“É pedra, papel e tesoura!”, pulou da cadeira o biólogo Barry Sinervo. Três décadas atrás, ele e seu colega Curtis Lively se debruçavam entre xícaras de café e um amontoado de dados sobre lagartos coloridos quando, num instante de eureca, o berro ressoou pela cafeteria – e cravou a resposta para uma pesquisa de cinco anos. Os dois americanos, então pesquisadores da Universidade de Indiana, investigavam os hábitos peculiares da espécie Uta stansburiana, cujos ciclos de acasalamento e reprodução mais pareciam seguir as regras de um jogo.
Entre 1990 e 1995, os herpetologistas monitoraram os répteis nas colinas áridas de Merced, Califórnia. O que mais chamava atenção era a variação entre as cores que estampavam suas escamas no começo de cada época de acasalamento – haviam lagartos laranjas, azuis e amarelos. Não apenas isso: cada cor parecia trazer consigo comportamentos competitivos bem distintos, que, no fim das contas, formavam um ciclo, onde uma cor tirava vantagem da outra.
Sob o aroma do café, o que os pesquisadores notaram – como relatou Lively ao New York Times – era que as regras desse ciclo seguiam o mesmo roteiro de uma partida de jokenpô. Isto é, numa competição entre três “adversários”, cada participante ganha de um e perde do outro.
Relembrando, a brincadeira funciona assim: dois jogadores contam dois tempos, e, no terceiro, fazem uma jogada sincronizada, na qual escolhem entre três opções – pedra, papel e tesoura. Pedra esmaga a tesoura, tesoura corta o papel, papel envolve a pedra, e por aí vai. Para nós humanos, a graça é tentar adivinhar o que o seu adversário vai jogar. Mas, para os lagartos, o que está em jogo é a própria proliferação dos seus genes.
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Em 1996, a dupla divulgou o resultado de suas investigações: um modelo matemático explicando como funciona essa competição.
Esse tipo de elaboração, aliás, não é algo estranho às ciências biológicas: desde 1973, quando o biólogo John Maynard Smith experimentou pegar emprestado conceitos da teoria dos jogos (que já havia logrado alguns avanços dentro das ciências econômicas), é comum ver biólogos tentando explicar matematicamente o comportamento dos organismos, dentro da lógica de um grande jogo.
Passados anos de sua epifania na cafeteria, Sinervo nunca largou mão dos lagartos. O biólogo continuou de olho nesses bichinhos enquanto professor da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, até sua morte, em 2021.
Mas um mistério continuou em aberto: o que exatamente fazia com que os Uta stansburiana tivessem cores e comportamentos tão distintos. A resposta não estava no artigo de 1996 – nessa época, não existia a tecnologia necessária para o sequenciamento do genoma dessa espécie, etapa essencial para entender quais genes são responsáveis por cada variação nas características dos organismos.
Essa conclusão só veio agora, trinta anos depois, ao cabo de uma pesquisa de treze anos liderada por um dos alunos de Sinervo, o biólogo Ammon Corl. O artigo publicado na revista Science no primeiro dia deste ano é fruto de um caminho tortuoso: mesmo em 2012, quando os primeiros esforços para o estudo foram mobilizados, as tecnologias de sequenciamento ainda não permitiam uma imagem nítida o suficiente para que as variações genéticas entre os lagartos coloridos ficassem visíveis.
O sequenciamento do genoma desses animais nunca antes havia sido feito, e só logrou resultados legíveis e conclusivos com o advento de técnicas inéditas. A diferença, afinal, pode estar em um único gene, que regula a produção de uma única proteína: a SPR, que, além de formar pigmentos, também é responsável pelos neurotransmissores do cérebro.
As regras do jogo
Para entender o jogo dos lagartos, é preciso primeiro conhecer as peças do tabuleiro.
Mais agressivos de todos são os machos laranjas, que possuem os maiores níveis de testosterona. Eles acumulam para si territórios mais amplos e mais fêmeas, e ganham fácil na briga com os machos azuis, conquistando suas parceiras e fazendo mais laranjinhas.
Os azuis, por sua vez, são defensivos, e ficam de guarda sobre suas fêmeas. A vantagem, nesse caso, é contra os amarelos, que têm dificuldade de capturar suas parceiras.
Lagartos amarelos esses que, ainda menos agressivos, conduzem toda a talaricagem de maneira silenciosa e sorrateira, esgueirando-se pelos grandes territórios de lagartos laranjas e fazendo filhotes com suas parceiras.
Nesse ciclo, cada personagem tem sua vez, na qual as populações com sua cor serão as mais numerosas. Por um ou dois anos (o mais extenso de todos), a primazia fica com os laranjas. Depois, eles são ultrapassados pelas populações de amarelos. Esses logo perdem a liderança para os azuis – e assim segue.
Segundo o artigo de 2016, o desenvolvimento da coloração e do comportamento pode passar por explicações genéticas e territoriais. A cor laranja, por exemplo, é uma característica recessiva, e lagartos dessa cor produzem bem menos proteínas SPR (o que pode afetar tanto no tom das escamas quanto na agressividade).
Porém, lagartos azuis e amarelos são geneticamente idênticos, e o estudo não crava uma explicação para a variação entre esses dois tipos. Uma hipótese apresentada pelos cientistas é que, uma vez dominando seus próprios territórios, os sorrateiros lagartos amarelos podem azular, uma espécie de signo que serve para afastar adversários.
Fonte: abril






