Suzana, que nega participação em irregularidades, relatou que a contratação da advogada Jaqueline Proença Larrea e a reformulação do organograma concentraram decisões estratégicas no topo da instituição, muitas vezes num fluxo de reuniões privadas que girava entre Rubens, o CEO Eroaldo de Oliveira, a contadora Maria Gladis e a jurista.
De acordo com a delatora, Jaqueline foi apresentada a Rubens ainda durante a formação da chapa que disputou a eleição interna de 2015 e passou a frequentar a cooperativa desde o início da gestão. Inicialmente contratada como pessoa física, ela teve o vínculo alterado para pessoa jurídica em contrato assinado em dezembro de 2017, após reestruturação do organograma conduzida por uma consultora contratada para implantar governança corporativa.
“Ela reformulou o organograma da empresa, e a Dra. Jaqueline, que era antes contratada, saiu da contratação de pessoa física e foi para a contratação de pessoa jurídica”, nos termos da delação.
Suzana afirmou que a mudança foi decidida por Rubens e comunicada em reunião de diretoria, ocasião em que o departamento jurídico passou a funcionar como assessoria diretamente subordinada ao presidente. Segundo ela, “nenhuma reunião acontecia sem” a participação de Jaqueline, nem o aval de Rubens.
Aponta ainda que, nesse mesmo período, o chamado núcleo responsável pelas demandas junto à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) foi transferido da diretoria de mercado para o setor jurídico, sendo ela própria trocada de setor.
Outra mudança relevante descrita foi a criação da figura do Chief Executive Officer (CEO), cargo ocupado por Eroaldo de Oliveira, que anteriormente já atuava como superintendente financeiro. Segundo Suzana, após a reestruturação aprovada em assembleia, o CEO passou a concentrar informações estratégicas da cooperativa, contando com apoio direto de analistas de dados, que ganhou espaço e assumiu funções de supervisão.
A delatora afirmou que o novo modelo restringiu o acesso a dados contábeis e operacionais, que passaram a ser disponibilizados apenas mediante autorização da alta gestão, e que o CEO passou a transitar deliberadamente por todas as diretorias, de modo que as atuações “engessaram”, sobretudo no que diz respeito à elaboração dos DIOPS (Documento de Informações Periódicas das Operadoras de Planos de Assistência à Saúde) à Agência Nacional de Saúde.
Conforme a denúncia do MPF, essa nova governança permitiu que Rubens, Suzana, Jaqueline, Eroaldo, Tatiana e a superintendente Ana Paula Parizotto tivessem domínio sobre as informações econômico-financeiras enviadas à ANS.
O órgão sustenta que dados foram manipulados por meio de omissões de passivos, inclusão indevida de ativos e descumprimento do regime de competência contábil, em desacordo com normas técnicas e resoluções da agência reguladora. As informações teriam sido apresentadas à ANS em sete ocasiões distintas entre setembro de 2022 e março de 2023.
Segundo a delatora, os fechamentos dos Diops eram caóticos. “Todo o fechamento de dióxido era caótico. Quando eu era diretora de mercado, o núcleo ANS estava dentro da diretora de mercado. Nesse período, houve uma reformulação do estatuto, e o núcleo ANS saiu da diretoria de mercado e foi um núcleo jurídico. Então, aquele primeiro momento em que ele estava na diretoria de mercado, eu sabia que era confuso. Era tenso”, pontuou.
Suzana também relatou que Ana Paula atuava como intermediária entre Eroaldo e a contadora Maria Gladis. A atuação seria para troca de orientações e ajustes em balancetes contábeis, especialmente sobre registro de despesas, receitas e contas fora do prazo.
Sobre o ambiente interno, a ex-diretora descreveu tensão durante períodos de fechamento contábil e reuniões relacionadas ao envio de dados regulatórios, embora tenha afirmado não ter conhecimento de comunicações formais da contadora à presidência contestando os registros.
A investigação aponta que, paralelamente às mudanças estruturais, contratos foram firmados com empresas que, segundo o MPF, não prestaram os serviços contratados. Entre eles, acordos com Alyander Bielik Rubio EIRELI e Tharine Rocha Arquitetura Interiores, além de uma operação com a Arché Negócios Ltda que liberou R$ 33 milhões em créditos e teria possibilitado desvio de quase R$ 1 milhão.
A denúncia também menciona simulações contratuais envolvendo o escritório jurídico de Jaqueline e a empresa de Eroaldo, além de relações comerciais com o grupo H. Bento.
Deflagrada em outubro de 2024, a Operação Bilanz cumpriu mandados de busca e apreensão e chegou a resultar na prisão dos investigados, posteriormente revogada pela Justiça. São alvos o ex-presidente Rubens Carlos de Oliveira Junior; Suzana Aparecida Rodrigues dos Santos; Jaqueline Proença Larrea; Eroaldo de Oliveira; Ana Paula Parizotto; e Tatiana Gráciele Bassan Leite.
Os ex-dirigentes são investigados por crimes como falsidade ideológica, estelionato por simulação contratual, estelionato por comissão fictícia, superfaturamento com aditivos irregulares, crime contra a economia popular, patrocínio simultâneo, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo o MPF, a estrutura administrativa implantada na gestão 2019-2023 teria sido utilizada para controlar fluxos financeiros e viabilizar o esquema de desvio de recursos da cooperativa.
Fonte: Olhar Direto






