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Como A Neutralidade da Suíça Impulsionou Lucros na Ditadura Brasileira

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2026

Em dezembro de 1970, Anton Von Salis, presidente da Swisscam, a Câmara de Comércio Suíço Brasileira, afirmou que os salários pagos no Brasil eram significativamente menores do que os da Suíça, justificando a diferença pela condição de vida local. Segundo ele, os trabalhadores brasileiros tinham casas adequadas e o clima permitia menor remuneração.

Von Salis concedeu a declaração à RTS, rádio e TV pública suíça, destacando que a ditadura militar brasileira proporcionava estabilidade, mão de obra barata e oportunidades lucrativas para o capital suíço.

Uma pesquisa conduzida por Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, comparou os salários das 14 maiores multinacionais suíças em 1971. Os resultados mostram que trabalhadores sem qualificação recebiam apenas um quinto do salário de um suíço na mesma função. Já os profissionais especializados tinham ganhos equivalentes a 57% do salário suíço, mantendo grande vantagem para as empresas.

O estudo resultou no livro Don’t Miss The Bus, que detalha como o capital suíço aproveitou incentivos fiscais, mão de obra barata e um ambiente social controlado para aumentar lucros. Gabriella estimou que essas multinacionais faturaram cerca de 80 milhões de francos suíços apenas em 1971.

Investindo na opressão

Entre 1964 e o final da década de 1970, a Suíça foi um dos quatro maiores investidores no Brasil, atrás apenas de Estados Unidos e Alemanha, mas liderando em investimento per capita. Em 1973, o investimento suíço no Brasil alcançou 1,1 bilhão de francos suíços, e em 1977 chegou a 2,3 bilhões. As empresas atuavam em setores como alimentação, metalurgia, petroquímica, farmacêutico e financeiro.

Quando questionado sobre prisões e torturas que garantiam essa estabilidade, Von Salis minimizou os relatos, afirmando que violações ocorrem em todos os países.

Sequestro de diplomatas

No período da entrevista, o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher estava sequestrado há 40 dias por Carlos Lamarca e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sendo libertado em troca da liberdade de 70 presos políticos enviados ao Chile. Outros diplomatas sequestrados incluíram representantes dos EUA, Alemanha e Japão, todos grandes parceiros comerciais do Brasil.

Outro lado

A Suíça informou que uma análise detalhada exigiria pesquisas históricas aprofundadas, mas ressaltou que estudos independentes ajudam a compreender o passado. A Swisscam não respondeu às solicitações de acesso a arquivos ou esclarecimentos adicionais.

Esta reportagem integra o projeto Perdas e Danos, que investiga a ditadura militar e suas relações econômicas internacionais.

Fonte: cenariomt

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