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Conflito entre Países Produtores de Petróleo e de Eletricidade: Entenda a Disputa Energética

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  • *Jennifer Morgan é associada sênior do Center for International Environment and Resource Policy and Climate Policy Lab, da Universidade Tufts. O texto a seguir é do site The Conversation.

    Há dois anos, países de todo o mundo estabeleceram a meta de “fazer a transição dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos de maneira justa, ordenada e equitativa”. O plano incluía triplicar a capacidade de energia renovável e duplicar os ganhos de eficiência energética que estão aquecendo o planeta.

    O mundo está progredindo: mais de 90% da nova capacidade energética adicionada em 2024 veio de fontes de energia renováveis, e 2025 viu um crescimento semelhante.

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    Mas a produção de combustíveis fósseis também continua em expansão. E os Estados Unidos, o maior produtor de petróleo e gás natural do mundo, agora pressiona agressivamente países para que continuem comprando e queimando combustíveis fósseis.

    A transição energética não deveria ser o tema principal quando os líderes mundiais e negociadores se reuniram na Cúpula do Clima das Nações Unidas de 2025, a COP30, em novembro, em Belém, Brasil. Mas ela ocupou o centro das discussões do início ao fim, chamando a atenção para o debate geopolítico real sobre energia em andamento e os riscos em jogo.

    O presidente Lula iniciou a conferência pedindo a criação de um “mapa do caminho” formal, essencialmente um processo estratégico no qual os países poderiam participar para “superar a dependência dos combustíveis fósseis”. Isso levaria das palavras para a ação uma decisão global de fazer a transição dos combustíveis fósseis.

    Mais de 80 países disseram que apoiaram a ideia, desde pequenas nações insulares vulneráveis como Vanuatu, que estão perdendo terras e vidas devido à elevação do nível do mar e tempestades mais intensas, até países como o Quênia, que vêem oportunidades de negócios na energia limpa, e a Austrália, um país grande produtor de combustíveis fósseis.

    A oposição, liderada pelos países produtores de petróleo e gás do Grupo Árabe, impediu qualquer menção a um plano de transição energética do tipo “mapa do caminho” no acordo final da conferência climática, mas os defensores da proposta continuam avançando.

    Eu estava em Belém para a COP30 e acompanho de perto os desenvolvimentos como ex-enviada especial para o clima, chefe da delegação da Alemanha e integrante sênior da Fletcher School da Tufts University. A disputa sobre se deveria ou não haver um mapa do caminho mostra o quanto os países que dependem de combustíveis fósseis estão trabalhando para retardar a transição energética, e como outros estão se posicionando para se beneficiar do crescimento das energias renováveis. E essa é uma área importante a ser observada em 2026.

    Batalha entre ‘eletroestados’ e ‘petroestados’

    O diplomata brasileiro e presidente da COP30 André Aranha Corrêa do Lago se comprometeu a liderar um esforço em 2026 para criar dois “mapas do caminho”: um para deter e reverter o desmatamento e outro para a transição dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos de maneira justa, ordenada e equitativa.

    Ainda não está claro como serão esses mapas. É provável que eles se concentrem em um processo para que os países discutam e debatem como reverter o desmatamento e eliminar gradualmente os combustíveis fósseis.

    Nos próximos meses, Corrêa planeja convocar reuniões de alto nível entre líderes globais, incluindo produtores e consumidores de combustíveis fósseis, organizações internacionais, indústrias, trabalhadores, acadêmicos e grupos ativistas.

    Para que o mapa do caminho seja aceito e útil, o processo precisará abordar as questões do mercado global de oferta e demanda, bem como a equidade. Por exemplo, em alguns países produtores de combustíveis fósseis, as receitas do petróleo, gás ou carvão são a principal fonte de renda. Como será o caminho a seguir para os países que precisarão diversificar suas economias?

    A Nigéria é um estudo de caso interessante para avaliar essa questão.

    As exportações de petróleo são consistentemente a maior parte da renda da Nigéria, representando cerca de 80% a mais de 90% da receita total do governo e das receitas em moeda estrangeira. Ao mesmo tempo, aproximadamente 39% da população da Nigéria não tem acesso à eletricidade, o que representa a maior proporção de pessoas sem eletricidade de qualquer nação. E a Nigéria possui recursos abundantes de energia renovável em todo o país, que são em grande parte inexplorados: solar, hidrelétrica, geotérmica e eólica, proporcionando novas oportunidades.

    Como seria um mapa do caminho

    Em Belém, representantes discutiram a criação de um mapa do caminho baseado na ciência e alinhado com o Acordo de Paris sobre o clima, que incluiria várias vias para alcançar uma transição justa para as regiões dependentes de combustíveis fósseis.

    E parte da inspiração para ajudar os países produtores de combustíveis fósseis a fazer a transição para uma energia mais limpa podem vir do Brasil e da Noruega.

    No Brasil, Lula pediu a seus ministros que preparassem diretrizes para desenvolver um roteiro para reduzir gradualmente a dependência do Brasil dos combustíveis fósseis e encontrar uma maneira de apoiar financeiramente a transição.

    Seu decreto menciona especificamente a criação de um fundo de transição energética, que poderia ser financiado pelas receitas do governo provenientes da exploração de petróleo e gás. Embora o Brasil apoie o abandono dos combustíveis fósseis, ele ainda é um grande produtor de petróleo e recentemente aprovou novas perfurações exploratórias perto da foz do Rio Amazonas.

    A Noruega, um grande produtor de petróleo e gás, está criando uma comissão formal de transição para estudar e planejar a transição de sua economia para longe dos combustíveis fósseis, com foco especial em como a força de trabalho e os recursos naturais da Noruega podem ser usados de forma mais eficaz para criar empregos novos e diferentes.

    Ambos os países estão apenas começando, mas seu trabalho pode ajudar a apontar o caminho para outros países e informar um processo de mapa do caminho global.

    A União Europeia implementou uma série de políticas e leis destinadas a reduzir a demanda por combustíveis fósseis. Ela tem uma meta de ter 42,5% de sua energia proveniente de fontes renováveis até 2030. E seu Sistema de Comércio de Emissões, que reduz gradualmente as emissões que as empresas podem fazer, em breve será expandido para abranger habitação e transporte. O Sistema de Comércio de Emissões já inclui geração de energia, indústrias de uso intensivo de energia e aviação civil.

    Combustíveis fósseis e energias renováveis

    Nos EUA, o governo Trump deixou claro por meio da sua política pública e diplomacia que está adotando a abordagem oposta: manter os combustíveis fósseis como a principal fonte de energia nas próximas décadas.

    A Agência Internacional de Energia (IEA) ainda espera ver a energia renovável crescer mais rapidamente do que qualquer outra fonte de energia importante em todos os cenários futuros, já que os custos mais baixos da energia renovável a tornam uma opção atraente em muitos países. Globalmente, a agência espera que o investimento em energia renovável em 2025 seja duas vezes maior do que o investimento em combustíveis fósseis.

    Ao mesmo tempo, porém, os investimentos em combustíveis fósseis também estão aumentando com a rápida crescimento da demanda por energia.

    O World Energy Outlook da IEA descreve um aumento repentino em novos financiamentos para projetos de gás natural liquefeito, ou GNL, em 2025. Agora, espera-se um aumento de 50% no fornecimento global de GNL até 2030, cerca de metade proveniente dos EUA. O World Energy Outlook, porém, observa que “ainda há dúvidas sobre para onde irá todo o novo GNL” depois de produzido.

    No que ficar de olho

    O diálogo sobre o mapa do caminho em Belém e como ele equilibra as necessidades dos países terá reflexos na capacidade do mundo de lidar com as mudanças climáticas.

    Corrêa planeja relatar seu progresso na próxima conferência anual da ONU sobre o clima, a COP31, no final de 2026. A conferência será sediada pela Turquia, mas a Austrália, que apoiou o apelo para um mapa do caminho, estará liderando as negociações.

    Com mais tempo para discutir e se preparar, a COP31 pode trazer de volta às negociações globais a transição energética para longe dos combustíveis fósseis.

    Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

     

     

    Fonte: abril

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