Imagina não poder comer fora de casa, não poder compartilhar talheres, pratos, copos e ter que olhar os rótulos de todos os produtos industrializados? É assim que vivem muitas pessoas com doença autoimune causada pela intolerância ao glúten, principal componente do trigo. Há 14 anos a publicitária Amanda Santos, de 24 anos, enfrenta uma rotina altamente restritiva, que se estende ao restante da família.
Amanda faz parte de um grupo de mais de 2 milhões de brasileiros considerados celíacos, segundo a Federação Nacional das Associações de Celíacos (Fenacelbra).
“Eu descobri a doença celíaca aos 10 anos, por conta de uma série de fatores, o principal foi porque eu não estava crescendo, eu tinha muitas manchinhas no dente, então a gente procurou vários médicos, para entender o que estava acontecendo, então a gente conheceu a doutora Lana, que fechou todo o meu diagnóstico, por meio de exames de sangue e uma endoscopia com biópsia que faz parte de todo o processo para fechar o diagnóstico”, conta.
Para Amanda, o principal desafio é a contaminação cruzada, que é quando um utensílio, talher ou objeto já teve contato com o trigo e, mesmo após lavado, continua com partículas do cereal, o que pode ser prejudicial para os intolerantes. Foi devido a essa contaminação que ela precisou trocar todos os eletrodomésticos da casa.
“Eu já passei por contaminação cruzada, principalmente quando eu não entendia muito bem como funcionava. Aqui em casa mesmo lá no início, a gente comprava pão, para o restante da minha família e aí a gente usava a mesma margarina para mim e para eles, e ali já era um risco de contaminação cruzada. Depois de muito tempo a gente foi estudando, entendendo melhor, aí de fato a gente compreendeu que não podia”, relata.
Por causa desse mesmo tipo de intolerância, Camila Taurine, de 29 anos, decidiu abrir o próprio negócio com produtos livres de glúten. Formada em gastronomia e ciência de alimentos, ela descobriu durante as aulas a intolerância ao glúten.
“Faz 7 anos que recebi o diagnóstico. No início foi bem difícil para mim, porque eu sabia o que era comer uma pizza, ir a um restaurante, e eu mexia com trigo todo dia, então eu levei dois anos de fato para aceitar meu diagnóstico. Eu comecei a estudar cada vez mais, não para me atender somente, mas para atender todas aquelas famílias que passam por isso, de querer comer num lugar à noite e em Cuiabá não tem um lugar seguro para ser livre 100%”, conta.
Ela explica que, além de receber um diagnóstico difícil, os celíacos enfrentam a dificuldade de sair de casa para se alimentar, devido aos preços elevados e à falta de segurança. Por isso, para abrir a espetaria 100% segura, foram necessários diversos procedimentos.
“Primeiro eu comecei a estudar os fornecedores. Por exemplo, a mandioca, é de um fornecedor aqui de Mato Grosso, que encontrei após viajar 70 km para ver onde ele planta mandioca, onde ele descasca, para poder garantir um ambiente seguro”.
“A carne eu tenho que comprar à vácuo para garantir segurança direto da fábrica. O arroz, batata frita, shoyu, tempero, tudo eu tenho as especificações técnicas. Eu tive que mandar e-mail para fábrica me informar sobre a rotulagem correta do alimento. Eu tenho uma margem de fornecedores menor, mas que garantem o alimento 100% seguro”, conta.
Além dos cuidados no preparo do alimento, foram necessários novos utensílios de cozinha, eletrodomésticos e até mesmo as mesas.
“Quando eu decidi abrir o negócio eu tive que fazer um investimento alto para comprar tudo novo, como cadeiras, forro de mesa, balcão, porque eu não posso usar nada usado. Como é uma coisa muito séria, eu preferia investir e garantir para os meus clientes”, explicou.
A nutricionista e especialista em gastroenterologia, Fernanda Branco, explicou que a sensibilidade ao glúten pode apresentar de diversas formas.
“Pacientes sensíveis ao glúten, podem apresentar dores de cabeça, cansaço, sonolência, alterações gastrointestinais, desde diarreia, constipação. É muito comum, apresentar bolinhas vermelhas no braço, principalmente quando o paciente faz o consumo exagerado do glúten”, explica.
Além dos exames e da biópsica, o fator hereditário também é determinante para fechar o diagnóstico. “O paciente celíaco já é algo hereditário, já tem um fator genético, e por isso, fazer o diagnóstico não é tão simples”, relata.
“Se a pessoa consome glúten, e tende a ter estufamento, gases, percebe a presença dessa dermatite, o primeiro passo é procurar um médico, um gastroenterologista para fazer exames. Dependendo é importante a gente pensar num protocolo chamado Low Food Maps, que a gente faz a redução de todos os alimentos fermentáveis e depois a gente vai reintroduzindo, porque às vezes o paciente acha que o desconforto gástrico está relacionado ao glúten, mas às vezes é outro alimento”, finaliza.
Fonte: primeirapagina






