Saúde

Descubra por que a homeopatia não avançou no tempo

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  • Alguns dias atrás eu estava navegando pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional quando me deparei com a primeira edição de um periódico intitulado “O Homœopatha”, publicado em Pernambuco em 26 de março de 1883. O cabeçalho trazia, em latim, o princípio fundamental da homeopatia“Similia similibus curantur” (semelhante cura semelhante). Logo abaixo, identificava-se como “Orgão de Propaganda Homœopathica”, propriedade da Pharmacia e Laboratorio Especial Homeopathico do Doutor Sabino, com distribuição gratuita:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    O que me marcou foi que, ao ler aquelas páginas de 140 anos atrás, tive a estranha sensação de estar lendo uma postagem contemporânea no Instagram, publicada por algum entusiasta da homeopatia.

    Este jornal é uma cápsula do tempo que nos permite dissecar a anatomia de uma pseudociência obstinada. Vamos analisar o que o Dr. Sabino e seus colegas tinham a dizer há quase um século e meio, e entender por que, apesar de todo o avanço do conhecimento humano, os argumentos permanecem os mesmos.

    Contexto temporal

    Antes de mergulhar no conteúdo do jornal, precisamos situar 1883 no tempo. Samuel Hahnemann havia publicado o Organon da Arte de Curar em 1810, sistematizando os princípios da homeopatia que vinha desenvolvendo desde 1796.

    Siga

    Mas outros marcos históricos também importam aqui. Em 1747, James Lind conduziu aquele que costuma ser reconhecido como o primeiro embrião de ensaio clínico controlado, demonstrando que frutas cítricas curavam escorbuto. Em 1799, John Haygarth expôs a fraude dos “tratores metálicos de Perkins” por meio de um teste com placebo, mostrando que hastes de madeira pintadas produziam os mesmos resultados que as supostamente milagrosas hastes metálicas. O conceito de que atenção, expectativa e ritual poderiam produzir melhoras subjetivas na saúde já começava a ser documentado.

    É importante reconhecer, no entanto, que em 1883 a medicina científica, como a conhecemos hoje, ainda estava engatinhando. Os ensaios clínicos randomizados duplo-cegos só se estabeleceriam como padrão décadas depois. O conceito formal de “placebo” ainda estava sendo refinado. Antibióticos não existiam. A teoria dos germes de Pasteur e Koch estava apenas começando a ganhar aceitação.

    Seria, portanto, injusto exigir de Hahnemann ou de seus seguidores de 1883 a aplicação de padrões metodológicos que ainda não estavam plenamente estabelecidos. Mas aqui está o ponto: a homeopatia permaneceu cristalizada em 1810, mesmo após esses padrões se estabelecerem.

    A sedução da “experiência”

    Logo no início do jornal, encontramos uma citação atribuída a Hahnemann que é o cerne da estratégia retórica da homeopatia até hoje:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    À primeira vista, isso soa como algo científico: “não acredite em mim, teste você mesmo!”. É um apelo sedutor à empiria, ao ceticismo e à verificação independente. O problema está na segunda parte da frase: “mas fazei-as como eu as faço, segundo os preceitos que vos dou”.

    Aqui reside uma falácia importante. O que Hahnemann chama de “fazer experiências” não é, de forma alguma, equivalente ao que hoje entendemos por experimentação científica controlada. É, na verdade, um convite para reproduzir exatamente os mesmos vieses a que ele próprio esteve sujeito. É como se alguém dissesse: “Não acredite que a Terra é plana por causa das minhas palavras; olhe você mesmo pela janela e verá que ela é plana. Mas olhe exatamente como eu olho”.

    O Dr. Sabino reforça essa mensagem com sua própria declaração:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Novamente, o apelo é à “experiência própria” como árbitro final da verdade. Mas qual experiência? A experiência não controlada, não randomizada, permeada por todos os vieses cognitivos que, hoje sabemos, afetam nossa percepção de causa e efeito.

    Em 1883, Hahnemann e Sabino não tinham como conhecer tudo o que hoje se sabe a respeito do viés de confirmação, regressão à média, história natural das doenças ou efeito Hawthorne. Mas os profissionais de homeopatia de 2025 não têm a mesma desculpa. E ainda assim, continuam usando o mesmo argumento.

    Crítica válida, solução inadequada

    Um dos trechos mais interessantes do jornal vem de um texto intitulado “A Faculdade de Medicina e a Homœopathia”, que reproduz o parecer de uma comissão de medicina sobre a homeopatia. O texto contextualiza o surgimento da prática:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    A associação com o mesmerismo e com Cagliostro é interessante. Ambos eram figuras controversas que prometiam curas por meio de mecanismos não demonstrados: o “magnetismo animal” de Mesmer e os rituais alquímicos de Cagliostro. Essa contextualização histórica sugere que a homeopatia surgiu em um momento cultural fascinado pelo oculto e pelo místico.

    Mas então o jornal oferece sua contraposição, e aqui encontramos algo interessante:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Isso não está errado. A medicina do final do século 18 era, de fato, um caos epistemológico. Sangrias, purgativos violentos, substâncias tóxicas administradas em doses maciças. Tudo baseado em teorias que não tinham fundamento na realidade biológica. Os médicos da época operavam mais com base em hipóteses especulativas do que em evidências sólidas.

    O texto continua:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    A crítica de Hahnemann à medicina de seu tempo tinha, portanto, mérito considerável. O problema é o que ele ofereceu como alternativa. Explico: diagnosticar corretamente que a medicina vigente é falha não torna a sua alternativa automaticamente correta. É a falácia da falsa dicotomia: “Se eles estão errados, nós estamos certos”.

    Essa é uma das principais inversões retóricas adotadas no texto: a homeopatia se apresenta como “medicina experimental” em oposição à “medicina das hipóteses”. Mas o que Hahnemann chamava de “experimental” não era experimental no sentido que hoje entendemos. Ele testava substâncias em si mesmo e em algumas pessoas, anotava os sintomas que apareciam (ou que ele imaginava que apareciam), e então prescrevia essas substâncias em diluições extremas para pacientes que apresentassem sintomas semelhantes.

    Não havia grupo controle. Não havia aleatorização. Não havia cegamento. Não havia acompanhamento sistemático de desfechos objetivos. Não havia, portanto, os elementos fundamentais que caracterizam a experimentação científica moderna.

    Os “fatos” são tudo

    O jornal também traz anúncios publicitários que merecem atenção. Um deles, da Pharmacia e Laboratorio Especial Homœopathico do Dr. Sabino, proclama:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Esta é outra estratégia retórica. Ao afirmar que “os fatos são tudo”, o anúncio se posiciona como empirista radical, como se estivesse do lado da evidência concreta, contra a especulação vazia. Mas quais fatos? Onde estão os dados sistemáticos, os acompanhamentos de longo prazo, os controles adequados?

    A resposta está no que não é dito. Os “fatos” aqui referidos são relatos anedóticos (da mesma forma que observamos recentemente neste texto): “fulano tomou e melhorou”, “ciclano estava desenganado pelos médicos e a homeopatia o salvou”. São os mesmos “fatos” que sustentariam qualquer prática ineficaz que ocasionalmente coincida com remissões espontâneas ou regressões à média.

    O anúncio também menciona “PREPARAÇÕES A MACHINAS”, sugerindo modernidade e precisão industrial. Sem contar o apelo até mesmo com a oferta de “chocolates homeopáticos”. É interessante notar como, desde sempre, a homeopatia tenta se vestir com as roupagens da tecnologia e da modernidade disponíveis em cada época. Em 1883, eram as máquinas. Hoje, é a “física quântica”. A pirotecnia muda; a (falta de) substância, não.

    Outro anúncio apresenta o “Dr. Balthazar, Medico Homœopathia” e suas “ESPECIALIDADES”:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Aqui temos o padrão da panaceia se manifestando. A homeopatia não se especializa em nada, porque promete curar tudo. É simultaneamente tratamento para resfriado comum e sífilis avançada – condições que não têm absolutamente nada em comum em termos de fisiopatologia, mas que são tratadas com o mesmo arsenal de diluições extremas e rituais de sucussão.

    Falsa simetria

    Um dos trechos mais problemáticos do jornal talvez seja este:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Aqui vemos o esqueleto de um tipo de narrativa que permanece até hoje: a homeopatia como vítima de uma academia arrogante, cega, reducionista. Para se defender disso, o texto apela à falácia da falsa simetria ou falsa equivalência. O argumento propõe que, se criticamos Hahnemann por propor mecanismos não demonstrados, deveríamos também criticar Newton, Bacon, Faraday, Lavoisier e Berthelot. Afinal de contas, eles também propuseram coisas que pareciam estranhas ou contraintuitivas.

    Newton propôs que objetos se atraem à distância através da gravidade. Isso era contraintuitivo (como algo pode agir onde não está?), mas era testável e verificável. E principalmente: as previsões matemáticas baseadas na lei da gravitação universal correspondiam às observações astronômicas. Qualquer pessoa com os instrumentos adequados poderia verificar isso.

    Lavoisier propôs que a combustão não liberava “flogisto”, mas consumia oxigênio. Isso contrariava a teoria dominante da época. Mas suas experiências eram reproduzíveis. Qualquer pessoa pesando cuidadosamente os reagentes antes e depois da combustão chegaria aos mesmos resultados.

    Faraday demonstrou a indução eletromagnética por meio de experimentos que qualquer cientista poderia replicar em laboratório. A relação entre eletricidade e magnetismo era surpreendente, mas demonstrável.

    Hahnemann, por sua vez, propôs algo, a homeopatia, não apenas contraintuitivo, mas que contradiz princípios fundamentais de física e química estabelecidos justamente por… Lavoisier, Newton e outros. E, quando testada adequadamente, não se sustenta.

    O texto ainda afirma:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Esta afirmação é audaciosa e, em certa medida, arrogante. Hahnemann não estabeleceu “o método experimental na terapêutica”. Esse mérito pertence a figuras como Lind, que antes de Hahnemann já estava usando controles comparativos, ou a Pierre Louis, que nos anos 1830 estava usando métodos numéricos para avaliar tratamentos. O que Hahnemann estabeleceu foi um sistema baseado em analogias (semelhante cura semelhante), rituais de preparação (diluição e sucussão) e observações não controladas.

    O jornal também anuncia o “Thesouro Homœopathico ou Vade-Mecum do Homœopathia pelo Dr. Sabino”, descrito como:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    E aqui está, novamente, a promessa da panaceia explicitamente formulada: um método para todas as moléstias que afligem a espécie humana. Não apenas algumas doenças. Não apenas uma classe de condições. Todas.

    O que torna isso ainda mais curioso é o advérbio “seguro”. Como se pode afirmar segurança de um método que se propõe a tratar “todas as moléstias”? Diferentes doenças têm diferentes fisiopatologias, diferentes histórias naturais, diferentes riscos e desfechos.

    O espantalho da “alopatia”

    Ao longo do jornal, há referências implícitas ao que Hahnemann chamava de “alopatia” – um termo que ele cunhou para descrever a medicina convencional como baseada no princípio de “diferentes curam diferentes” (ao contrário do “semelhante cura semelhante” da homeopatia).

    Mas “alopatia” é um espantalho retórico. A medicina científica moderna não opera no princípio de “diferentes curam diferentes”. Ela opera no princípio de: “identifique o mecanismo fisiopatológico e intervenha de forma que altere esse mecanismo na direção desejada, com evidências de que isso melhora desfechos clinicamente relevantes, com maior probabilidade de benefícios versus riscos”.

    Antibióticos não “curam por diferença”. Eles matam bactérias porque interferem com processos celulares específicos desses micro-organismos. Insulina não trata diabetes “por diferença”. Ela repõe um hormônio deficiente. Cirurgia para remover um tumor não funciona porque é “diferente” do tumor; é a remoção física de um tecido patológico.

    Em pleno 2025, o obsoleto termo “alopatia” serve apenas para criar uma falsa dicotomia, como se houvesse dois sistemas médicos igualmente válidos, cada um com sua filosofia. Mas não há.

    Trajetórias divergentes

    Voltemos agora ao nosso ponto de observação temporal em 1883 e consideremos as duas trajetórias que se abriram a partir dali.

    Em 1883, tanto a homeopatia quanto a medicina convencional enfrentavam problemas sérios. A medicina convencional ainda fazia sangrias, ainda prescrevia mercúrio para sífilis (causando envenenamento), ainda não tinha antibióticos ou quase nenhum tratamento realmente eficaz. A homeopatia oferecia, talvez, a vantagem de não causar dano direto (exceto pelo custo de oportunidade de atrasar tratamentos que poderiam funcionar, quando estes passaram a existir).

    Mas observe o que aconteceu desde então.

    A medicina científica evoluiu dramaticamente. Desenvolveu vacinas eficazes, criou técnicas cirúrgicas precisas, desenvolveu quimioterapias direcionadas, estabeleceu ensaios clínicos randomizados duplo-cegos, criou sistemas de farmacovigilância etc. Abandonou a sangria quando evidências mostraram que não funcionava. Abandonou o mercúrio para sífilis quando antibióticos surgiram. Abandonou inúmeras práticas que “sempre foram feitas assim” quando testes adequados mostraram que eram inúteis ou prejudiciais.

    Em outras palavras: a medicina corrigiu sua trajetória e evoluiu. Ou melhor: está em constante evolução, submetendo-se continuamente ao ceticismo científico.

    E a homeopatia? Segue fazendo o que sempre fez. As diluições são as mesmas. Os princípios são os mesmos. Os argumentos são os mesmos. A estrutura retórica é a mesma.

    Quando confrontada, responde atacando estudos, invocando conspirações da indústria farmacêutica, ou fazendo pirotecnia com física quântica e “memória da água”, conceitos que soam modernos, mas que não mudam sua ideia central.

    O jornal de 1883 poderia ser publicado hoje, com mínimas adaptações de linguagem, e ninguém notaria a diferença. Os mesmos apelos à “experiência própria”, as mesmas comparações com grandes cientistas, as mesmas promessas de cura para tudo, os mesmos ataques ao establishment médico.

    Aquilo que, aos olhos ingênuos, parece uma sabedoria atemporal é, na verdade, um sinal de estagnação.

    Considerações finais

    A crítica de Hahnemann à medicina de seu tempo tinha validade porque a medicina de seu tempo realmente era problemática. Mas aquela medicina mudou. O “cháos médico” que Hahnemann enfrentou foi substituído por um sistema que, embora imperfeito, evolui, graças a testes rigorosos e correções constantes.

    A homeopatia continua criticando uma medicina que não existe mais. Ela luta contra inimigos imaginários: a “alopatia mecanicista”, a “medicina das hipóteses”, o “establishment” que suprime curas. Quando defensores contemporâneos da homeopatia fazem esse tipo de crítica, cometem um grave anacronismo.

    O que permanece é a promessa de que existe uma solução simples, natural, sem efeitos colaterais para todos os nossos males. A promessa de que “os fatos falam por si”, desde que ignoremos o rigor científico, e de que basta “fazer experiências” do “jeito certo” (ou seja, do jeito enviesado que confirma nossas crenças).

    Em 1883, diante de uma medicina que realmente causava mais mal do que bem, a homeopatia oferecia o consolo de não causar dano direto. Hoje, diante de uma medicina que é frequentemente impessoal, apressada, cara e, às vezes inacessível, a homeopatia oferece atenção, tempo, escuta.

    O problema é que atenção, tempo e escuta são valiosos e terapêuticos por si mesmos, independentemente da intervenção. Eles não provam que soluções ultradiluídas tenham algum efeito. A verdadeira tragédia não é exatamente o que Hahnemann propôs em sua época. É o que, 140 anos depois, continua-se a perpetuar. Apenas trocamos o jornal de 1883 pelo Instagram. E isso, afinal de contas, talvez não tenha muito a ver com ciência. Tem a ver com a dificuldade de admitir que aquilo em que investimos nossas identidades e esperanças foi diluído pelos fatos ao longo do tempo, até não sobrar nada.

    André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros “Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades” e “50 Casos Clínicos em Farmacologia” (Sanar), “Porque sim não é resposta!” (EdUFABC), “Tarot Cético: Cartomancia Racional” (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?…e o que não é. (Editora Contexto).

    Contexto temporal

    Antes de mergulhar no conteúdo do jornal, precisamos situar 1883 no tempo. Samuel Hahnemann havia publicado o Organon da Arte de Curar em 1810, sistematizando os princípios da homeopatia que vinha desenvolvendo desde 1796.

    Siga

    Mas outros marcos históricos também importam aqui. Em 1747, James Lind conduziu aquele que costuma ser reconhecido como o primeiro embrião de ensaio clínico controlado, demonstrando que frutas cítricas curavam escorbuto. Em 1799, John Haygarth expôs a fraude dos “tratores metálicos de Perkins” por meio de um teste com placebo, mostrando que hastes de madeira pintadas produziam os mesmos resultados que as supostamente milagrosas hastes metálicas. O conceito de que atenção, expectativa e ritual poderiam produzir melhoras subjetivas na saúde já começava a ser documentado.

    É importante reconhecer, no entanto, que em 1883 a medicina científica, como a conhecemos hoje, ainda estava engatinhando. Os ensaios clínicos randomizados duplo-cegos só se estabeleceriam como padrão décadas depois. O conceito formal de “placebo” ainda estava sendo refinado. Antibióticos não existiam. A teoria dos germes de Pasteur e Koch estava apenas começando a ganhar aceitação.

    Seria, portanto, injusto exigir de Hahnemann ou de seus seguidores de 1883 a aplicação de padrões metodológicos que ainda não estavam plenamente estabelecidos. Mas aqui está o ponto: a homeopatia permaneceu cristalizada em 1810, mesmo após esses padrões se estabelecerem.

    A sedução da “experiência”

    Logo no início do jornal, encontramos uma citação atribuída a Hahnemann que é o cerne da estratégia retórica da homeopatia até hoje:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    À primeira vista, isso soa como algo científico: “não acredite em mim, teste você mesmo!”. É um apelo sedutor à empiria, ao ceticismo e à verificação independente. O problema está na segunda parte da frase: “mas fazei-as como eu as faço, segundo os preceitos que vos dou”.

    Aqui reside uma falácia importante. O que Hahnemann chama de “fazer experiências” não é, de forma alguma, equivalente ao que hoje entendemos por experimentação científica controlada. É, na verdade, um convite para reproduzir exatamente os mesmos vieses a que ele próprio esteve sujeito. É como se alguém dissesse: “Não acredite que a Terra é plana por causa das minhas palavras; olhe você mesmo pela janela e verá que ela é plana. Mas olhe exatamente como eu olho”.

    O Dr. Sabino reforça essa mensagem com sua própria declaração:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Novamente, o apelo é à “experiência própria” como árbitro final da verdade. Mas qual experiência? A experiência não controlada, não randomizada, permeada por todos os vieses cognitivos que, hoje sabemos, afetam nossa percepção de causa e efeito.

    Em 1883, Hahnemann e Sabino não tinham como conhecer tudo o que hoje se sabe a respeito do viés de confirmação, regressão à média, história natural das doenças ou efeito Hawthorne. Mas os profissionais de homeopatia de 2025 não têm a mesma desculpa. E ainda assim, continuam usando o mesmo argumento.

    Crítica válida, solução inadequada

    Um dos trechos mais interessantes do jornal vem de um texto intitulado “A Faculdade de Medicina e a Homœopathia”, que reproduz o parecer de uma comissão de medicina sobre a homeopatia. O texto contextualiza o surgimento da prática:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    A associação com o mesmerismo e com Cagliostro é interessante. Ambos eram figuras controversas que prometiam curas por meio de mecanismos não demonstrados: o “magnetismo animal” de Mesmer e os rituais alquímicos de Cagliostro. Essa contextualização histórica sugere que a homeopatia surgiu em um momento cultural fascinado pelo oculto e pelo místico.

    Mas então o jornal oferece sua contraposição, e aqui encontramos algo interessante:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Isso não está errado. A medicina do final do século 18 era, de fato, um caos epistemológico. Sangrias, purgativos violentos, substâncias tóxicas administradas em doses maciças. Tudo baseado em teorias que não tinham fundamento na realidade biológica. Os médicos da época operavam mais com base em hipóteses especulativas do que em evidências sólidas.

    O texto continua:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    A crítica de Hahnemann à medicina de seu tempo tinha, portanto, mérito considerável. O problema é o que ele ofereceu como alternativa. Explico: diagnosticar corretamente que a medicina vigente é falha não torna a sua alternativa automaticamente correta. É a falácia da falsa dicotomia: “Se eles estão errados, nós estamos certos”.

    Essa é uma das principais inversões retóricas adotadas no texto: a homeopatia se apresenta como “medicina experimental” em oposição à “medicina das hipóteses”. Mas o que Hahnemann chamava de “experimental” não era experimental no sentido que hoje entendemos. Ele testava substâncias em si mesmo e em algumas pessoas, anotava os sintomas que apareciam (ou que ele imaginava que apareciam), e então prescrevia essas substâncias em diluições extremas para pacientes que apresentassem sintomas semelhantes.

    Não havia grupo controle. Não havia aleatorização. Não havia cegamento. Não havia acompanhamento sistemático de desfechos objetivos. Não havia, portanto, os elementos fundamentais que caracterizam a experimentação científica moderna.

    Os “fatos” são tudo

    O jornal também traz anúncios publicitários que merecem atenção. Um deles, da Pharmacia e Laboratorio Especial Homœopathico do Dr. Sabino, proclama:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Esta é outra estratégia retórica. Ao afirmar que “os fatos são tudo”, o anúncio se posiciona como empirista radical, como se estivesse do lado da evidência concreta, contra a especulação vazia. Mas quais fatos? Onde estão os dados sistemáticos, os acompanhamentos de longo prazo, os controles adequados?

    A resposta está no que não é dito. Os “fatos” aqui referidos são relatos anedóticos (da mesma forma que observamos recentemente neste texto): “fulano tomou e melhorou”, “ciclano estava desenganado pelos médicos e a homeopatia o salvou”. São os mesmos “fatos” que sustentariam qualquer prática ineficaz que ocasionalmente coincida com remissões espontâneas ou regressões à média.

    O anúncio também menciona “PREPARAÇÕES A MACHINAS”, sugerindo modernidade e precisão industrial. Sem contar o apelo até mesmo com a oferta de “chocolates homeopáticos”. É interessante notar como, desde sempre, a homeopatia tenta se vestir com as roupagens da tecnologia e da modernidade disponíveis em cada época. Em 1883, eram as máquinas. Hoje, é a “física quântica”. A pirotecnia muda; a (falta de) substância, não.

    Outro anúncio apresenta o “Dr. Balthazar, Medico Homœopathia” e suas “ESPECIALIDADES”:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Aqui temos o padrão da panaceia se manifestando. A homeopatia não se especializa em nada, porque promete curar tudo. É simultaneamente tratamento para resfriado comum e sífilis avançada – condições que não têm absolutamente nada em comum em termos de fisiopatologia, mas que são tratadas com o mesmo arsenal de diluições extremas e rituais de sucussão.

    Falsa simetria

    Um dos trechos mais problemáticos do jornal talvez seja este:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Aqui vemos o esqueleto de um tipo de narrativa que permanece até hoje: a homeopatia como vítima de uma academia arrogante, cega, reducionista. Para se defender disso, o texto apela à falácia da falsa simetria ou falsa equivalência. O argumento propõe que, se criticamos Hahnemann por propor mecanismos não demonstrados, deveríamos também criticar Newton, Bacon, Faraday, Lavoisier e Berthelot. Afinal de contas, eles também propuseram coisas que pareciam estranhas ou contraintuitivas.

    Newton propôs que objetos se atraem à distância através da gravidade. Isso era contraintuitivo (como algo pode agir onde não está?), mas era testável e verificável. E principalmente: as previsões matemáticas baseadas na lei da gravitação universal correspondiam às observações astronômicas. Qualquer pessoa com os instrumentos adequados poderia verificar isso.

    Lavoisier propôs que a combustão não liberava “flogisto”, mas consumia oxigênio. Isso contrariava a teoria dominante da época. Mas suas experiências eram reproduzíveis. Qualquer pessoa pesando cuidadosamente os reagentes antes e depois da combustão chegaria aos mesmos resultados.

    Faraday demonstrou a indução eletromagnética por meio de experimentos que qualquer cientista poderia replicar em laboratório. A relação entre eletricidade e magnetismo era surpreendente, mas demonstrável.

    Hahnemann, por sua vez, propôs algo, a homeopatia, não apenas contraintuitivo, mas que contradiz princípios fundamentais de física e química estabelecidos justamente por… Lavoisier, Newton e outros. E, quando testada adequadamente, não se sustenta.

    O texto ainda afirma:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    Esta afirmação é audaciosa e, em certa medida, arrogante. Hahnemann não estabeleceu “o método experimental na terapêutica”. Esse mérito pertence a figuras como Lind, que antes de Hahnemann já estava usando controles comparativos, ou a Pierre Louis, que nos anos 1830 estava usando métodos numéricos para avaliar tratamentos. O que Hahnemann estabeleceu foi um sistema baseado em analogias (semelhante cura semelhante), rituais de preparação (diluição e sucussão) e observações não controladas.

    O jornal também anuncia o “Thesouro Homœopathico ou Vade-Mecum do Homœopathia pelo Dr. Sabino”, descrito como:

    Corte do jornal
    (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional/Reprodução)

    E aqui está, novamente, a promessa da panaceia explicitamente formulada: um método para todas as moléstias que afligem a espécie humana. Não apenas algumas doenças. Não apenas uma classe de condições. Todas.

    O que torna isso ainda mais curioso é o advérbio “seguro”. Como se pode afirmar segurança de um método que se propõe a tratar “todas as moléstias”? Diferentes doenças têm diferentes fisiopatologias, diferentes histórias naturais, diferentes riscos e desfechos.

    O espantalho da “alopatia”

    Ao longo do jornal, há referências implícitas ao que Hahnemann chamava de “alopatia” – um termo que ele cunhou para descrever a medicina convencional como baseada no princípio de “diferentes curam diferentes” (ao contrário do “semelhante cura semelhante” da homeopatia).

    Mas “alopatia” é um espantalho retórico. A medicina científica moderna não opera no princípio de “diferentes curam diferentes”. Ela opera no princípio de: “identifique o mecanismo fisiopatológico e intervenha de forma que altere esse mecanismo na direção desejada, com evidências de que isso melhora desfechos clinicamente relevantes, com maior probabilidade de benefícios versus riscos”.

    Antibióticos não “curam por diferença”. Eles matam bactérias porque interferem com processos celulares específicos desses micro-organismos. Insulina não trata diabetes “por diferença”. Ela repõe um hormônio deficiente. Cirurgia para remover um tumor não funciona porque é “diferente” do tumor; é a remoção física de um tecido patológico.

    Em pleno 2025, o obsoleto termo “alopatia” serve apenas para criar uma falsa dicotomia, como se houvesse dois sistemas médicos igualmente válidos, cada um com sua filosofia. Mas não há.

    Trajetórias divergentes

    Voltemos agora ao nosso ponto de observação temporal em 1883 e consideremos as duas trajetórias que se abriram a partir dali.

    Em 1883, tanto a homeopatia quanto a medicina convencional enfrentavam problemas sérios. A medicina convencional ainda fazia sangrias, ainda prescrevia mercúrio para sífilis (causando envenenamento), ainda não tinha antibióticos ou quase nenhum tratamento realmente eficaz. A homeopatia oferecia, talvez, a vantagem de não causar dano direto (exceto pelo custo de oportunidade de atrasar tratamentos que poderiam funcionar, quando estes passaram a existir).

    Mas observe o que aconteceu desde então.

    A medicina científica evoluiu dramaticamente. Desenvolveu vacinas eficazes, criou técnicas cirúrgicas precisas, desenvolveu quimioterapias direcionadas, estabeleceu ensaios clínicos randomizados duplo-cegos, criou sistemas de farmacovigilância etc. Abandonou a sangria quando evidências mostraram que não funcionava. Abandonou o mercúrio para sífilis quando antibióticos surgiram. Abandonou inúmeras práticas que “sempre foram feitas assim” quando testes adequados mostraram que eram inúteis ou prejudiciais.

    Em outras palavras: a medicina corrigiu sua trajetória e evoluiu. Ou melhor: está em constante evolução, submetendo-se continuamente ao ceticismo científico.

    E a homeopatia? Segue fazendo o que sempre fez. As diluições são as mesmas. Os princípios são os mesmos. Os argumentos são os mesmos. A estrutura retórica é a mesma.

    Quando confrontada, responde atacando estudos, invocando conspirações da indústria farmacêutica, ou fazendo pirotecnia com física quântica e “memória da água”, conceitos que soam modernos, mas que não mudam sua ideia central.

    O jornal de 1883 poderia ser publicado hoje, com mínimas adaptações de linguagem, e ninguém notaria a diferença. Os mesmos apelos à “experiência própria”, as mesmas comparações com grandes cientistas, as mesmas promessas de cura para tudo, os mesmos ataques ao establishment médico.

    Aquilo que, aos olhos ingênuos, parece uma sabedoria atemporal é, na verdade, um sinal de estagnação.

    Considerações finais

    A crítica de Hahnemann à medicina de seu tempo tinha validade porque a medicina de seu tempo realmente era problemática. Mas aquela medicina mudou. O “cháos médico” que Hahnemann enfrentou foi substituído por um sistema que, embora imperfeito, evolui, graças a testes rigorosos e correções constantes.

    A homeopatia continua criticando uma medicina que não existe mais. Ela luta contra inimigos imaginários: a “alopatia mecanicista”, a “medicina das hipóteses”, o “establishment” que suprime curas. Quando defensores contemporâneos da homeopatia fazem esse tipo de crítica, cometem um grave anacronismo.

    O que permanece é a promessa de que existe uma solução simples, natural, sem efeitos colaterais para todos os nossos males. A promessa de que “os fatos falam por si”, desde que ignoremos o rigor científico, e de que basta “fazer experiências” do “jeito certo” (ou seja, do jeito enviesado que confirma nossas crenças).

    Em 1883, diante de uma medicina que realmente causava mais mal do que bem, a homeopatia oferecia o consolo de não causar dano direto. Hoje, diante de uma medicina que é frequentemente impessoal, apressada, cara e, às vezes inacessível, a homeopatia oferece atenção, tempo, escuta.

    O problema é que atenção, tempo e escuta são valiosos e terapêuticos por si mesmos, independentemente da intervenção. Eles não provam que soluções ultradiluídas tenham algum efeito. A verdadeira tragédia não é exatamente o que Hahnemann propôs em sua época. É o que, 140 anos depois, continua-se a perpetuar. Apenas trocamos o jornal de 1883 pelo Instagram. E isso, afinal de contas, talvez não tenha muito a ver com ciência. Tem a ver com a dificuldade de admitir que aquilo em que investimos nossas identidades e esperanças foi diluído pelos fatos ao longo do tempo, até não sobrar nada.

    André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros “Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades” e “50 Casos Clínicos em Farmacologia” (Sanar), “Porque sim não é resposta!” (EdUFABC), “Tarot Cético: Cartomancia Racional” (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?…e o que não é. (Editora Contexto).

    Fonte: abril

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