Não há nada mais interessante do que observar a evolução dos tempos. Se tivéssemos hibernado nos últimos quarenta anos, ficaríamos surpresos, espantados e ao mesmo tempo deslumbrados com a mudança ocorrida num espaço temporal tão pequeno, teríamos deixado para trás o telefone fixo, substituindo-o pelo smartphone. Isso apenas uma das inúmeras mudanças nesse interregno.
É difícil dizer se tudo melhorou ou não. Perdemos a tranquilidade luminosa, o sossego sonoro, a proximidade face a face, o contato físico mais constante. Ganhamos poluição de luz e som, distanciamento face a face e do contato físico. As telas vieram para facilitar nossa comunicação, aproximar pessoas distantes, mas terminaram nos distanciando mais fisicamente e fazemos delas nossa principal companheira no dia a dia.
Os estímulos são constantes e cada vez maiores em nossa vida, com muitas e diferentes informações A vida exige de cada um de nós mais produtividade para enfrentar a competição desairosa dos tempos modernos. Precisamos produzir muito e nos mexer pouco. De material, quase sempre, apenas uma pequena mesa de trabalho, uma cadeira, um laptop ou um smartphone. E para acompanhar, bastante café ou energéticos para que o cansaço não impeça a produtividade que nos é exigida ou que nós mesmos nos exigimos.
Em meio a tudo isso, é óbvio que precisamos cuidar da saúde, não podemos esquecer do check-up médico, atividade física diária ou quase diária, alimentação saudável e noites de sono com quantidade de horas suficiente e boa qualidade. A saúde mental, por seu lado, pede socorro. Precisamos cuidar da mente tanto ou mais do que da saúde física. A sobrecarga que damos ao nosso aparelho psíquico não é grande, é enorme. São muitas metas, muita pressão, muitos estímulos, muita competição, muito energético, tudo agravado com poucas pausas na nossa jornada diária, poucos movimentos, pouco lazer, pouco momento com familiares e amigos e poucas horas de sono.
Como combater tudo isso? Que bom seria se pudéssemos por algum momento voltar à tranquilidade do passado, de apenas algumas décadas atrás. Eis que surge uma ideia, uma proposta, algo capaz de atenuar a vida desenfreada dos novos tempos, o Journaling, que nada mais é do que a prática de escrever um diário, algo comum no passado recente. A ideia é escrever, de preferência usando caneta e papel não sendo impeditivo digitar, até mesmo porque o costume com as máquinas já é tão grande que a digitação de hoje é tão rápida quanto a escrita pretérita. Deposito mais valor à caneta e ao papel porque desse jeito não apagamos os erros, apenas fazemos um risco sobre eles e, futuramente, quando voltamos a ler aquilo que registramos, de alguma forma eles podem nos ser importantes.
A prática do Journaling deve ser regular, não necessariamente linear, mas sempre de forma reflexiva. É um método simples, acessível a todos e acredite com grandes benefícios ao bem-estar emocional. É um espaço para múltiplos sentimentos, como um desabafo, um pedido de perdão, agradecimentos, metas a cumprir, reflexão de sonhos ou de múltiplos pensamentos que nos passam pela cabeça a todo instante. Nesses registros, emoções difíceis podem ser elaboradas.
Colocamos no papel o que está represado na mente, partimos do campo interno para o campo externo, o que nem sempre é fácil daí a necessidade de fazer disso, se possível, uma prática diária. Em algum tempo veremos claramente os benefícios dessa prática, haverá mais organização dos nossos pensamentos, inclusive daqueles carregados de emoções complexas e angustiantes. O registro nos poupa de repetir infinitamente pensamentos negativos, uma vez que nos distanciamos emocionalmente daquilo que é caótico, quando o transferimos, de forma reflexiva, para o papel.
O registro propicia a viagem ao nosso passado, refletir sobre ele e descarregá-lo na página que destinamos a ele. Isso, por si só, favorece o autoconhecimento e a resolução de problemas; diminui o estresse e melhora a saúde mental no mundo moderno que, com tanto estímulo, joga contra ela. É claro que a prática do Journaling não substitui o atendimento médico e psicológico, quando o sofrimento mental já está prejudicando nosso funcionamento diário na vida pessoal ou social, mas seu benefício é, sem sombra de dúvida, considerável para todos nós. Experimente reservar vinte a trinta minutos por dia para fazer desses dois objetos — caneta e papel — seus aliados em prol de sua saúde mental.
Fonte: primeirapagina






