A Escócia parece um país peculiar à primeira vista. Mas, a nação das saias xadrez e gaitas de fole é recheada de belas paisagens, como as Highlands; castelos que parecem ter saído do mundo mágico de Harry Potter; e bons whiskies, com qualidade garantida por lei.
No futebol, o povo vê o esporte renascer. Após quase 30 anos sem participar da Copa do Mundo, a seleção escocesa retornou nesta edição após vencer a Dinamarca nas Eliminatórias com um gol de bicicleta de Scott McTominay, seu grande ídolo e atual meio-campista de centro do Napoli. O país britânico também esteve em um hiato de Eurocopas: após jejum de 20 anos, voltou em 2020 e 2024.
Como no esporte, sua história passou por altos e baixos. A origem da nação remonta ao século 9, quando o rei Kenneth I unificou os povos pictos e escotos para fundar o Reino de Alba. Os séculos seguintes foram marcados por conflitos com seus vizinhos ingleses, até que a morte de Alexandre III da Escócia, no século 13, abriu a oportunidade para o ataque do rei inglês Eduardo I, desencadeando as Guerras de Independência (1296-1357). Ficcionalizados no filme Coração Valente (1995), esses conflitos resultaram na autonomia da Escócia pelo Tratado de Berwick, assinado em 1357.
As duas nações se entenderam melhor em 1707, quando a Escócia se uniu políticamente à Inglaterra e formou o Reino da Grã-Bretanha, que se tornou o Reino Unido em 1801, após a entrada da Irlanda (a Irlanda do Norte só surgiria em 1921). Desde então, os povos convivem politicamente, mas cada um com sua cultura. A seguir, 10 curiosidades para conhecer mais desse país de bebedores de whisky repleto de ilhas e montanhas:
1. As icônicas saias e a gaita de fole
Quando pensamos no escocês clássico, uma figura vem à mente: um ruivo com saiote e gaita de fole. Hoje enraizados na cultura nacional, esses elementos têm séculos de história, do Império Romano aos conflitos com os ingleses.
As saias, chamadas de kilts, são descendentes das plaids, túnicas de lã usadas pelos celtas desde o século 6 a.C., os antigos habitantes da atual Escócia. O primeiro registro de uma vestimenta parecida com a que conhecemos hoje é do século 16, a Feileadh Mor: um tecido de tartan colorido de cinco metros que era enrolado no corpo. O padrão xadrez era moda entre os clãs dominantes da região, cada um tinha suas cores próprias para se diferenciar dos demais, como um brasão da família.
Os kilts modernos surgem no século 18 como uma adaptação menor do Feileadh Mor, chamada de Feileadh Beag. Com corte até o joelho, a peça era mais prática para os guerreiros das Highlands. A vestimenta se consolidou como símbolo nacional após 1746, quando o governo britânico proibiu seu uso e os escoceses vestiam em protesto, enaltecendo a peça.
As gaitas de fole têm origem mais distante na história. Seu parente ancestral era a tibia utricularis, uma flauta com reservatório usada pelos romanos desde o século 7 a.C. A chegada do instrumento à Escócia ocorreu com o domínio dos romanos na Grã-Bretanha, em 2 d.C. Quando eles deixaram a região, em 3 d.C., a avó da gaita de fole ficou por lá.
O registro mais antigo do instrumento com as características atuais é de 1538, escrito por um músico, e indica certa popularidade da gaita de fole no período. A peça é mencionada com mais frequência em documentos do século 16 em diante, com músicos itinerantes tocando por todo o país, em eventos como casamentos e feiras, além de guerras.
2. O berço de Harry Potter
Antes de se tornar famosa, J.K. Rowling era uma jovem escritora pelos cafés de Edimburgo. Nascida na Inglaterra, ela se mudou para a Escócia em 1993 após uma temporada em Portugal.
Alguns locais tentaram surfar na fama da saga quando os livros viralizaram, como a The Elephant House e o Nicolson’s Café. Em uma postagem de 2020 no X, a autora desmentiu os boatos de que esses estabelecimentos teriam sido o berço de Potter, dizendo que já havia concebido a série anos antes. Porém, admitiu que de fato escreveu parte das obras por lá.
É verdade que as paisagens escocesas encantaram Rowling. As Highlands e a arquitetura gótica são a base para o cenário de Hogwarts. Diversas cenas dos filmes foram gravadas por lá, como os momentos do Expresso de Hogwarts, que na vida real é o Jacobite Steam Train, que liga a cidade de Fort William até a vila portuária de Mallaig.
3. Terra de castelos
A Escócia abrigou mais de 3 mil castelos em sua história. Estima-se que metade deles tenha sido destruída no decorrer dos séculos, com apenas cerca de 1500 ainda em pé.
Os primeiros vestígios dessas estruturas datam de 1100 d.C. A popularidade veio com o Rei David I, que viveu na corte normanda na Inglaterra, de onde trouxe cavaleiros e nobres ingleses e os encarregou de construir as edificações para proteger o reino escocês.
O Castelo de Sween é um dos sobreviventes dessa época, sendo o mais antigo ainda em pé, com idade estimada em cerca de 800 anos. Ele é aberto para visitação o ano todo com entrada gratuita.
Outro icônico é o Castelo de Edimburgo, no centro da capital. A fortificação foi construída sobre um vulcão dormente e teve diversas funções no decorrer da história, desde residência real do século 12 a 17 até base militar . Hoje, o forte abriga as Joias da Coroa Escocesa, a Pedra do Destino (artefato usado na coroação dos monarcas) e o Museu Nacional da Guerra, sendo um dos pontos turísticos mais populares na cidade.
4. Um país de três idiomas
Não há curso no Duolingo ou na Cultura Inglesa que prepare alguém para o inglês escocês. Se a classuda variação britânica já é impactante, ouvir termos como wee, aye e braw, além das palavras com o “r” puxado são de assustar. Mas, basta uns bons dias por lá para pegar o jeito, certo? Bom, isso é verdade até que você tenha de lidar com o gaélico e o Scots, os outros dois idiomas oficiais do país.
A coexistência dessas três línguas se deve à história milenar da Grã-Bretanha. Acredita-se que o gaélico tenha chegado à atual Escócia vindo da Irlanda com os celtas em 500 d.C. Hoje, ele é mais falado nas Highlands e nas Hébridas, ao norte do país.
Já o Scots surgiu do antigo anglo-saxão e chegou ao território escocês pelos anglos em cerca de 600 d.C. A língua floresceu nos burgos e sofreu influência do francês, alemão, latim e do gaélico conforme os séculos passaram. Seus falantes se concentram nas Lowlands, Ilhas do Norte (Shetland e Orkney) e no nordeste da Escócia.
O censo escocês de 2022 revelou que esses idiomas centenários estão vivíssimos. Mais de 130 mil pessoas declararam ter conhecimento de gaélico, enquanto cerca de 2,5 milhões afirmaram saber Scots.
5. O lar do Monstro do Lago Ness
Quem anda pelos arredores de Inverness deve tomar cuidado. Ao se aproximar do gigantesco Lago Ness, com seus 37 quilômetros de comprimento, você pode se surpreender com o monstro que habita as águas profundas e geladas. Ou não: afinal, ele é só um mito.
Apelidada de Nessie pelos escoceses, a criatura mítica é um dos símbolos do país. O primeiro registro do bicho data de 565 d.C., escrito pelo missionário irlandês São Columba. Séculos se passaram até o boom de popularidade: em 1933, a gerente de hotel Aldie Mackay diz ter avistado a fera, encontro que relatou ao jornal Inverness Courier. No decorrer das décadas, mais relatos se acumularam até que o mito ficou conhecido ao redor do globo.
A popularidade levou pesquisadores ao lago em 1987 para caçar a criatura. A Operação Deepscan, com um time internacional, usou equipamentos avaliados em um milhão de euros na busca: 24 barcos com sonares de alta tecnologia. Nenhum monstro foi localizado. Porém, três máquinas detectaram uma figura grande abaixo do Castelo Urquhart, o que a equipe pensou ser uma foca ou um cardume de salmões (ou Nessie…). Essa dúvida mantém a lenda viva até hoje.
6. Ruivos dominam
A Escócia e a Irlanda travam uma briga ferrenha pelo pódio do país com maior porcentagem de ruivos do planeta. Como não há um censo oficial que responda a essa pergunta, é preciso olhar para as pesquisas. Segundo o World Atlas, 10% dos irlandeses têm cabelos vermelhos, contra 6% dos escoceses. Já o World Population Review apresenta uma variação de 6% a 13% de ruivos na população escocesa, o que a colocaria na frente. Seja como for, é muito acima da média global de 2%. Quando estiver por lá, encontrará vários rostinhos similares ao Rony, de Harry Potter, ou a Anne, de Green Gables.
7. O verdadeiro Whisky escocês
Os escoceses não aceitam qualquer bebida. A qualidade do whisky lá é garantida por lei: para o destilado ser considerado verdadeiramente escocês, deve ser produzido no país a partir de água e cevada maltada, além de envelhecer por no mínimo três anos em um barril de carvalho. A Lei do Whisky Escocês de 1988 e o Regulamento do Whisky Escocês de 2009 definem uma série maior de requisitos para a produção.
A bebida não surgiu lá, mas chegou ao país no século 15, segundo os primeiros registros. O nome vem do gaélico uisge-beatha, que significa “água da vida”, dado pelos monges que desenvolveram o destilado.
Hoje, o whisky é uma marca cultural escocesa. O país tem mais de 150 destilarias em operação, com a Speyside e a Islay entre as mais famosas. Ao todo, 43 garrafas de whisky escocês são exportadas a cada segundo para mercados ao redor do mundo, cerca de 1,3 bilhões por ano. São 700 milhões de litros por ano, 200 milhões a mais do que os Estados Unidos. A bebida faz parte do terceiro grupo de produtos mais exportado pelo país, apenas atrás de combustíveis fósseis e maquinaria. Cheers!
8. Terra do golfe
As origens do golfe são incertas, mas os primeiros registros do esporte como o conhecemos datam do século 15, na Escócia. Um dos pioneiros na organização do jogo é o Royal e Ancient Golf Club de St Andrews, aberto em 1754 e declarado o clube de golfe mais antigo do mundo pelo Guinness World Records. Ele foi honrado pelo rei William IV com o título de Real e Ancestral em 1834, o que o tornou a autoridade máxima no esporte. Hoje, divide esse poder com a Associação de Golfe dos Estados Unidos (USGA) e a Federação Internacional de Golfe (IGF).
O país abriga 600 campos de golfe, cerca de 22 mil hectares dedicados a bolinhas, tacos e bandeiras. Isso o coloca como o 11° maior detentor desses espaços no mundo, ainda longe do primeiro lugar, os Estados Unidos, com 16 mil campos de golfe que somam 800 mil hectares.
9. Ilhas à vontade
O mapa da Escócia parece um pano amassado e repartido em pedacinhos. E isso é bom: a atividade geológica intensa de 400 milhões de anos atrás remexeu a terra por lá e gerou as paisagens onduladas das Highlands e um arquipélago com cerca de 800 ilhas recheadas de belezas naturais.
Essas ilhotas são divididas em Hébridas Interiores, Hébridas Exteriores, Ilhas Orkney e Ilhas Shetland, sendo 93 delas habitadas. Esses territórios pontilhados sobre o mar correspondem a cerca de 15% da área terrestre do país.
10. Vacas com franjinha
Quem se aventura pelas Highlands pode se deparar com as Hairy Coos, vacas de franja. Com aparência de roqueiro dos anos 1970, essa raça se adaptou no decorrer de milhares de anos ao clima frio da Escócia: são cheias de pelos longos, chifres imponentes e as franjas para proteger os olhos de insetos e do clima. Além de tudo, são conhecidas pelo comportamento dócil e, claro, são super fotogênicas.
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Fonte: viagemeturismo





