A maioria das plantas obtém os nutrientes necessários para sobreviver por meio da fotossíntese, utilizando água, luz solar, gás carbônico e nutrientes do solo, como aprendemos nas aulas de biologia do ensino médio. As plantas carnívoras, por outro lado, possuem um comportamento singular: elas se alimentam de presas animais, principalmente insetos e aracnídeos.
A planta carnívora mais famosa é a Dionaea muscipula, com seu formato clássico de interior rosa-avermelhado e exterior verde. Ela consegue atrair animais e, em seguida, capturá-los como uma mandíbula, em uma velocidade incomum para plantas. O animal morre algumas horas depois e permanece preso por dias, enquanto a planta digere lentamente seus nutrientes.
Já é conhecido pela ciência que esse comportamento existe como uma estratégia de sobrevivência. As plantas carnívoras costumam viver em solos muito pobres em nutrientes e recorrem aos animais como uma fonte extra de alimentação. Ainda assim, elas continuam realizando fotossíntese.
Como exatamente esse mecanismo de “mandíbula” funciona ainda não foi totalmente desvendado pela biomecânica. Um novo estudo, publicado em 11 de junho na revista científica Science, encontrou novas pistas.
A pesquisa realizou um experimento em que os cientistas cortaram as armadilhas em várias tiras, para ver se isso impediria que ela conseguisse se fechar. Mesmo assim, a folha continuou se dobrando, embora de forma mais lenta.
Com isso – e outros testes – os pesquisadores perceberam que o fechamento da armadilha, que acontece em poucos segundos sem o auxílio de músculos, não é um movimento único. Na verdade, ele ocorre em duas etapas diferentes.
Primeiro, a folha passa por uma flexão ativa. É justamente nesse momento que ela começa a se curvar de forma leve e gradual para dentro. Depois ocorre o fechamento propriamente dito, quando as duas partes da armadilha se unem de forma repentina.
Nessa segunda etapa acontece algo curioso: a planta carnívora amolece as paredes celulares de sua superfície externa, tornando-a mais elástica. Dessa forma, ela expande essa região, fazendo com que a armadilha feche. Esse mecanismo é acionado quando um animal pousa sobre a planta e toca os filamentos sensíveis localizados na parte interna.
A planta basicamente consegue ajustar suas propriedades físicas de forma dinâmica – e exatamente no momento certo. Segundo o estudo, trata-se da modulação de parede celular mais rápida já registrada em plantas.
Para chegar a essa conclusão, a equipe utilizou uma pequena sonda para medir a rigidez da parte externa e da parte interna da armadilha, tanto antes quanto depois do fechamento. Enquanto a parede celular interna praticamente não sofreu alterações, a externa perdeu cerca de 40% de sua rigidez em apenas um segundo.
Esse mecanismo de amolecimento das paredes celulares já é conhecido no mundo vegetal e está diretamente relacionado ao crescimento das plantas. Assim, as plantas carnívoras parecem ter aprimorado evolutivamente uma estratégia que já existia para utilizá-la em benefício próprio.
Quebrando uma antiga hipótese
Os autores também avaliaram a hipótese de que o movimento das plantas carnívoras seria impulsionado pelo fluxo de fluidos dentro da folha, conforme acreditam alguns pesquisadores.
Nesse modelo, a água se deslocaria internamente, expandindo um dos lados da planta e provocando o fechamento da armadilha. Algo semelhante acontece com as dormideiras, aquelas pequenas plantas cujas folhas se fecham quando são tocadas.
Para testar a ideia, os pesquisadores mapearam o deslocamento da água dentro da Dionaea. Os resultados, porém, não foram favoráveis à hipótese.
A água se move lentamente pela planta carnívora, levando entre 30 e 150 segundos para percorrer seu comprimento. Isso não seria suficiente para explicar um fechamento tão rápido.
Fonte: abril





