Em uma elevação de mais ou menos 40 km de diâmetro na região de Pilbara, nos desertos da Austrália Ocidental, os remanescentes de uma antiga cratera denunciam o lugar onde, éons atrás, um meteorito se chocou contra a Terra.
Tratam-se de estilhaços, fragmentos de rocha que, nas palavras do geólogo Chris Kirkland, são “um raro vislumbre dos processos violentos que moldaram a antiga Terra”. De acordo com novas medições dos fragmentos rochosos, o tal choque teria acontecido há mais de 3 bilhões de anos, naquele que foi o impacto de meteorito mais antigo de que se tem registro no planeta.
Em estudo lançado nessa terça (23), o grupo de pesquisadores da Universidade de Curtin, liderado por Kirkland, divulgou as estimativas mais precisas feitas até então sobre a idade do impacto de North Pole Dome, descrito pela primeira vez no começo de 2025. Escrevendo no periódico Geology, os autores datam que o evento ocorreu há cerca de 3,02 bilhões de anos, na era mesoarqueana.
Nesse período, a superfície terrestre ainda consistia quase inteiramente de oceanos, e o planeta era alvo do bombardeio constante de meteoritos. Hoje, os sinais desses tempos estão melhor preservados nas crateras da Lua, que, na época, ficava mais próxima da Terra. Por aqui, a erosão e o movimento das placas tectônicas apagaram muitos vestígios desses impactos.
Há décadas, a região de Pilbara era interpretada por especialistas como uma possível estrutura de impacto de meteorito, mas sua idade exata continuava incerta. Agora, usando técnicas de datação de minerais, os pesquisadores encontraram as provas mais nítidas desse antigo acontecimento geológico.
“O impacto deixou para trás um ‘relógio mineral’. Datando minerais que foram recristalizados ou que se formaram novamente nas rochas danificadas, agora podemos determinar quando esse evento extraordinário aconteceu”, disse Kirkland, em comunicado.

As evidências vieram, principalmente, a partir das análises de um mineral chamado zircão, depositado entre as rochas de basalto da região. Pequenos e resilientes, os grãos desse mineral são capazes de manter um registro do tempo geológico por bilhões de anos.
Alguns dos grãos de zircão, como os pesquisadores constataram, tinham formatos “esqueléticos” e ramificados, sinalizando que eles teriam passado por um crescimento súbito. Esses padrões – semelhantes àqueles encontrados nas crateras lunares – indicavam que o zircão teria se recristalizado sob o calor extremo do impacto.
Com o auxílio de uma Microssonda Iônica de Alta Resolução, os pesquisadores estimaram a idade dos grãos de zircão, datando-os entre 3,4 e 3 bilhões de anos atrás (com uma idade média de 3,02 milhões). Para confirmar os resultados, eles também analisaram outro mineral, a apatita, que se formou nas rachaduras das pedras impactadas, junto ao movimento de líquidos aquecidos. Nessas medições, a idade média também foi estatisticamente idêntica.
“A nova datação coloca a estrutura de North Pole Dome como a mais antiga cratera de impacto conhecida da Terra e o único exemplo reconhecido do éon Arqueano, um período em que os primeiros continentes do planeta estavam se formando”, afirma Kirkland. Antes, quem assumia a posição de mais antiga era a Cratera de Yarrabubba, datada em 2,2 bilhões de anos. Ela fica a apenas 800 quilômetros de distância ao sul da nova vencedora.
Colegas contestam
Os minerais analisados pelo novo estudo foram encontrados em “cones de estilhaçamento”, estruturas cônicas de rocha formadas pela onda de choque do impacto de um meteorito.
Quando a cratera foi documentada pela primeira vez, em março do ano passado, as primeiras estimativas de idade se basearam apenas na correlação entre as idades das camadas de rochas em cima e em baixo desses cones. O resultado foi algo em torno de 3,5 bilhões de anos, mas, ainda naquela época, alguns acadêmicos contestaram os achados divulgados pela equipe de Chris Kirkland.
A principal crítica veio de um de seus colegas da Universidade Curtin, o geólogo Aaron Cavosie, que, na época, liderou outro estudo datando o impacto de North Pole Dome. Seu estudo encontrou cones de estilhaçamento entre camadas de rocha consideravelmente mais jovens, com cerca de 2,7 bilhões de anos. Isso, segundo ele, indicava que o impacto só poderia ter acontecido após essa data.
“Embora eu esteja aliviado pelos autores terem recuado de sua hipótese de 2025 sobre um ‘impacto de 3,5 bilhões de anos’, também não acho que eles tenham apresentado um argumento convincente para um impacto de [3,02 bilhões de anos]”, disse Cavosie.
Kirkland, por sua vez, rebate: “O argumento em favor da idade mais recente ainda depende da correlação, a longa distância, de rochas que não foram datadas, baseada em grande parte em mapeamentos por satélite, e não em análises geoquímicas ou geocronológicas diretas”, diz. “Agora temos dois relógios minerais obtidos das próprias rochas impactadas indicando a mesma idade. É por isso que a datação direta é tão importante.”
O geólogo Alec Brenner, da Universidade de Harvard, que esteve entre a primeira leva de críticos, também expressou suas discordâncias. “Embora o novo estudo descarte essa observação porque essas rochas ‘não foram datadas’, elas podem ser correlacionadas de forma bastante direta com rochas próximas que já foram datadas”, disse.
Kirkland também argumentou que as mudanças mineralógicas observadas por seu estudo (como a formação de minerais pela passagem de água quente pelas frestas de rochas danificadas) só poderiam ser fruto de um processo como um impacto de meteorito.
Disso, Brenner também discorda. “Observar um evento desconhecido de fluxo de fluidos não significa que ele tenha sido resultado de um impacto”, afirmou. “[Kirkland] também trabalhou em outras crateras nas quais eventos semelhantes de fluxo de fluidos datados claramente não estavam relacionados a impactos. Na maioria dos casos, não estão”.
“Portanto, eu sugeriria que eles dataram um episódio hidrotermal ainda não documentado na região”, concluiu.
Fonte: abril





