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Descubra o significado da Síndrome de Stendhal em viajantes: a overdose de artes

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De repente, um corre-corre toma conta da Galeria da Academia, em Florença. Um homem começa a se sentir mal. Vendo-o com a mão no peito, o ar faltando, é como se os visitantes estivessem testemunhando um ataque cardíaco ao vivo diante do “David”, de Michelangelo. Mas não é o caso: tratava-se de uma reação emocional muito forte à obra impressionante diante de si, um quadro conhecido informalmente como “síndrome de Stendhal”.

A imprensa local afirma que episódios semelhantes acontecem cerca de vinte vezes por ano, e a crise é tão recorrente na cidade que às vezes é conhecida como “síndrome de Florença”. Até mesmo quem não chega a ter sintomas tão extremos relata que, ao ver alguma das maravilhas da própria Academia ou da Galleria degli Uffizi, o outro grande museu de arte da cidade, chegou a sentir que estava diante de um desmaio.

Galleria degli Uffizi, Florença, Toscana, Itália
Galleria degli Uffizi: séculos de história da arte podem tirar alguns visitantes do prumo (Álvaro Rotellar/Unsplash)

Há séculos, as ruas e galerias florentinas mobilizam o imaginário dos viajantes como um dos locais mais impressionantes da Itália – e do mundo – quando o assunto é a apreciação das artes. Não é casualidade que o próprio nome da tal síndrome de Stendhal faça referência a um texto do autor homônimo, escrito há mais de 200 anos.

O fenômeno claramente não é novo, o que torna ainda mais curiosa sua explicação: o “ataque” diante de obras de arte, apesar de ser embasado em inúmeros relatos ao longo dos séculos, não consta em nenhum livro médico como uma doença catalogada.

Síndrome de Stendhal existe mesmo?

Para entender melhor, é uma boa ideia regressar à origem dessa história toda. Stendhal é o pseudônimo do escritor francês Henri-Marie Beyle, que viveu entre os séculos 18 e 19 e é mais conhecido por seu romance O Vermelho e o Negro, de 1830. Alguns anos antes, em 1817, ele escreveu o seguinte sobre a viagem que fez à famosa cidade na Toscana:

“Eu estava já em uma espécie de êxtase pela ideia de estar em Florença e próximo aos grandes homens cujos túmulos eu acabara de ver. Absorvido na contemplação da beleza sublime, vi-a de perto, toquei-a, por assim dizer. Eu havia chegado àquele ponto de emoção onde se encontram as sensações celestiais proporcionadas pelas belas artes e os sentimentos apaixonados. […] a vida se exauria em mim, e eu caminhava com medo de cair”.

Galleria degli Uffizi, Florença, Toscana, Itália
“Primavera”, de Botticelli, na Galleria degli Uffizi: apreciar sem moderação e de preferência com o estômago forrado (Laura Lezza/Getty Images)

A descrição é de uma surpreendente precisão com os sintomas descritos por quem, atualmente, diz sofrer com a síndrome de Stendhal. Mas, apesar disso, você não vai encontrar essa condição nem no CID (a Classificação Internacional de Doenças), nem no DSM (o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). De fato, apesar de muitos estudos discutindo esse fenômeno tão antigo, esse diagnóstico não existe.

O que não quer dizer que as sensações sejam uma invenção. Em vez disso, pesquisadores apontam que o mais provável é que a tal síndrome se deva a uma combinação de fatores: por um lado, uma reação psicossomática ao que se está vendo; por outro, a combinação dessa emoção com questões fisiológicas relacionadas à própria viagem – como o cansaço, uma possível desidratação, insolação ou até mesmo uma crise de hipoglicemia causada por uma alimentação diferente, ou a falta dela.

Pode também ocorrer que a soma disso tudo sirva de gatilho para algum problema subjacente que você nem sabia que tinha, como alguma doença cardíaca que acaba se tornando mais perceptível diante das palpitações daquele momento.

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“Baco”, de Caravaggio, na Uffizi (//Reprodução)

Sem medo das artes

A “síndrome de Stendhal” está longe de ser algo inexplicável. Por sinal, para desmistificar de vez, é bom destacar que episódios do tipo não acontecem só em Florença, apesar de estarem mais associados à cidade: casos semelhantes já foram registrados em outros lugares que concentram algo que interesse muito à pessoa que está viajando, seja pelas artes ou por qualquer outra questão.

É possível sentir algo assim em Paris, em Atenas, em Roma… se você gosta muito de doramas, talvez sinta o coração bater mais forte e o ar faltar enquanto anda por uma rua de Seul. Como o próprio Stendhal escreveu, mais do que o lugar em si, era a “ideia de estar” ali que o fazia caminhar com medo de cair.

O fato é que casos do tipo não devem desencorajar ninguém de apreciar as artes, a história ou qualquer outro elemento fascinante em uma viagem para o exterior. O importante é saber dosar as emoções: se você está sentindo que vem aí uma “overdose” de estímulos, vá com calma, invista no “menos é mais”. E lembre-se de sempre andar por aí bem alimentado e hidratado, para não sair desfalecendo pela combinação das emoções com o típico descuido do viajante distraído com o próprio bem-estar.

Fonte: viagemeturismo

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