Noventa minutos correndo de um lado para o outro, disputando cada bola sob um sol escaldante. Parece o cenário perfeito para jogadores ficarem mais agressivos – mas uma nova pesquisa sugere que acontece justamente o contrário.
Um grupo de pesquisadores da Universidade Humboldt de Berlim e do Instituto Universitário Europeu, na Itália, analisou mais de 997 mil partidas de futebol amador na Alemanha e descobriu um padrão curioso: nos jogos disputados sob calor, o número de faltas cometidas era menor. Os resultados foram publicados em junho deste ano no periódico científico PNAS Nexus.
Eles compararam partidas disputadas no mesmo local, na mesma liga e na mesma temporada. Os jogos ocorreram entre julho de 2022 e setembro de 2025. Em seguida, cruzaram os dados sobre a quantidade de cartões aplicados em cada partida com a temperatura registrada naquele dia.
Os cartões foram usados como um indicador de agressividade em campo, já que são aplicados em situações de indisciplina.
Até agora, tanto o público geral quanto parte da literatura científica sugeriam que temperaturas elevadas favoreciam conflitos entre os jogadores. A nova pesquisa mostra que isso é verdade – mas só até certo ponto.
De fato, os cartões amarelos e vermelhos aumentam à medida que a temperatura sobe. Porém, isso acontece apenas até cerca de 13 °C. Acima desse ponto, o número de cartões, principalmente os amarelos, começa a cair conforme as temperaturas são mais elevadas.
Nos dias mais quentes, foram registrados cerca de 15% menos cartões do que a média observada na pesquisa. A temperatura máxima analisada foi de 32 °C.
A hipótese levantada pelos autores é que isso acontece por causa da redução do contato físico em campo. Muitas faltas surgem em disputas intensas, com carrinhos, saltos e divididas mais fortes. Com o calor extremo, porém, os jogadores tendem a poupar energia, reduzindo esse tipo de lance e, consequentemente, o número de faltas.
“O calor moderado pode aumentar a irritabilidade e a excitação; no entanto, na medida em que o comportamento agressivo exige contato físico, ele pode diminuir em temperaturas extremas”, diz um trecho do estudo.
Para os pesquisadores, os estudos anteriores que associavam calor e agressividade podem ser explicados pelo fato de que muitos deles foram realizados em laboratório ou com dados do futebol profissional. Nesses casos, os atletas contam com pausas para hidratação, ambientes climatizados e outras condições que não fazem parte da realidade do futebol amador. Segundo os autores, isso limita a aplicação desses resultados às interações cotidianas.
Outro ponto importante é que as conclusões não podem ser generalizadas. A pesquisa analisou apenas partidas de futebol amador, disputadas majoritariamente por homens, e a temperatura máxima registrada (32 °C) é inferior às observadas em ondas de calor de outros países. Além disso, a redução no número de cartões não significa que o calor extremo tenha menos impacto sobre o organismo. Pelo contrário: ela sugere que os jogadores passam a economizar energia, reduzindo a intensidade das disputas.
Fonte: abril





