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Descoberta de réptil fóssil reforça ligação histórica entre Brasil e África

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  • Durante uma saída de campo realizada em maio de 2025 no município de Dona Francisca, localizado no território do Geoparque Quarta Colônia UNESCO, no Rio Grande do Sul, nossa equipe de paleontólogos do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Universidade Federal de Santa Maria (CAPPA/UFSM) identificou ossos fossilizados de um réptil distinto daqueles até então conhecidos para a região.

    Com cerca de 240 milhões de anos, datados do Período Triássico, os restos pertenciam a uma nova espécie, denominada Tainrakuasuchus bellator, cujo nome pode ser traduzido como “crocodilo guerreiro de dente pontiagudo”. Uma análise do grau de parentesco indicou que seu parente mais próximo é a espécie Mandasuchus tanyauchen, descoberta na Tanzânia, no continente africano.

    Esse parentesco pode parecer improvável, uma vez que a América do Sul e a África estão separadas pelo Oceano Atlântico. Mas não é algo difícil de se imaginar quando lembramos que os continentes estavam unidos no momento em que essas espécies existiram.

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    Infográfico de Tainrakuasuchus bellator.
    (Caio Fantini, Rodrigo Temp Müller, Mauricio Garcia/Reprodução)

    Animais pré-históricos famosos

    Os dinossauros são, sem dúvida, os animais pré-históricos mais famosos. Isso torna difícil imaginar a Era Mesozoica — entre 251 e 66 milhões de anos atrás — sem a presença desses répteis. No entanto, eles nem sempre existiram ao longo dessa era e, durante seus primeiros passos, eram apenas um entre muitos grupos de organismos que dominavam os ecossistemas terrestres.

    Os primeiros dinossauros surgiram há cerca de 240 milhões de anos, durante o Período Triássico. Os ambientes terrestres eram ocupados por uma grande diversidade de répteis, muitos deles pertencentes à linhagem conhecida como Pseudosuchia, que mais tarde deu origem aos jacarés e crocodilos atuais.

    Naquele momento, os continentes ainda estavam unidos em um único supercontinente, a Pangeia. No interior dessa vasta massa continental, estendia-se um enorme deserto, fazendo com que a maior parte da vida se concentrasse nas regiões periféricas, mais úmidas.

    Dentre as diversas linhagens de répteis que se espalhavam pela Pangeia, o grupo dos pseudossúquios destacou-se por sua grande diversidade de formas, que variavam desde animais pequenos e quadrúpedes até formas imensas, com o corpo revestido por couraças ósseas, ou predadores bípedes que lembravam superficialmente os dinossauros.

    No Brasil, há um importante registro de pseudossúquios dessa idade, escavados em sítios fossilíferos localizados no Rio Grande do Sul. Até o momento, são conhecidas pouco mais de dez espécies desse grupo na região, variando desde formas com menos de 1 metro de comprimento até animais que alcançavam cerca de 7 metros.

    Ainda assim, por se tratar de um grupo extremamente diverso, muitas linhagens permanecem raras no registro fóssil brasileiro. É nesse contexto que se insere o recente achado de Tainrakuasuchus bellator, publicado no periódico científico Journal of Systematic Palaeontology.

    Fotografia dos Fóssil de Tainrakuasuchus bellator.
    (Rodrigo Temp Müller/Reprodução)

    Um único indivíduo da espécie

    Os ossos que encontramos em Dona Francisca correspondem a partes da mandíbula, da coluna vertebral e da cintura pélvica. Após a coleta dos fósseis no local, eles foram transportados para o laboratório, onde passaram por um processo que buscou remover a espessa camada de rocha que circundava cada elemento.

    Esse procedimento de limpeza exige cuidado e paciência, mas é fundamental para que todas as feições dos ossos sejam reveladas. Durante essa etapa, utilizamos ácidos, resinas, marteletes pneumáticos e bisturis. As regiões que exigem maior cuidado são preparadas com o auxílio de lupas.

    Em uma etapa subsequente do estudo, comparamos os fósseis com os de outros répteis semelhantes, tanto da mesma região do Rio Grande do Sul quanto de outras partes do mundo. A análise detalhada das características dos materiais recuperados nos permitiu constatar que se tratava dessa nova espécie.

    Fotografia dos Fóssil de Tainrakuasuchus bellator.
    (Rodrigo Temp Müller/Reprodução)

    O Tainrakuasuchus bellator teria cerca de 2,5 metros de comprimento, deslocava-se sobre quatro patas e apresentava uma dieta carnívora. Entretanto, é possível que indivíduos da espécie tenham atingido tamanhos ainda maiores, uma vez que, até o momento, há fósseis de apenas um único indivíduo.

    A mandíbula delgada e o pescoço relativamente longo sugerem que o animal era capaz de realizar movimentos ágeis para abocanhar presas, utilizando seus dentes adaptados para dilacerar carne.

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    Embora outras espécies de pseudossúquios ocorram no registro fóssil da região em que a nova espécie foi descoberta, seu parente mais próximo está no continente africano. E tanto o Tainrakuasuchus bellator brasileiro quanto o Mandasuchus tanyauchen africano viveram aproximadamente no mesmo momento (cerca de 240 milhões de anos atrás).

    Essa nova espécie não é o único componente da fauna dessa idade compartilhado com o continente africano. Ambos os continentes também apresentam registros de animais da linhagem que deu origem aos mamíferos, que são fortemente aparentados entre si.

    Outro registro importante compartilhado entre os dois continentes é o de precursores dos dinossauros. Tanto em depósitos do continente africano quanto nos mesmos que revelaram o Tainrakuasuchus bellator no Brasil, há um número crescente de fósseis de animais diretamente posicionados na linhagem que deu origem aos dinossauros.

    Fósseis como Asilisaurus kongwe, da Tanzânia, e Gondwanax paraisensis, do Brasil, mostram que, embora os dinossauros ainda estivessem dando seus primeiros passos, eles já estavam presentes nessas faunas dominadas por precursores dos jacarés e crocodilos.

    Assim, a descoberta de Tainrakuasuchus bellator reforça a ideia de que as faunas do Brasil e da África compartilhavam uma história evolutiva comum, com ecossistemas semelhantes e linhagens aparentadas vivendo em regiões que hoje se encontram separadas. Isso é particularmente interessante quando consideramos que os dinossauros estavam surgindo em meio a esses ecossistemas complexos, que não eram exclusivos de uma única área, mas se distribuíam por diferentes regiões da Pangeia.

    Fonte: abril

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