
Os Estados Unidos sĂŁo frequentemente citados como exemplo de paĂs que, ao preservar o livre intercâmbio de ideias, tornou-se referĂŞncia global em empreendedorismo, tecnologia, medicina e inovação. É lá que surgem as vacinas, os softwares, as startups que mudam o mundo. Porque, como disse Sen, onde há liberdade, há inovação.
Já a China, embora tenha alcançado crescimento econĂ´mico expressivo, opera sob um modelo de censura e controle ideolĂłgico. Sem liberdade intelectual plena, a inovação tende a ser substituĂda pela reprodução de modelos externos. Copiar nĂŁo Ă© virtuoso – Ă© dependente. Quem copia espera que alguĂ©m crie. E quem cria precisa de liberdade. As ditaduras se espelham nas inovações dos paĂses livres, mas jamais se espelham na democracia que as torna possĂveis.
Embora o Brasil seja um paĂs em desenvolvimento, ainda Ă© capaz de produzir conhecimento, criar remĂ©dios, lançar startups e contribuir com soluções relevantes. Há talento, há criatividade, há vocação. LaboratĂłrios nacionais, por exemplo, já desenvolveram medicamentos originais como o anti-inflamatĂłrio, fruto de pesquisa com plantas nativas e tecnologia farmacĂŞutica nacional. SĂŁo iniciativas que mostram que, mesmo em um paĂs em desenvolvimento, a liberdade intelectual pode gerar inovação com impacto global. Mas se nos for tirado o pouco que temos de liberdade, a tendĂŞncia Ă© afundarmos como paĂs. Sem liberdade, nĂŁo há inovação. Sem inovação, nĂŁo há progresso. E sem progresso, o Brasil se tornará apenas mais um entre os que copiaram – mas nunca criaram.
Nas últimas décadas, o ambiente universitário brasileiro tem sido dominado por ideias socialistas e marxistas, inspiradas por Paulo Freire e Antonio Gramsci. Embora reconhecidos por suas contribuições teóricas, o uso quase exclusivo dessas referências nas salas de aula tem gerado um efeito colateral preocupante: a restrição do fluxo plural de ideias.
Em vez de estimular o contraditório e a diversidade intelectual, muitas instituições reforçam uma visão única – estatizante, coletivista e avessa à iniciativa privada. Isso empurra os estudantes para a dependência do Estado e sufoca o empreendedorismo. Como alertam Hayek e North, sem liberdade intelectual, não há progresso – apenas doutrinação.
Cinema, literatura, teatro e mĂşsica dependem da liberdade para questionar e imaginar. Em regimes autoritários, a cultura vira propaganda. No Brasil, episĂłdios de censura indireta e perseguição a artistas crĂticos mostram que o espaço criativo está se estreitando – e com ele, a capacidade de uma sociedade se reinventar.
A judicialização de conteĂşdos, a criminalização de opiniões e a pressĂŁo sobre jornalistas sĂŁo sinais de alerta. AlĂ©m disso, o uso da publicidade governamental como instrumento de influĂŞncia compromete a independĂŞncia editorial. O governo federal direciona verbas publicitárias de forma seletiva, favorecendo veĂculos alinhados politicamente e penalizando os crĂticos. A liberdade de imprensa nĂŁo Ă© um privilĂ©gio da mĂdia – Ă© um direito da sociedade.
Decisões monocráticas, inquĂ©ritos sigilosos e ordens de bloqueio de perfis em redes sociais tĂŞm sido usadas como instrumentos de controle polĂtico. A democracia exige pesos e contrapesos – e quando um poder se sobrepõe aos demais, o equilĂbrio institucional se rompe. A transição nĂŁo grita – sussurra. E por isso mesmo, Ă© mais difĂcil de ser percebida – e combatida.
O Brasil tem se aproximado de governos autoritários como Venezuela, China, IrĂŁ e RĂşssia. Essa escolha nĂŁo Ă© apenas estratĂ©gica – Ă© simbĂłlica. Ao se afastar de democracias consolidadas, o paĂs renuncia aos valores que sustentam a inovação e o progresso.
A Ucrânia, mesmo em guerra, escolheu se integrar Ă Europa por reconhecer que o Ocidente oferece liberdade, negĂłcios e prosperidade. A adesĂŁo Ă UniĂŁo Europeia representa, para os ucranianos, a chance de reconstruir o paĂs com base em instituições livres, mercado aberto e pluralidade de ideias – como fez a PolĂ´nia, que hoje Ă© uma das economias mais prĂłsperas da Europa Central. Ao contrário do Brasil, a PolĂ´nia, de forma estratĂ©gica e inteligente, escolheu o Ocidente – onde as ideias circulam livremente e a prosperidade Ă© bem-vinda. Já o Brasil, por uma opção polĂtica deliberada, tem se aproximado de regimes autoritários – onde a vida Ă© mais difĂcil, a liberdade Ă© restrita e a inovação Ă© escassa.
A democracia brasileira Ă© jovem, mas vulnerável. A erosĂŁo institucional nĂŁo vem com tanques – vem com silĂŞncio. Quando o poder se concentra e o debate se retrai, a democracia enfraquece. E recuperar liberdades perdidas Ă© sempre mais difĂcil do que preservá-las.
ConclusĂŁo: o que está em jogo nĂŁo Ă© apenas a liberdade – Ă© o destino do paĂs. O Brasil precisa decidir se quer ser protagonista da criação ou espectador da reprodução. E essa decisĂŁo começa pela defesa intransigente da liberdade de pensamento. Porque sem liberdade, nĂŁo há inovação. Sem inovação, nĂŁo há progresso. E sem progresso, nĂŁo há futuro.
Edemir Bogesky von Schörner é secretário de Relações Internacionais do BRIPAEM – Bloco de Intendentes, Prefeitos, Alcaides e Empresários do Mercosul.
Fonte: gazetadopovo





