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Desconfiança nas urnas eletrônicas aumenta após censura judicial a críticos: entenda o impacto

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A expressão “efeito Streisand” é usada por pesquisadores de comunicação para definir um fenômeno social comum na internet: às vezes, o esforço para censurar um discurso acaba tendo impacto reverso e servindo para dar publicidade a ele. No Brasil, esse pode estar sendo o resultado do empenho do Judiciário em impedir críticas ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas.

Uma pesquisa Genial/Quaest da semana passada mostrou que 43% dos brasileiros – quase metade da população – discordam da afirmação “as urnas eletrônicas são confiáveis”. Para comparação, em maio de 2022, em um levantamento do mesmo instituto, eram 22% os brasileiros que afirmavam não confiar nas urnas.

No intervalo de tempo entre as duas pesquisas, houve uma sucessão de medidas do Judiciário brasileiro para definir que a suspeita sobre o sistema eleitoral é não só ilícita, mas um crime contra a democracia. Entre as muitas decisões nesse sentido, um ex-presidente ficou inelegível até 2030 por ter levantado questionamentos sobre o sistema eleitoral em uma reunião com embaixadores, e o Supremo Tribunal Federal condenou a sete anos de prisão, como “golpista”, um engenheiro que pedia maior transparência sobre as urnas.

Durante as eleições de 2022, houve uma onda de censura a postagens críticas sobre as urnas nas redes sociais. O silenciamento funcionou na superfície: parlamentares que antes levantavam suspeitas sobre o sistema eleitoral, por exemplo, têm sido mais cautelosos em expressar visões nesse sentido, diante da ameaça de perda de mandato. No sentimento real da população, contudo, a desconfiança só aumentou.

“É claro que, quando você proíbe um assunto de ser discutido, as pessoas vão desconfiar da conclusão prevalente sobre o assunto”, afirma o especialista em liberdade de expressão Pedro Franco, mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio e em Estudos Interdisciplinares pela Universidade de Nova York.

“Imagina, por exemplo, se uma universidade proíbe discutir certa teoria. ‘A teoria X foi comprovada, não se pode mais discuti-la’. As pessoas vão desconfiar. Como assim, não pode mais discutir? Não pode mais tentar falsificar a teoria, para ver se a teoria fica de pé?”, complementa.

Para Franco, o problema de credibilidade de que o Supremo padece acaba agravando a desconfiança no caso específico das urnas. “Quando é uma instituição em que as pessoas não confiam – como é obviamente o caso do STF, uma instituição cuja credibilidade se deteriora cada vez mais –, é praticamente garantia que, em relação a qualquer assunto cuja discussão eles proíbam, as pessoas vão, quase que por reflexo, ficar ainda mais curiosas”, observa.

“A desconfiança, o efeito Streisand, já é uma coisa natural em circunstâncias normais de temperatura e pressão. Quando é uma instituição em que as pessoas não confiam, isso fica ainda mais amplificado.”

Censurado por levantar mera dúvida sobre urnas, Marcos Cintra diz que não há surpresa na pesquisa

O economista Marcos Cintra foi um dos censurados em 2022 por manifestar desconfiança sobre a segurança das urnas em uma sequência de postagens no X.

Seu caso se destaca dos outros porque ele não fez nenhuma crítica direta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou ao Poder Judiciário, nem sequer apontou taxativamente que havia fraude. Só levantou dúvidas.

Nos tuítes, ele dizia que as questões levantadas sobre as urnas mereciam respostas, porque havia resultados improváveis, como Lula ter 100% dos votos em centenas de urnas e Bolsonaro não ter 100% em nenhuma urna.

“Acredito na legitimidade das instituições. Não admito que o TSE seja cúmplice, no caso de descobrirem algum bug no sistema. Mas, sim, se tornará cúmplice se não se debruçar sobre esses fatos e esclarecer tudo”, afirmou.

À Gazeta do Povo, ele diz que não há surpresa na pesquisa que revela a queda de confiança nas urnas após a onda de censura sobre o assunto. “Quem se comporta dessa maneira não deve se surpreender, pois está estimulando e até potencializando desconfianças”, comenta.

“É obrigação do setor público ir ao limite do possível e, como disse, estatisticamente há margens para questionamentos, como eu fiz”, acrescenta.

Para ele, “a inviolabilidade do processo eleitoral precisa ser atestada e auditada no limite das possibilidades técnicas”. “A recusa do TSE em permitir a aplicação de mecanismos mais robustos contra a fraude, como o voto impresso como backup do voto digital, deixa suspeitas do porquê“, diz.

“É impossível, logicamente, provar que as urnas são invioláveis, disso todos sabemos. Mas é possível demonstrar que, nos casos levantados por mim, haveria menos possibilidades de fraude com voto impresso. Portanto, por que não ir até a fronteira do possível para dirimir e eliminar essa dúvida, que é estatisticamente justificável?”, questiona.

Ainda assim, para ele, não é possível “acusar o TSE de dolo ou má-fé”. “Mas posso acusá-lo de não ter avançado ao limite do possível para eliminar as possibilidades de fraude. O mundo inteiro usa voto eletrônico com backup físico… Por que não fazemos aqui também? Isso é democracia, onde convivem poder e accountability. O primeiro sem o segundo lança suspeitas.”

Dados das pesquisas

A pesquisa Genial/Quaest de maio de 2022 foi realizada pelo instituto Quaest e contratada pelo Banco Genial. Foram ouvidos 2.000 eleitores entre os dias 5 e 8 de maio de 2022 em todas as regiões do país. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o intervalo de confiança é de 95%. O levantamento foi registrado no TSE, sob o protocolo BR-01603/2022.

A pesquisa Genial/Quaest mais recente foi realizada de 5 a 9 de fevereiro de 2026, com entrevista de 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 120 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e índice de confiabilidade de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o nº BR-00249/2026.

Fonte: gazetadopovo

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