Caso falassem, as tartarugas marinhas com certeza teriam muitas histórias para contar. Suas vidas, afinal, são longas e tomadas pelas grandes migrações. Nas jornadas sazonais de ida e volta entre o ponto no oceano onde se alimentam até o outro em que se reproduzem, alguns desses seres chegam a percorrer distâncias de quase 13 mil quilômetros.
Também por isso, é difícil estimar por quanto tempo elas vivem na natureza. Nossos melhores chutes apontam para uma expectativa de vida não muito distante da nossa – cerca de 60 anos, no caso das tartarugas-marinhas-comuns (Caretta caretta) –, enquanto uma espécie como a tartaruga-de-couro pode viver, em média, mais de 90 anos.
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São muitos anos, com muitas viagens e muita história. Porém, enquanto não ensinamos as tartarugas a falar, cientistas têm procurado maneiras mais engenhosas de descobrir tudo que elas têm a nos dizer – e, para alguns, as melhores pistas podem estar escondidas em suas carcaças. Inscritas nas escamas de seus cascos duros, as tartarugas marinhas podem guardar registros de suas vidas e dos oceanos pelos quais viajaram – tudo na forma de sinais químicos, que revelam detalhes sobre a dieta e os ambientes em que viveram.
“Esses cascos estão, na prática, registrando o estresse ambiental no oceano”, afirma, em nota, Bethan Linscott, pesquisadora da Universidade da Flórida que liderou um estudo recente sobre o tema. No artigo, publicado em janeiro pelo periódico Marine Biology, os pesquisadores analisaram os escudos das tartarugas usando técnicas de medição de radiocarbono emprestadas da arqueologia. “É quase como se fosse uma perícia forense de tartarugas marinhas. Nós conseguimos usar impressões digitais químicas preservadas em escamas para detectar mudanças ecológicas”.
As escamas, no caso, são as placas grossas e rígidas que formam o casco das tartarugas. O material delas é o mesmo de nossas unhas e cabelos, a queratina, que traz, em sua composição, informações químicas sobre o ambiente e a alimentação daquele animal. Além disso, a queratina também cresce em camadas – cada uma refletindo como as condições do momento em que foram formadas. Ao analisar todas essas camadinhas empilhadas, é como se os cientistas observassem páginas no diário de cada momento da vida da tartaruga.
Funciona assim: no estudo, os pesquisadores cortaram pequenos pedaços das escamas de 24 tartarugas, comuns (Caretta caretta) ou verdes (Chelonia mydas), que haviam morrido encalhadas na costa da Flórida, nos EUA. Esses pedaços, por sua vez, foram cortados em camadas ainda menores de 50 micrômetros (mais finas que um fio de cabelo) que foram datadas com base no radiocarbono – um isótopo do carbono.

Mas como isso funciona? Bem, para além de alguns modelos estatísticos bem complicados, o mais importante é entender que, na década de 1950, em plena Guerra Fria, a humanidade fez tantos testes nucleares que os níveis de radiocarbono na atmosfera e na água registraram um aumento súbito.
Uma consequência interessante disso foi que, ao observar os níveis de radiocarbono nas coisas, os cientistas agora tinham um ponto de referência na história para dizer o quão velho aquele material era. Assim, os pesquisadores foram capazes de estimar que, cada uma daquelas camadas de 50 micrômetros correspondia a algo entre sete e nove meses de crescimento.
Tendo desenhado essa linha do tempo, era hora de comparar as amostras das diferentes tartarugas, e entender o que esses padrões de crescimento poderiam revelar. Dentre outras coisas, eles contaram, também, seu lado de uma história bem específica: entre 2017 e 2019, as águas da Flórida passaram por um fenômeno natural chamado de “maré vermelha”. Nessa época, a proliferação intensa de uma microalga tóxica causou impactos significativos no ecossistema marinho, matando animais marinhos e diminuindo a quantidade de ervas-marinhas.
Isso também afetou o crescimento da queratina no casco das tartarugas – e tudo ficou guardado nas escamas. As neurotoxinas liberadas pelas microalgas, assim como a diminuição do alimento disponível (no caso, as ervas-marinhas), prejudicaram o crescimento da queratina das placas.
Agora, ao entender os impactos que o ambiente pode ter no desenvolvimento dos cascos, os cientistas podem desenvolver novas maneiras de proteger essas espécies. É uma carta a mais na manga para proteção desses animais que, pela natureza viajante, são tão difíceis de estudar.
Fonte: abril





