Mesmo com uma determinação judicial, a demolição da fachada da antiga Gráfica Pepe, que estava prevista para esta quinta-feira (12), foi adiada mais uma vez. Com o aumento no volume de chuvas, partes da estrutura do prédio começaram a ruir e apresentar sinais de que podem desabar a qualquer momento. A medida foi indicada após vistorias técnicas apontarem comprometimento na estrutura do imóvel.
Nesta quinta-feira, uma equipe da Energisa, concessionária responsável pelo fornecimento de energia na capital, chegou a ir até o local para realizar a interrupção da rede elétrica, etapa considerada essencial para o início da demolição. No entanto, o serviço também foi suspenso.
Enquanto o impasse permanece, moradores da região relatam medo e insegurança diante da falta de uma solução concreta para o problema. Na última segunda-feira (9), o Museu da Imagem e do Som (MISC) chegou a ser fechado por tempo indeterminado por conta do risco.
Em entrevista ao Primeira Página, a confeccionista Euzeni Rezende, de 64 anos, que mora na casa ao lado do terreno da antiga gráfica há mais de 15 anos, conta que nos últimos meses tem vivido com medo diante da situação do prédio.
“O poder público precisa tomar uma providência, e rápido. A situação é tão iminente que aquilo ali pode cair a qualquer momento, e eu não entendo por que estão demorando tanto para tomar uma decisão. Está iminente que vai cair a qualquer hora e pode cair em cima da rede de alta tensão, causar um curto e até queimar os meus aparelhos domésticos”, contou a moradora.
Segundo Euzeni, as estacas que escoram a estrutura com risco de queda estão empurrando parte do prédio contra o muro de seu terreno. No local, já é possível observar rachaduras na residência da confeccionista.
“O meu muro vai acabar caindo, porque está sendo forçado. Eles colocaram essas estruturas para segurar e não cair para a rua, mas acabou empurrando para o meu terreno. Também tem a questão de insetos, baratas e ratos. O que eu peço é que o poder público tome providências”, concluiu Euzeni.
Impasse judicial
Nessa quarta-feira (11), a Justiça de Mato Grosso determinou que a Prefeitura de Cuiabá realizasse intervenções emergenciais em até 24 horas na estrutura comprometida.
A determinação foi proferida pelo juiz Emerson Luis Pereira Cajango, da Vara Especializada do Meio Ambiente, no âmbito de uma ação movida pelo Ministério Público de Mato Grosso.
Da decisão judicial, duas medidas já foram executadas: o escoramento da estrutura e o isolamento da área. Entretanto, o desmonte controlado das partes com risco de queda ainda segue indefinido.
O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Urbano, José Afonso Portocarrero, deve se reunir com o Ministério Público do Estado na tarde desta quinta-feira (12) para avaliar quais serão os próximos passos da administração municipal.
Caso a decisão não seja cumprida, a Justiça fixou multa diária de R$ 10 mil, limitada inicialmente ao valor de R$ 500 mil.
Convivendo com o medo
Enquanto a situação não é resolvida, Wilson Sampaio, de 61 anos, que mora em frente à fachada da antiga gráfica, relata o medo de viver diante do risco de desabamento do prédio. O morador conta que outras equipes da Energisa já estiveram no local anteriormente, mas a demolição acabou sendo adiada em todas as ocasiões.
“Se dá uma ventania e aquilo cai, o prejuízo vai ser de quem? De nós mesmos. Do jeito que está, pode derrubar até uns três postes aqui. Toda hora aparece alguém dizendo que vai desligar a rede, fica duas horas aqui e não resolve nada. Está faltando alguém com competência para dizer: ‘vamos derrubar e pronto, acabou’. Ou estão esperando cair na cabeça de alguém?”, relatou Wilson.
Perda da identidade histórica
A demolição parcial da fachada também levanta preocupação sobre a preservação do patrimônio histórico da cidade. Para a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Mato Grosso, Ana Joaquina da Cruz Oliveira, a perda de parte da estrutura representa também a perda de informações históricas.
“Há, sim, a perda de informações do patrimônio. Querendo ou não, você está perdendo parte de um bem que é coletivo, que é patrimônio cultural brasileiro”, comentou a superintendente.
Segundo ela, além da intervenção emergencial para garantir a segurança da população, o órgão mantém um processo administrativo para apurar responsabilidades pela deterioração do imóvel.
“Quando você deixa de conservar esse bem, está causando dano a um patrimônio que é coletivo. Além da ação emergencial, existem sanções previstas”, complementou Ana.
Fonte: primeirapagina






