A cada quatro anos, a Copa do Mundo de futebol masculino traz algumas certezas. As dimensões do campo são rigorosamente regulamentadas, o impedimento é sinalizado com uma bandeira e os árbitros encerram a partida com um apito. Mas um elemento fundamental do equipamento é alterado propositalmente: a bola.
A Adidas, que fornece bolas para a Copa do Mundo desde 1970, apresenta uma nova bola para cada torneio, e com isso vêm novos cálculos aerodinâmicos para os jogadores. Como ela voará pelo ar, fará curvas e mergulhará?
Nos últimos 20 anos, meus colegas engenheiros no Japão e na Inglaterra e eu testamos exaustivamente as novas bolas, investigando a aerodinâmica das bolas de futebol. Nosso trabalho começa colocando as bolas em túneis de vento para medir o arrasto, as forças laterais e de sustentação. Usamos as medições desses testes em simulações de trajetória que nos mostram como a bola se comportará em uma situação de jogo real.
Isso tudo pode parecer um pouco acadêmico, e nós realmente produzimos um artigo acadêmico sobre nossas descobertas. Mas o que nossos dados indicam pode significar a diferença entre um gol ou um chute para fora para os atacantes, uma defesa ou um “frango” para os goleiros e alegria ou decepção para os torcedores.
Na Copa do Mundo, a bola é o equipamento mais importante do maior torneio do esporte mais popular do mundo.
A bola deste ano, a Trionda, é especialmente interessante. Quando a FIFA e a Adidas o revelaram no fim de 2025, a primeira coisa que muitas pessoas notaram foi a cor e os gomos.
Os desenhos em vermelho, azul e verde da bola correspondem aos três países anfitriões, com motivos de folha de bordo, estrela e águia representando o Canadá, os Estados Unidos e o México. E, pela primeira vez na história da Copa do Mundo masculina, as partidas serão disputadas com uma bola de quatro gomos.

Mas, com tão poucos gomos, será que a Adidas deixou a bola lisa demais? Essa foi a armadilha em que os engenheiros caíram com a bola Jabulani usada na Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, que ficou famosa por suas quedas e desvios repentinos, o que tornou a vida dos goleiros muito mais difícil.
Ninguém quer que a bola da Copa do Mundo pareça o início de um experimento científico quando estiver no ar. E se ela se comportar de maneira estranha, jogadores e goleiros perceberão imediatamente.
A evolução das bolas de futebol
As bolas da Copa do Mundo evoluíram bastante ao longo das décadas. Se você voltar a 1930, a bola tinha uma aparência bem diferente. A primeira final da Copa do Mundo usou duas bolas de couro diferentes: a Tiento da Argentina no primeiro tempo e a T-Model do Uruguai no segundo. Ambas eram bolas costuradas à mão, com vários gomos, infladas por uma abertura na bexiga que precisava ser amarrada e enfiada de volta sob os laços. Em condições úmidas, o couro absorvia água, tornando a bola mais pesada e menos previsível em jogo.
Em 1994 – quando os Estados Unidos sediaram pela última vez o torneio masculino –, a bola oficial, a Questra da Adidas, havia evoluído para um design à base de espuma. A bola moderna da Copa do Mundo não é mais apenas couro costurado. É uma superfície aerodinâmica projetada.
A Trionda leva essa evolução ainda mais longe. Ela tem apenas quatro gomos, o menor número na história da Copa do Mundo masculina, que foram termoligados – fundidos usando calor e adesivo.
Menos gomos podem sugerir menor comprimento total de costura e, portanto, uma bola mais lisa. E a suavidade é importante porque a fina camada de ar que se adere à bola determina onde o fluxo se separa, o tamanho do rastro formado e o arrasto que a bola sofre.
A Trionda tem costuras intencionalmente profundas, três ranhuras pronunciadas em cada gomo e uma textura fina na superfície.
Mas será que essas texturas e ranhuras darão certo? Para descobrir isso, meus colegas e eu medimos a geometria das costuras da bola e seu comportamento aerodinâmico geral. Nós a comparamos com as quatro antecessoras da Trionda: a Al Rihla de 2022, a Telstar 18 de 2018, a Brazuca usada em 2014 e a Jabulani de 2010.
O que as medições mostram
Em nossos testes em túnel de vento na Universidade de Tsukuba, medimos o que é chamado de coeficiente de arrasto, que é uma forma de descrever a resistência do ar que a bola enfrenta ao se mover.
Usando esses dados, obtivemos insights sobre como o fluxo de ar muda ao redor da bola depois que ela é chutada. Os testes ajudaram a identificar a crise de arrasto, a faixa de velocidade na qual mudanças na camada limite e na separação do fluxo produzem uma mudança brusca no arrasto, o que pode alterar a aceleração, a trajetória e o alcance da bola.
Descobrimos que a Trionda é efetivamente mais rugosa do que suas antecessoras.
A Trionda atinge seu ponto crítico de arrasto a uma velocidade menor, em cerca de 43 km/h. Isso está abaixo da faixa de aproximadamente 50-65 km/h da Al Rihla, Telstar 18 e Brazuca, e muito abaixo da faixa de aproximadamente 79-97 km/h da Jabulani, dependendo da orientação.
Por que tudo isso importa? Porque uma bola pode parecer comum ao sair da chuteira e ainda assim se comportar de maneira diferente em voo. Quando a crise de arrasto ocorre em velocidades relevantes para o jogo, pequenas mudanças na velocidade de lançamento, orientação ou efeito podem fazer com que a bola passe de um regime aerodinâmico para outro.
Esse era o problema da Jabulani. Uma vez chutada com pouco giro, ela tinha a tendência de desacelerar demais ao passar pela faixa de velocidade crítica.
A Trionda não parece ser esse tipo de bola. Ela tem um coeficiente de arrasto mais estável e consistente na faixa de velocidades associadas a escanteios e cobranças de falta.
Mas há uma desvantagem. Nossas medições também mostraram que, uma vez que a Trionda entra no regime de alta velocidade e fluxo turbulento, seus coeficientes de arrasto são um pouco maiores do que os da Brazuca, Telstar 18 e Al Rihla.
Em linguagem simples, isso sugere que um passe longo chutado com força pode perder um pouco de alcance.
Em nossas simulações, a diferença não é enorme. Mas é grande o suficiente para que os jogadores possam notar que chutes longos ficam alguns metros aquém do esperado.
Também é importante observar que testamos uma bola sem giro. Sendo assim, nossos resultados não fornecem uma previsão de todos os passes, rebatidas ou cobranças de falta que os torcedores verão neste torneio. As bolas em voo frequentemente giram devido a chutes descentrados. Isso, juntamente com a altitude, a umidade, a temperatura e a pressão atmosférica, influencia a forma como a bola voa pelo ar após ser chutada.
O grande teste ainda está por vir
Menos gomos e mais textura não são as únicas diferenças da nova bola.
A Trionda também traz uma tecnologia que tem pouco a ver com seu voo e muito a ver com a arbitragem. Assim como a Al Rihla, a Trionda inclui a “tecnologia de bola conectada” que permite que computadores saibam quando a bola é chutada, ajudando nas decisões de impedimento.
Mas a arquitetura mudou. Em 2022, a unidade de medição estava suspensa no centro da bola. Com a Trionda, ela fica em uma camada criada especialmente dentro de um dos gomos, com pesos de contrapeso nos outros três gomos. O chip envia dados para o sistema de árbitro assistente de vídeo, ou VAR, e para o sistema semiautomatizado de impedimento do torneio.
Esse ajuste ajudará os árbitros, mas será que a nova bola, em geral, ajudará ou prejudicará os jogadores?
As evidências de nossos testes sugerem que a bola não se comportará de maneira a causar um voo confuso e errático.
Mas as possibilidades mais intrigantes são mais sutis e estão fora do escopo de nossos testes. Será que as ranhuras na Trionda ajudarão os jogadores a gerar mais efeito de retrocesso na bola, gerando mais sustentação e possivelmente compensando o coeficiente de arrasto em alta velocidade um pouco maior da Trionda?
É por isso que continuo estudando as bolas da Copa do Mundo tanto em laboratório quanto por meio de seu comportamento em jogo. A cada quatro anos, um novo design oferece uma maneira renovada de ver a física entrar no jogo, não na teoria, mas no movimento de um objeto no qual todos os jogadores em campo devem depositar sua confiança.
Fonte: abril




